História de um tubarão
Administramos, eu mais o rbp, érre, para os íntimos (e mortal contra os insetos), o internacionalmente famoso CyberShark.net. Este blog, e um monte de outros, e mais vários sites, rodam neste servidor comunitário, que, apesar de ser administrado por nós dois, é mantido por diversas pessoas. Tem uma pequena comunidade vivendo nesse micro-ecossistema digital que é um servidor próprio. Muita gente pode perguntar, why bother? Digo, com tanta empresa por aí fornecendo serviço de alta qualidade de graça, Gmails, wordpress.com, Blogspot, pra quê manter um servidor próprio, pagar os custos, dar um trampo administrando. Tem diversas respostas, incluindo que quando ele foi criado não haviam todos estes serviços legais, mas acho que no fundo é uma questão de… independência. Fazer as coisas do seu jeito. Se auto governar. Entende? Nós somos uma vilinha, mas essa vilinha é nossa, e não do Google.
De qualquer forma, estamos por aí desde dezembro de 2000, embora oficialmente o domínio tenha sido registrado efetivamente em janeiro de 2001. Começou com um ex-desktop meu rodando um finado Conectiva, conectado num então recém criado Speedy Bussines. Isso foi por um tempo, passando por diversos upgrades de hardware, e locais. A coisa começou no porão da casa dos meus pais (quão clichê isso soou! Só falta virarmos uma empresa multimilionária pra frase ter mais impacto…), casei, mudei o servidor comigo, tive que mudar de novo, dessa vez sem condições de levar a máquina. Foi aí que o Poka, antigo participante da comunidade, ofereceu pra segurar a onda hospedando o nosso tubarãozinho na sua loja, a Empório Aventura. Por anos ele segurou sozinho a despesa do Virtua Bussines (já havíamos desistido da Speedy fazia tempo), da eletricidade e ainda deu um puta upgrade de hardware. Pela primeira vez na história o CyberShark rodava em uma máquina nova, comrpada só pra ele, e não em restos de computadores ajuntados. Muito legal.
O que não estava legal era o link. Vocês vêem, as emresas de badna larga existem pra conectar usuários na Internet. Mas quando alguém se conecta na Internet, você pode enviar dados e você pdoe receber dados. Claro, todo mundo envia e recebe, mas há um fluxo predominante, em geral. Um portal de comunicação, ou um servidor, vai enviar muito mais do que receber. e o cara que está lá navegando, baixando música, jogando, vendo vídeo no Youtube e procurando fotos amadoras, ele muito mais recebe do que envia. As empresas de banda larga se propõem a atender o público que recebe, o usuário final. Óbvio que, tecnicamente, você consegue colocar um servidor conectado 24/h enviando dados num link de banda larga. – inferno, nós fizemos isso por anos! Só que a empresa de banda larga não e feita pra isso, não gosta disso e, se puder, ele quer a todo custo se livrar disso. Eles infernizam sua vida e se você for embora, hey, era essa a idéia. Vá levar seu servidor pra outro lugar e fique com nosso link pra navegar.
Já havíamos decidido fazer exatamente isso, claro, mas o custod e alugar um servidor em um datacenter gringo, apesar de infinitamente menor do que em um datacenter nacional, era ainda proibitivo, e íamos levando com a barriga. O CyberShark continuava em uma prateleira na Empório, vivendo feliz. Até que um dia…
The Death and Resurrection Show
Era segunda de tarde eu cheguei em casa e fui recebido com um telefonema do rbp:
- Lembra do CyberShark? Ele caiu.
- Claro, respondi. Notei que ele está fora – de fato era bem comum estar fora quando você insiste em rodar servidor em link de banda larga caseira - mesm… peraí, como assim, “lembra”?
A prateleira cedeu. Nosso servidor havia, pela primeira vez em toda minha carreira de sysadmin literalmente caído! O servidor.. caiu… mesmo… no chão. Foi-se desta para uma melhor para o céu dos servidores.
O rbp me conta isso e eu fico catatônico.
- Hã?
- Servidor. Caiu. Espatifou-se. Não mais. Piiiiii.
- Hã?
- Daniduqueeeeeeeee…..
- Hã… CARALHO!! E O IXTLAN?
O Ixtlan era nosso servidor de backups. Que ficava na mesma prateleira. Shiu! Quietos! Nem um pio sobre isso! Eu sei! eu sei! EU SEI!
Como o CyberShark estava na ponta que cedeu e foi-se inteiramente, pluft, pro chão. O Ixtlan estava na outra ponta e ficou preso por um cabo de força, lutando por sua existência literalmente por um o. Ou um cabo. Viveu.
- Arf. Arf. – Eu estava tendo trabalho pra controlar a respiração.
- Respira, Daniduc, respira. Isso, calma, calma. – O érre é um bravo.
Sim, foi o que eu consigo chamar de uma perda catastrófica de servidor.Ao sair do choque, resolvemos seguir a teoria do Marquês de Pombal após o terremoto de Lisboa em 1755. vocês sabem esse terremoto? Não? Em 1755 no dia de todos os Santos, Lisboa foi atingida por um terremoto estimado 9 na famosa escala Richter. Por seis minutos! Fendas gigantescas se abriram no chão. Destruição generalizada. Findo o terremoto, os lisboetas notaram que o mar não estava mais lá. Havia recuado. Mas voltou, e voltou com força. Um tsunami seguiu o terremoto e três ondas gigantes, estimadas em vinte metros de altura bateram no que restava da cidade. Quando elas pararam, começaram os incêndios. Por cinco dias a ciade ardeu em chamas descontroladas. Não havia muito mais Lisboa. Perguntaram então pro primeiro ministro da época, o Marquês de Pombal: “E agora?”
- Agora? Agora enterrem o mortos e alimentem os vivos.
E iniciou os esforços de reconstrução da cidade.
Lá fomos eu e o érre na mesma idéia. Passo um, achar um Datacenter. Por sorte já havíamos feito alguma pesquisa. Por burric… azar, não havíamos ainda implementado ela, e estávamos enrolando pra migrar. Faltava aquele empurrãozinho da prateleira. Só faltou acertar uns detalhes pra fechar no susto o contrato:
- Please, mister Datacenter gringo, do you have good prateihleihras?
- I beg your pardon?! (tradução: WTF?)
- You know, prateihleihras that don’t caem? Assim, pluft, on the floor?
Claro, tem gente por aí que fala que o legal é fazer a migração com calma, planejando e tal, mas são os mesmo que olham pros dois lados antes de atravessar rua de mão única, esse tipo de coxinha nem tem coragem de sair de um avião em perfeito estado de funcionamento a dez mil pés. O qu,e aliás, eu e o érre já fizemos – ele mais do que eu, fato. Ele chegou a ter seu próprio para-quedas antes de decidir que esse negócio de se jogar no vazio confiando apenas e tão somente nos seus reflexos e equipamento pra evitar a morte é muito monótono e resolveu começar a desenvolver em Python. Mas enfim, eu já havia sido sysadmin profissional e consultor. Migrar servidor fora era a norma. Nada fora do padrão.
- Ué, Daniduc, você hoje não ia migrar o servidor da empresa com 10 mil clientes? – diziam os desprevenidos gerentes.
- Era isso mesmo.
- E tá esperando o que pra começar?
- Alguém chutar a tomada da máquina em produção ao meio dia. Ué. Por que?
E invariavelmente alguém semrpe chutava. Claro, estou romanceando, não era bem assim. Na verdade, eu nunca esperava o pânico começar – em geral quando tomávamos conhecimento da necessidade de migração, ele já plenamente desenvolvido.
Ah, os bons tempos. No caso do CyberShark era fácil – usuários bonzinhos e compreensivos. Claro que quando o seu trabalho atinge o chão para segurar um lírio com olhinhos em forma de xis pra em seguida subir tocando uma harpa, as pessaos tendem a ficar um pouco tensas. Razoável. Mas todos bonzinhos e compreensivos diante do desastre.
Acabamos escolhendo uma hospedeira pequena, que usa espaço em um Datacenter maior. Ela algua alguns racks por lá, e subloca os servidores pra nós, digo, pros clientes, ou seja nós. Também. Enfim. Chama-se M5 Hosting – http://www.m5hosting.com/. Quem me atendeu durante as negociações foi o Mike, da vendas. Super atencioso. Fechamos, pedimos urgência, ele disse que ia repassar isso pro departamento técnico já pra agilizar, enquanto fechávamos a venda.
Passei as especificações pro departamento técnico. Queria um Debian, especifiquei versão, particionamento, pacotes (precisávamos de ferramentas de desenvolvimento), tudo. Eles instalam tudo customizado, conforme você pede – uma das vantagens que nos fez escolhê-los. O departamento técnico responde, e, surpresa, é bom! O cara parece saber do que está falando, conhece o ramo, inclusive corrigiu um pequeno erro que havia cometido, devido à pressa. Massa. Por coincidência, o nome do cara também era Mike.
O servidor entrou no ar, eu comecei imediatamente a baixar um monte de tar gêzê pra instalar a parafernália de programas que precisávamos. Boa hora para upgrades, aliás. Logo chegou a cobrança da M5, com um preço bem razoável. O departamento de cobrança também tinha um Mike. O mesmo.
Mike. Como assim? O cara fazia vendas, cobrança, instalaçao e suporte? O mesmo cara? quantas pessoas tem nessa empresa? O rbp se ligou: M5 quer dizer…. Mike, Mike, Mike, Mike… and Mike! Hah.
Confesso que fiquei um pouco tenso, mas na verdade os medoos, um ano e meio depois, se mostraram totalmente infundados. Sim, o Mike e seus clones respondem por quase tudo. Mas respondem! Rápido! Nunca nos deixaram na mão, os Mikes, ao contrário. E semrpe tivemos uma resposta não só ágil, mas razoável, personalizada e tecnicamente boa. Desconheço a que horas ele dorme, se ele dorme no datacenter, se tem esposa ou é casado com as máquinas (não o são todos os sysadmins?), mas o fato é que temos o atendimento ágil e personalizado de uma empresa pequena que valoriza seus clientes. Às vezes eu me pergunto se o Mike tem uma daquelas caixas de papelão do Calvin, escrita “Duplicador” no lado. Seja como for, funciona.
Virei umas noites, espremendo alguns gigabytes de backups (Oh, bendito seja Ixtlan) através do funil do Virtua em direção à sua morada nova em San Diego. Em pouco tempo nos recuperamos, nos organizamos, e evoluímos pra algo muito melhor.
Na porrada, que é como toda evolução que se preza ocorre.