O bazar é legal, mas a Catedral é impressionante

Andando pelas ruinhas, perdido olhando no mapa, não podíamos estar longe da maior atração turística de Milão, tanto literal quanto simbolicamente. Il Duomo di Milano, A catedral de Milão, estava perto, e eu estava curioso. Quer dizer, uma catedral é uma catedral, mas eu só tinha visto a da Sé, em Sampa. Catedrais européias são famosas.

Viramos a esquina, e a ruazinha estreita e despretensiosa desembocou na…

Catedral de Milão.

É díficil explicar o impacto que aquilo teve. Eu não estava esperando, eu não estava preparado pra Il Duomo de Milano. Meu queixo caiu, eu fiquei paralizado, no meio do movimento, olhando pra cima e depois de algum esforço e tempo consegui dizer, no auge da minha expressividade e criatividade:

- Uou. Caralho… UOU!

Eu nem vou tentar descrever – gente muito melhor do que eu o fez (Mark Twain sendo apenas um), mas eu vou te dizer um lance: esqueça, desconsidere as fotos e desenhos – eles são outro departamento. São legais, e são bonitos, mas são maquetes comparadas à cidade. Se é que me entendem.

Depois do Duomo de Milão eu fiquei meio fascinado por outras catedrais. Vi muitas outras, e ela nunca deixam de me impressionar. O que mais me move não é o tamanho, a imponência da obra, mas o tempo que muitas delas levam pra ficar prontas. A de Milão começou a ser construída em 1386 e demorou seiscentos e vinte e um anos pra ficar pronta. Seiscentos. E vinte. E um. Anos!

Muitas obras são antigas, e muitas obras demoraram bastante tempo, mas o lance com as catedrais é que elas são iniciadas por pessoas que sabem que não verão seu fim. Nem elas, nem a próxima geração. Nem a próxima. Nem a próxima.

Nem a próxima.

De fato, quando se inicia uma obra desse porte, não dá pra ter certeza de que, ao seu final, ainda existirá o seu país. Ou mesmo a sua cidade, ou o mundo. Ou a sua religião! Houveram catedrais que deixaram de ser católicas e passaram a ser Protestantes. O Panteão foi construído como templo pagão pra Roma antiga, ao longo de uns 150 anos, e quinhentos anos depois não existia mais Império Romano, o paganismo dera lugar ao Catolicisimo como religião predominante na Europa, e o Panteão foi doado à Igreja Católica, e é um templo católico em uso até hoje!

Cada geração vem, e maioria delas, a maioria absoluta, ao longo de séculos, não viu o início e não verá o fim, mas mesmo assim trabalha pra completar algo monumental, unidos em um propósito comum, confiando que a próxima geração continuará o trabalho, até que eventualmente uma delas no futuro dará significado a isto tudo, completando a obra, nem sempre (ou melhor: quase nunca) da maneira pensada ou imaginada por quem iniciou, mas isso não é importante, na verdade, é parte da beleza disso tudo, cada geração alterar e dar sua interpretação, um tijolo por vez, para formar uma obra conjunta da qual a maioria de seus construtores não tem idéia de como será.

Não é que as catedrais sejam antigas – a Pirâmide de Giza foi feita em 2560 antes de Cristo. Mas ela foi feita em apenas uma geração. Não é que elas tenham sido construídas ao longo de gerações – a cidade de Amsterdam é um intricado complexo de canais, numa obra de engenharia impressionante construída ao longo de uns bons 700 anos. Mas cada geração fez o que precisou pra satisfazer suas necessidades imediatas, tendo utilidade imediata, podendo ser ali mesmo o fim da obra toda, a qualquer momento. As catedrais são um esforço concentrado em um fim, algo que só terá sentido pleno quando terminado, anos no futuro. Você trabalha não pra você, não pro seu uso, mas pro futuro, pra pessoas e um mundo que não se tem a menor possibilidade de imaginar como será (se erram previsões pro ano que vem!). E caso dali a quatro gerações, o que não é muito tempo na construção de uma catedral, mas é na vida humana, ninguém mais der andamento àquilo tudo? E se explodir uma guerra? E se vier um terremoto e destruír tudo antes, bem antes do fim? E se acabar o dinheiro? E se?

Não importa, o futuro ninguém sabe, e trabalha-se no presente, e pro futuro resta apenas… esperança. E essa mensagem é, mais do que religiosa, profundamente humana. Porque religiões variam, mudam, surgem e se extinguem, mas todas têm algo em comum: são seguidas por humanos, e se há algo que nos une, algo que nos define, esperança no futuro é certamente parte disso.

Pepito

Pepito trampava na área de infra do Datacenter. Canos, paredes, parafusos, água, seu trampo era manter o prédio todo funcionando e executar (ou coordenar a execução) das mudanças físicas na estrutura. Com isso ele andava o dia todo por toda parte, falando com todo mundo em seu sotaque uruguaio bem humorado. Todo mundo gostava do Pepito, mas as mulheres mais. O pilantra fazia sucesso, e tirava partido disso. Sua fama de safado era notória, mas isso não diminuía o número de candidatas à “oficiais” do Pepito – uma fila que ele mantinha andando, com entusiasmo e dedicação. Pepito nunca foi homem de um amor só.

Um dia, numa roda só de homens, pepito contava algumas histórias, e acabou compartilhando que havia experimentado, pela primeira vez, Viagra. Ele devia ter uns 29 anos, então não pertencia, digamos, ao público alvo do Viagra. Por isso, fiquei curioso e caí na armadilha:

- E aí, deu diferença?

- Não, foram as mesmas seis vezes de sempre.

Filho da puta.

Arte e efeito

Arte  tem dois  efeitos principais: expressão e mudança. Expressão não é apenas o artista se expressando, mas principalmente o artista expressando o seu público. Nessa função, a arte sintetiza, expõe, expressa, enfim, algo que está na audiência, mas que ela não sabia expor por si mesma. Sabe quando você acessa um livro, uma música, um quadro e pensa, cara é exatamente isso, é assim que eu penso (ou me sinto)? Isso quer dizer que a arte fez o seu papel de expressão. Arte dá voz a coisas que não teriam voz de outra maneira, traz à tona algo que estava escondido, mas querendo sair.

A mudança pode se dar no estado de espírito, inspiração, estado de consciência ou visão de mundo. A audiência é afetada pela arte e após a exposição à ela não é mais a mesma de antes. Sabe quando você olha uma história em quadrinho, um desenho, uma música e pensa “cacete, dá para fazer isso?!”

Mas a mudança tem de ser defintiva e verdadeira. Se logo após você volta ao estado anterior, e tudo o que resta é uma agradável sensação pelo tempo passado, então não é arte. Se a obra consegue apenas aliviar um instinto, ou um sentimento, provocar uma catarse momentânea, ou preencher meia hora enquanto você espera a morte (nas palavras do Alan Moore), desta forma aliviando o tédio, então você tem entretenimento, não arte.

Definitiva e verdadeira não quer dizer que você ficará pra sempre naquele estado de espírito ou consciência. Quer dizer que esta mudança foi pra algo que você não conhecia previamente, e ao fazer isto abriu uma nova possibilidade de estado. Esta abertura de uma nova fronteira é uma mudança definitiva. O entretenimento te leva à lugares que você já conhece. Agradáveis de se revisitar, verdade, mas conhecidos.

Esta mudança definidora deve ocorrer necessariamente na audiência. Se a obra causa uma mudança apenas no mercado, ou na sociedade, ou em outros aspectos abstratos não pessoais, também não é arte por si. Obviamente que sociedade e mercado são obras humanas, mas são obras coletivas (o oposto de pessoal). Quando a arte muda um número suficiente de pessoas, a mudança pode escalar pra sociedade, ou mercado, mas não necessariamente. Se uma obra mudar uma audiência de uma única pessoa, e depois ambas desaparecerem, ainda assim é arte.

A intenção da obra ao ser produzida não importa. O que importa é seu efeito. Se a obra é produzida com intento de ser entretenimento, e expressa algo verdadeiro na audiência, se ela a transforma, então você tem arte, independente do que se quis produzir. Se uma obra feita pra ser exposta na Bienal diverte por alguns minutos, mas é esquecida sem ressoar verdadeira e sem alterar a audiência, é entretenimento, mesmo que quisesse ser arte.

Isto tudo quer dizer que arte é algo profundamente pessoal. O que expressa e transforma pra um, pode não ter efeito nenhum pra outro. E daí há grand discussão se determinada obra é arte, ou apenas escatologia, entretenimento ou outra coisa. Mas somos todos humanos, e isso quer dizer que com todas nossas diferenças, há algo em comum entre todos nós. E a melhor arte age exatamente nesta base comum, universal, expressando-a e, ao fazer isto, transformando-a definitivamente.

Todos os Kennedys mortos

Em 1980 a banda Dead Kennedys, fundada dois anos antes em San francisco, já havia atingido algum sucesso no underground, apesar de não ter nenhum disco gravado, com uma nova variação do punk que seria conhecido como hardcore. Usando sarcasmo ácido, a banda batia com a mão fechada no sistemão direitista-neo-liberal. A música California Über Alles atacava com precisão cortante o modo de pensamento, então incipiente, que dominariao mundo uma década mais tarde e está no poder até hoje. A banda usava a música como instrumento político e mirava forte a burguesia americana.

Ao perceber que os moleques produziam algo que ressoava com o público, e portanto tinham potencial comercial, a indústria fonográfica, parte integrante do tal “sistemão” fez o que toda indústria faz: tentou ganhar uma grana e cooptar os moleques. Os Dead Kennedys foram chamados para tocar sua canção mais conhecida, California Über Alles no 1980 Bay Area Music Awards, a premiação local da indústria musical, onde os novos talentos são apresentados. Esta era a chance que muitas bandas iniciantes sonham, pois têm a chance de tocar diante dos figurões da indústria e tentar gravar o seu primeir disco, primeiro passo rumo ao estrelato. E eles alegremente aceitaram.

Na passagem de som, durante a tarde, eles tocaram a música normalmente. Mas na hora do show pra valer, na cerimônia ao vivo, eles interromperam a apresentação logo nos primeiros acordes. Jello Biafra, o vocalista e líder, grita:

- Segura um pouco, segura aí.

A banda desafina e pára.

- Nós temos que provar que somos adultos agora. Nós somos uma banda de punk rock, uma banda da nova onda (”new wave”).

O baixista começa uma nova batida, e logo a banda toda segue em uma música inédita. A letra dizia:

“Tô cansado de ter auto respeito, não tenho grana prum carro, quero ser um astro pré-fabricado. Eu quero ser um instrumento, eu não preciso de uma alma mesmo, eu quero faturar grandão tocando rock and roll. Vou tornar minha música chata, vou tocar minha música devagar, eu não sou um artista, sou um empresário, não tenho idéias próprias. Eu não vou ofender, não vou chutar o balde, vou fazer apenas sexo, drogas e rock and roll.”

Durante o show, os integrantes da banda usavam camisas com uma enorme letra S no peito. No meio da música, eles colocaram gravatas que estavam escondidas nas costas, como respeitáveis membros da sociedade. Só que as gravatas cruzavam o S, formando um enorme… $.

A música continuava descrevendo como iriam fazer tudo nos conformes, se drogando e tocando o que o público queria ouvir. Então chegava o refrão final.

[eu vou fazer tudo isso], mas só tem um probleminha… será que meu pau é grande o suficiente e o meu cérebro pequeno o suficiente pra vocês me tornarem um astro? Puxe minhas cordas e eu irei longeeeeee…. só a guitarra!

(Solo de guitarra)

“Será que meu pau é grande o suficiente e o meu cérebro pequeno o suficiente pra vocês me tornarem um astro? Puxe minhas cordas e eu irei longe… todo mundo junto, vamos lá, mãos pro alto… batendo palmas!”

E a platéia, entre confusa e divertida, obedecia, pondo as mãozinhas pro alto, batendo palmas…

“Será que meu pau é grande o suficiente e o meu cérebro pequeno o suficiente pra vocês me tornarem um astro? Puxe minhas cordas e eu irei longe… mais uma vez, todo mundo junto!”

E as pessoas cantavam o refrão.

E assim a banda encerrou a apresentação, e saiu abaixo de estrondosos aplausos, agradecendo à amável platéia, dizendo “a gente se vê na próxima vez! Rock and roll, pessoal!”

Desnecessário dizer, eles não ganharam contrato nenhum.

Daniduc em outros blogues

Esse fim-de-semana postei em dois blogues alheios, assim, na caruda. O primeiro foi no Entre Panelas onde publiquei uma receita. Receita?! De comida? Nào, assim, tutorial técnico, mas uma receita pra uma janta? Com quê então agora o Daniduc acha-se com ares de mestre cuca e está  postar receitas?

Pois, estou longe de mestre-cuca, mas no post tem a explicação de como eu saí de nerd-sem-noção-na-cozinha pra nerd postador de receitas. Tem uns lances sobre alimentação, talvez interesse também. Ensopado de peixe branco com purê de batatas e salada.

Além disso, o Bruno, do Viagem do Tempo, mora na Nova Zelândia. Como ele vai voltar pro Brasil depois de morar um tempo por lá, pediu pra 3 amigos que passaram pela experiência de dar um pulo no Brasil depois de estar fora como residente. Eu ainda moro na Holanda, mas voltei pro Brasil em outubro passado pra duas semanas, e o Bruno pediu pra eu falar sobre isto. Os otros dois textos também estão bem legais. Se quiser ler um post que na verdade são três, eu estou com os caras no Preguiça de escrever sozinho.

E, claro, continuo clicando em “Publish” com freqüência (ah, o trema fica, por enquanto) no bom e velho Ducs em Amsterdam.

Nerds, a oferta e a procura

Todo mundo conhece a lei do mercado, pelo menos a versão simples, de uma linha dela. Claro, quase ninguém leu Adam Smith, mas qualquer um que tenha comprado algo na vida entende o lance de “se tem mais oferta que demanda o preço cai, se tem mais demanda que oferta o preço sobe”. Simples. Mas nem todo mundo lembra disso. Muita gente tende a assumir que as coisas tem valor intrínseco quando na verdade ela tem valor atribuído.

A figurinha antiga de Magic, the gathering, por exemplo. O jogo de cartinhas colecionáveis. Quando saiu, foi pouco impresso, e havia algumas carta que eram realmente poderosas no jogo. Quando ele estourou num mega sucesso, muita gente queria comprar, e, claro, todo mundo queria essas cartas mais fodonas. Só que a tiragem inicial foi pequena, e quando foram reimprimir, a empresa percebeu que estas mega cartas quebravam o jogo, e tirou da coleção. O que acontece quando há poucas cartas que todo mundo quer? Elas custam uma fortuna. As cartas da tiragem original menos poderosas também são valorizadas. Os jogadores acham cool ter uma versão antiga da carta. Como não há muitas destas, e várias pessoas querem, elas custam sempre mais caro do que a versão atual.

Só que muita gente acha que as cartas poderosas são caras porque são poderosas no jogo. Não são. Elas são caras porque tem muita gente querendo e poucas delas existem – ou seja, muita demanda, pouca oferta. Se amanhã todo mundo parar de jogar Magic, e todo mundo decidir que é um jogo besta, e ninguém mais quiser nada com ele, as cartas não haverão mudado nada, mas deixarão de valer tanta grana.

Outras pessoas acham que as cartas antigas são sempre mais caras. Daí, cinco anos atrás, saíram a comprar pacotinhos e pacotinhos de cartas da época, pensando “daqui a cinco anos, estas cartas valerão fortunas, quando forem mais antigas”. Só que estas cartas foram impressas em grande quantidade, e mesmo hoje é fácild e consegui-las. Não foi desta vez que os sonhos molhados de fortunas do nerd se concretizaram.

Parece mentira, mas essa falta de compreensão de um princípio bássico quase quebrou a indústria de quadrinhos americana. A Marvel quase bateu com as dez. O que acnteceu foi o seguinte. Lá pelo meio dos anso 80 os quadrinhos ganharam grande popularidade nos EUA, impulsionados por uma nova geração de autores (Frank Miller, Alan Moore, Neil Gaiman e muitos, muitos outros). Com um novo afluxo de fãs, um públicoo maio se interessando pelo gênero, houve grande procura. Os quadrinhos dos anos 80 vendiam aos milhões. Como eles estavam sendo impressos aos milhões, o preço se mantinha baixo. Agora, essa galera toda se interessou por números antigos de revistinhas – coisas feitas nos anos 70, 60, quando os quadrinhos não eram tão populares. Números uns de revistinhas de heróis que eram no momento populares. Como elas foram impressas em tiragens menores, e muito havia se perdido durante as décadas que elas ficaram jogadas pelos porões porque eram “escapismo” e  não a nova forma de arte queridinha da América, elas eram raras. Como tinha muita gente querendo agora… aumentou absurdamente o preço.

Como quadrinhos estavam na moda, começaram a sair nos jornais. E muitas matérias eram sobre quantos milhares de dólares custavam o número um do Demolidor, ou algo assim. Muita gente olhou e pensou, cacegte, eu tinha um destes na época, valia dez centavos! Se eu tivesse guardado, estaria milhonário!

Sendo o americano este povo prático, logo muita gente concluiu que não era tarde demais. Simples, bastava comprar os quadrinhos que estavam sendo impressos no momento, pagar vinte centavos, e esperar 10 ou 20 anos. Faculdade dos filhos estaria garantida. E saíram comprando os quadrinhos do momento. Mas porque comprar apenas um exemplar? Se vamos ficar ricos, vamos ficar ricos, certo? O pessoal comprava logo de dois, três, exemplares. E todos achando que o grande valor da revistinha era porque ela antiga, ou pior, porque era o número um.

A indústria, não sendo trouxa e querendo vender mais quadrinhos deu força. Começou a lançar novos título de revistinha com heróis clássicos. Toda revistinha era o número um. Número um de “As novas e de novo super aventuras do Homem Aranha”. “Batman recomeça recomeçando de novo. Número um.” E o povo comprando dois, três, dez exemplares.

Só que estes exemplares estavam sendo impressos na hora. Se o povo comprava de dez, era só imprimir dez vezes mais. O que aconteceu? todo mundo tinha 10 exemplares do número um das Novas Aventuras Recontadas do X-men. E uns anos depois, todo mundo tentou vender um pros outros os exemplares. Que ninguém queria, porque todo mundo tinha 10 deles. A revistinha não valia nada, não importa que ela era antiga, ou era o número um. Ela não valia nada porque era comum, tinha mais oferta do que demanda. E um monte de gente que só tinha comprado os quadrinhos pra investir parou de comprar. E um monte de gente que até gostava dos quadrinhos, mas percebeu que não ficariam milionários, passaram a comprar só um exemplar em vez de 5. E a indústria, que estava imprimindo milhões e milhões de revistinhas pra saciar esse mercado de ávidos investidores, não fo avisada e continuou mandando ver nas prensas. E as revistinhas pararam de vender e encalharam aos quilos. A demanda caiu de chofre. A grande bolha dos quadrinhos fez “pof” e quase levou as duas maiores editoras da área junto. Demorou mais de dez anos pro mercado do quadrinho americano se recuperar.

A lei do mercado se aplica também, infelizmente, às pessoas. Muita gente acha que a renumeração de um emprego é dada pela importância da profissão, ou qualidade do profissional. O que dá o valor de um salário é oferta e demanda, como sempre. Se é um profissional raro em alta demanda, ele irá ganhar muito. Se for o inverso, o salário é baixo. Claro, isso pode ser mudado com políticas governamentais, leis, que tentam alterar o campo, mas no fundo a lei da oferta e da procura prevalece.

Um profissional de suporte de primeiro nível para Windows vai ganhar menos do que um analista sênior de UNIX. Não porque o UNIX seja mais difícil, demande mais tempo de estudo pra chegar a ser sênior de UNIX, então o profissional mereça ganhar mais por isso. Merecimento não tem nada que ver com isso. É porque o UNIX é mais difícil de se encontrar nas casas, demora mais tempo pra se virar um sênior do que um júnior, a curva de aprendizado do UNIX é mais longa, e um monte de fatores que resultam que um sênior de UNIX seja muito mais raro do que um júnior de Windows. Mesmo que haja muita demanda por helpdesk de Windows, há mais ainda oferta de profissionais nesta área. E, apesar da alta demanda por profissionais de UNIX, eles são raros de se encontrar. Portanto, um sênior de UNIX irá ganhar bem mais do que um júnior de Windows, não porque ele mereça por ter estudado mais tempo, mas porque ele é mais raro e não há oferta suficiente pra cobrir a demanda.

Basta ver um professor de ciências básicas, formado em uma grande universidade. Com pós-doc, ele certamente estudou muito mais do que um analista sênior de UNIX. E mesmo assim ganha muito menos. Porque, apesar de o professor ser raro, a demanda é muito baixa – há muito mais demanda por profissionais de UNIX do que professores com pós-doc em ciência básica. Claro, como eu disse, se o governo passa uma lei aumentando o salário do preofessor na universidade, isso se altera. O governo não precisa atender às leis de mercado. Mas muita gente que precisa, esquece, ou não entende. E se paga um preço amargo por isto.

E se você falasse a língua da tecnologia?

O meu objetivo não é apresentar uma tradução somente dos termos. Muitos deles tem boas traduções em português, mas eu queria dar uma idéia de como eles seriam caso você fosse falante nativo da língua, ou seja, palavras que tinham um significado, e acabaram, com a tecnologia, ganhando outros. Decifrar as siglas fica como exercício para o leitor :)

Você iria ligar seu calculador se conectaria no seu sistema Janelas. Naturalmente seu calculador está conectado à Interrede, então você estalidaria no ícone de seu RaposaDeFogo na sua escrivaninha, para poder folhear a teia. Quando o RaposaDeFogo estivesse carregado, você digitaria o LUR de um localnateia, que quase sempre começa com a sigla ptht://, e quase sempre tem a primeira parte “tardm” seguido de um ponto, o domínio e terminando com uma sigla do DMN.  Uma vez carregado o localnateia, você poderia estalidar em algumas conexões para poder descarregar um arquivo para o seu DD. Talvez este arquivo fosse um GPIM3, o formato mais popular para músicas, ou um programa produtocompartilhável, que vem com alguns recursos desligados, que podem ser ativados mediante o pagamento para o autor. Hoje em dia, entretanto, locaisnateianão são a forma mais popular de descarregar arquivos. As redes par-a-par são mais rápidas, com mais arquivos disponiveis.

Mas a Interrede não permite somente folhear a teia, há também o correio-e. Você poderia enviar um correio-e para qualquer parte do mundo, o que é uma forma prática de se comunicar. Mas existem coisas que são melhor comunicadas quando se conversa com alguém, então você poderia usar um programa VsPI para fazer uma ligação muito mais barata. Com todas estas possibilidades, seria um valente mundo novo.

The Death and Resurrection Show – Sysadmin blues

História de um tubarão

Administramos, eu mais o rbp, érre, para os íntimos (e mortal contra os insetos), o internacionalmente famoso CyberShark.net. Este blog, e um monte de outros, e mais vários sites, rodam neste servidor comunitário, que, apesar de ser administrado por nós dois, é mantido por diversas pessoas. Tem uma pequena comunidade vivendo nesse micro-ecossistema digital que é um servidor próprio. Muita gente pode perguntar, why bother? Digo, com tanta empresa por aí fornecendo serviço de alta qualidade de graça, Gmails, wordpress.com, Blogspot, pra quê manter um servidor próprio, pagar os custos, dar um trampo administrando. Tem diversas respostas, incluindo que quando ele foi criado não haviam todos estes serviços legais, mas acho que no fundo é uma questão de… independência. Fazer as coisas do seu jeito. Se auto governar. Entende? Nós somos uma vilinha, mas essa vilinha é nossa, e não do Google.

De qualquer forma, estamos por aí desde dezembro de 2000, embora oficialmente o domínio tenha sido registrado efetivamente em janeiro de 2001. Começou com um ex-desktop meu rodando um finado Conectiva, conectado num então recém criado Speedy Bussines. Isso foi por um tempo, passando por diversos upgrades de hardware, e locais. A coisa começou no porão da casa dos meus pais (quão clichê isso soou! Só falta virarmos uma empresa multimilionária pra frase ter mais impacto…), casei, mudei o servidor comigo, tive que mudar de novo, dessa vez sem condições de levar a máquina. Foi aí que o Poka, antigo participante da comunidade, ofereceu pra segurar a onda hospedando o nosso tubarãozinho na sua loja, a Empório Aventura. Por anos ele segurou sozinho a despesa do Virtua Bussines (já havíamos desistido da Speedy fazia tempo), da eletricidade e ainda deu um puta upgrade de hardware. Pela primeira vez na história o CyberShark rodava em uma máquina nova, comrpada só pra ele, e não em restos de computadores ajuntados. Muito legal.

O que não estava legal era o link. Vocês vêem, as emresas de badna larga existem pra conectar usuários na Internet. Mas quando alguém se conecta na Internet, você pode enviar dados e você pdoe receber dados. Claro, todo mundo envia e recebe, mas há um fluxo predominante, em geral. Um portal de comunicação, ou um servidor, vai enviar muito mais do que receber. e o cara que está lá navegando, baixando música, jogando, vendo vídeo no Youtube e procurando fotos amadoras, ele muito mais recebe do que envia. As empresas de banda larga se propõem a atender o público que recebe, o usuário final. Óbvio que, tecnicamente, você consegue colocar um servidor conectado 24/h enviando dados num link de banda larga. – inferno, nós fizemos isso por anos! Só que a empresa de banda larga não e feita pra isso, não gosta disso e, se puder, ele quer a todo custo se livrar disso. Eles infernizam sua vida e se você for embora, hey, era essa a idéia. Vá levar seu servidor pra outro lugar e fique com nosso link pra navegar.

Já havíamos decidido fazer exatamente isso, claro, mas o custod e alugar um servidor em um datacenter gringo, apesar de infinitamente menor do que em um datacenter nacional, era ainda proibitivo, e íamos levando com a barriga. O CyberShark continuava em uma prateleira na Empório, vivendo feliz. Até que um dia…

The Death and Resurrection Show

Era segunda de tarde eu cheguei em casa e fui recebido com um telefonema do rbp:

- Lembra do CyberShark? Ele caiu.

- Claro, respondi. Notei que ele está fora – de fato era bem comum estar fora quando você insiste em rodar servidor em link de banda larga caseira -  mesm… peraí, como assim, “lembra”?

A prateleira cedeu. Nosso servidor havia, pela primeira vez em toda minha carreira de sysadmin literalmente caído! O servidor.. caiu… mesmo… no chão. Foi-se desta para uma melhor para o céu dos servidores.

O rbp me conta isso e eu fico catatônico.

- Hã?

- Servidor. Caiu. Espatifou-se. Não mais. Piiiiii.

- Hã?

- Daniduqueeeeeeeee…..

- Hã… CARALHO!! E O IXTLAN?

O Ixtlan era nosso servidor de backups. Que ficava na mesma prateleira. Shiu! Quietos! Nem um pio sobre isso! Eu sei! eu sei! EU SEI!

Como o CyberShark estava na ponta que cedeu e foi-se inteiramente, pluft, pro chão. O Ixtlan estava na outra ponta e ficou preso por um cabo de força, lutando por sua existência literalmente por um o. Ou um cabo. Viveu.

- Arf. Arf. – Eu estava tendo trabalho pra controlar a respiração.

- Respira, Daniduc, respira. Isso, calma, calma. – O érre é um bravo.

Sim, foi o que eu consigo chamar de uma perda catastrófica de servidor.Ao sair do choque, resolvemos seguir a teoria do Marquês de Pombal após o terremoto de Lisboa em 1755. vocês sabem esse terremoto? Não? Em 1755 no dia de todos os Santos, Lisboa foi atingida por um terremoto estimado 9 na famosa escala Richter. Por seis minutos! Fendas gigantescas se abriram no chão. Destruição generalizada. Findo o terremoto, os lisboetas notaram que o mar não estava mais lá. Havia recuado. Mas voltou, e voltou com  força. Um tsunami seguiu o terremoto e três ondas gigantes, estimadas em vinte metros de altura bateram no que restava da cidade. Quando elas pararam, começaram os incêndios. Por cinco dias a ciade ardeu em chamas descontroladas. Não havia muito mais Lisboa. Perguntaram então pro primeiro ministro da época, o Marquês de Pombal: “E agora?”

- Agora? Agora enterrem o mortos e alimentem os vivos.

E iniciou os esforços de reconstrução da cidade.

Lá fomos eu e o érre na mesma idéia. Passo um, achar um Datacenter. Por sorte já havíamos feito alguma pesquisa. Por burric… azar, não havíamos ainda implementado ela, e estávamos enrolando pra migrar. Faltava aquele empurrãozinho da prateleira. Só faltou acertar uns detalhes pra fechar no susto o contrato:

- Please, mister Datacenter gringo, do you have good prateihleihras?

- I beg your pardon?! (tradução: WTF?)

- You know, prateihleihras that don’t caem? Assim, pluft, on the floor?

Claro, tem gente por aí que fala que o legal é fazer a migração com calma, planejando e tal, mas são os mesmo que olham pros dois lados antes de atravessar rua de mão única, esse tipo de coxinha nem tem coragem de sair de um avião em perfeito estado de funcionamento a dez mil pés. O qu,e aliás, eu e o érre já fizemos – ele mais do que eu, fato. Ele chegou a ter seu próprio para-quedas antes de decidir que esse negócio de se jogar no vazio confiando apenas e tão somente nos seus reflexos e equipamento pra evitar a morte é muito monótono e resolveu começar a desenvolver em Python. Mas enfim, eu já havia sido sysadmin profissional e consultor. Migrar servidor fora era a norma. Nada fora do padrão.

- Ué, Daniduc, você hoje não ia migrar o servidor da empresa com 10 mil clientes? – diziam os desprevenidos gerentes.

- Era isso mesmo.

- E tá esperando o que pra começar?

- Alguém chutar a tomada da máquina em produção ao meio dia. Ué. Por que?

E invariavelmente alguém semrpe chutava. Claro, estou romanceando, não era bem assim. Na verdade, eu nunca esperava o pânico começar – em geral quando tomávamos conhecimento da necessidade de migração, ele já plenamente desenvolvido.

Ah, os bons tempos. No caso do CyberShark era fácil – usuários bonzinhos e compreensivos. Claro que quando o seu trabalho atinge o chão para segurar um lírio com olhinhos em forma de xis pra em seguida subir tocando uma harpa, as pessaos tendem a ficar um pouco tensas. Razoável. Mas todos bonzinhos e compreensivos diante do desastre.

Acabamos escolhendo uma hospedeira pequena, que usa espaço em um Datacenter maior. Ela algua alguns racks por lá, e subloca os servidores pra nós, digo, pros clientes, ou seja nós. Também. Enfim. Chama-se M5 Hosting – http://www.m5hosting.com/. Quem me atendeu durante as negociações foi o Mike, da vendas. Super atencioso. Fechamos, pedimos urgência, ele disse que ia repassar isso pro departamento técnico já pra agilizar, enquanto fechávamos a venda.

Passei as especificações pro departamento técnico. Queria um Debian, especifiquei versão, particionamento, pacotes (precisávamos de ferramentas de desenvolvimento), tudo. Eles instalam tudo customizado, conforme você pede – uma das vantagens que nos fez escolhê-los. O departamento técnico responde, e, surpresa, é bom! O cara parece saber do que está falando, conhece o ramo, inclusive corrigiu um pequeno erro que havia cometido, devido à pressa. Massa. Por coincidência, o nome do cara também era Mike.

O servidor entrou no ar, eu comecei imediatamente a baixar um monte de tar gêzê pra instalar a parafernália de programas que precisávamos. Boa hora para upgrades, aliás. Logo chegou a cobrança da M5, com um preço bem razoável. O departamento de cobrança também tinha um Mike. O mesmo.

Mike. Como assim? O cara fazia vendas, cobrança, instalaçao e suporte? O mesmo cara? quantas pessoas tem nessa empresa? O rbp se ligou: M5 quer dizer…. Mike, Mike, Mike, Mike… and Mike! Hah.

Confesso que fiquei um pouco tenso, mas na verdade os medoos, um ano e meio depois, se mostraram totalmente infundados. Sim, o Mike e seus clones respondem por quase tudo. Mas respondem! Rápido! Nunca nos deixaram na mão, os Mikes, ao contrário. E semrpe tivemos uma resposta não só ágil, mas razoável, personalizada e tecnicamente boa. Desconheço a que horas ele dorme, se ele dorme no datacenter, se tem esposa ou é casado com as máquinas (não o são todos os sysadmins?), mas o fato é que temos o atendimento ágil e personalizado de uma empresa pequena que valoriza seus clientes. Às vezes eu me pergunto se o Mike tem uma daquelas caixas de papelão do Calvin, escrita “Duplicador” no lado. Seja como for, funciona.

Virei umas noites, espremendo alguns gigabytes de backups (Oh, bendito seja Ixtlan) através do funil do Virtua em direção à sua morada nova em San Diego. Em pouco tempo nos recuperamos, nos organizamos, e evoluímos pra algo muito melhor.

Na porrada, que é como toda evolução que se preza ocorre.

Vespas italianas

Vespas - Rome - Italy
Rome - Italy

Braaains

To aprendendo holandês. Durante a aula fiz o seguinte desenho, o que explica muito da facilidade e intuitividade da língua flamenga:

Zombie