O maior desastre aéreo da história – Parte III (Final)

(Leia a parte II)

Em meio a densa neblina que cobria o pequeno aeroporto de Tenerife, o voo KLM 4805 carregando 248 pessoas acelera na pista, em procedimento de decolagem. Infelizmente, na mesma pista estava o voo Pan Am 1736, com 396 pessoas, taxiando e tentando achar a saída que deveria tomar.

Sem poder enxergarem-se, e sem poder enxergar a torre, nenhuma das três partes envolvidas está ciente do que está para acontecer e o que as outras estão fazendo.

“Claro que sim!”

Ainda sem saber que o KLM acelerava em procedimento de decolagem, a torre de controle pede para que o Pan Am reporte seu status.

Torre: Papa Alpha um sete três seis, reporte [quando tiver] a pista livre.
Copiloto Pan Am: Ok, reportaremos quando tivermos liberado.

Ao contrário da mensagem anterior, essa foi claramente audível na cabine do KLM. Porém, nem o piloto-estrela da KLM nem seu copiloto acusaram ter ouvido a mensagem. Quem reagiu foi o engenheiro de voo, ou terceiro piloto, o oficial mais júnior da cabine.

Terceiro piloto KLM: Quer dizer que ele ainda não terminou então?
Piloto KLM: Como é?
Terceiro piloto KLM: Ele ainda não terminou, o Pan Amareican?
Piloto KLM: Claro que sim!

Confrontado com a resposta tão enfática do oficial mais sênior de toda a frota da KLM, e com o silêncio do copiloto, o terceiro piloto não disse mais nada. Sua pergunta seriam suas últimas palavras.

“Todo cheio de pressa”

Na cabine do Pan Am já haviam notado a ansiedade do piloto holandês.

Piloto Pan Am: Vamos cair fora daqui.
Copiloto Pan Am: Yeah, o cara tá ansioso, né?
Piloto Pan Am: É, depois de ficar nos empatando todo aquele tempo [com o abastecimento], agora taí todo cheio de pressa.

Nesse momento, o piloto do Pan Am olha pela janela e vê as luzes do Boeing KLM vindo a toda velocidade.

Piloto Pan Am: Tali ele, olha lá o cara, o FILHO DA PUTA TÁ VINDO EM CIMA DE NÓS!!
Copiloto Pan Am: SAI FORA SAI FORA SAI FORA

O Piloto da Pan Am imediatamente acelera suas turbinas ao máximo e joga o avião para a grama, tentando livrar a pista para o bólido azul rugindo em sua direção.

Ou. Se

O Capitão Van Zanten enxerga o Pan Am e percebe que seu terceiro piloto estava certo. Solta um palavrão e puxa o manche, tentando desesperadamente tirar o avião do chão antes da colisão.

A cauda do Boeing bate na pista arrancando um rastro de faíscas. O avião decola, e o nariz da aeronave ultrapassa o deck do Pan Am.

A turbina não.

Por meros metros, a turbina não passa limpa pelo Pan Am. Se o Pan Am tivesse pego a terceira saída como instruído, teria dado tempo.

Se o KLM não tivesse reabastecido e, portanto, estivesse mais leve, teria dado tempo.

Se o rádio não tivesse dado interferência, a decolagem poderia ter sido abortada.

Se o capitão tivesse confiado no seu terceiro piloto, poderia ter evitado a colisão.

Se não tivesse neblina. Se o aeroporto tivesse radar de solo. Se nunca houvesse bomba em Las Palmas. Se o capitão estivesse sem tanta pressa, ou prestando atenção, ou…

Ou. Se.

Vítima 583

A turbina bateu em cheio no deck do Pan Am. O KLM chegou a levantar voo, mas afocinhou logo a frente. Todo o combustível extra colocado no KLM pegou fogo. O incêndio matou todos os ocupantes do avião, e a maior parte dos ocupantes do Pan Am.

Enquanto isso, com o teto arrancado, as turbinas do Pan Am ainda giravam em toda velocidade. Os poucos passageiros que escaparam do incendio fugiram para a asa, para esperar resgate.

Que demoraria ainda, pois devido à neblina, só notaram que havia UM avião caído, sem perceber o segundo em chamas e também destruído.

As turbinas do Pan Am se desintegraram, espalhando destroços em alta velocidade por toda a parte. Uma comissária de bordo foi atingida e morreu.

Foi a vítima de número 583. Nenhum outro acidente aéreo matou tanto.

Mais seguro

O desastre de Tenerife teve impacto profundo na aviação. Diversos procedimentos foram alterados ou criados para evitar esse tipo de situação.

A KLM reconheceu que a responsabilidade final pelo acidente foi de seu melhor piloto, e compensou as famílias das vítimas e os sobreviventes.

Foi construído um novo aeroporto em Tenerife, em um local que nunca tem neblina, para receber grande aviões, deixando o outro aeroporto de Tenerife para atender apenas pequenas aeronaves que fazem o tráfego local.

E instalaram a porra de um radar de solo lá.

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