O maior desastre aéreo da história – Parte II

(Leia a parte I)

A pista do pequeno aeroporto de Tenerife estava coberta de neblina, impedindo que a torre de controle visse os dois jumbos que taxiavam na pista, um da KLM e outro da Pan Am.

O KLM seguia primeiro, e deveria fazer uma volta de 180 graus ao final da pista e assumir posição de decolagem. Atrás dele ia o pan Am, que deveria pegar a terceira saída à esquerda, deixando a pista livre pro KLM decolar.

Os pilotos do Pan Am não estavam conseguindo achar a saída correta, perdidos na névoa e em um aeroporto desconhecido e mal sinalizado, certamente não preparado pro tráfego de jumbos. Enquanto eles tentavam se achar, o KLM terminou seu taxi e assumiu posição de decolagem.

O Pan Am, porém, perdeu a saída e continuou na pista. Isso atrasaria mais alguns minutos a saída do KLM. Se ele tivesse esperado.

“Tamos indo”

Na cabine do KLM, o piloto-estrela Jacob Veldhuyzen van Zanten, considerado o melhor que a KLM tinha em seus quadros, estava ansioso.

Todo aquele atraso significava que ele estava para estourar a jornada máxima de trabalho permitida pela legislação holandesa e política da companhia. Isso queria dizer ter de interromper o voo em Tenerife… o que iria causar grandes transtornos: a KLM teria de pagar estadia para todos os passageiros, que já estavam extremamente infelizes com o atraso, sem mencionar a droga do abastecimento que demorou pra sempre.

Além disso, a neblina piorando a cada segundo, naquele aeroporto minúsculo e lotado, aumentava o risco de ter de interromper o voo por falta de visibilidade. O quanto antes ele saísse de lá melhor.

Assim que o KLM alinhou na pista, ele acelerou as turbinas. Imediatamente, o copiloto alertou:

Copiloto KLM: Espera um pouquinho, nós não temos autorização da torre.
Piloto KLM: Não, to sabendo, vai lá e pede.

O Copilot obedeceu imediatamente:

Copiloto KLM: KLM quatro oito zero cinco está agora pronto pra decolagem aguardando autorização da torre.

A torre, composta de apenas dois controladores 9era domingo), respondeu com o plano de voo pevisto pro KLM:

Torre: KLM quatro oito zero cinco você está autorizado para o Farol Papa, subindo e mantendo nível de voo nove zero, virada a direita após decolagem, proceder para…

Aparentmente o capitão Van Zanten selecionou as palavras “autorizado” e “decolagem” dessa frase toda e soltou os freios, interropendo seu copiloto, que estava repetindo as instruções da torre, com um ansioso “Tamos indo, checa a aceleração”.

Mal entendidos fatais

O copiloto, pego de surpresa no meio da frase, tentou comunicar a torre que o capitão soltara o freio e estava pisando fundo, mandou um “estamos agora na decolagem”.

A Torre de Controle entendeu a mensagem como “estamos agora na posição de decolagem”. O que é natural, já que eles não haviam dado autorização de decolagem.

Aliás, de todos os envolvidos na investigação do acidente, quando ouviram primeiro a gravação da conversa da torre, antes de ter a gravação da cabine da KLM contendo o “tamos indo” do capitão, entendeu que o KLM estava querendo dizer que estava na realidade decolando.

A Torre respondeu:

Torre: OK.

Mas logo completou:

Torre: Aguarde para decolar, eu te chamo [quando for a hora].

Nesse mesmo exato segundo, o Pan Am, meio cabreiro com a mensagem do KLM, resolveu confirmar a sua posição:

Copiloto Pan Am: E a gente ainda está taxiando na pista, o clipper um sete três seis [código do Pan Am]

A transmissão simultânea do Pan Am com a torre resultou em uma interferência de rádio – apenas um pode falar por vez – gerando um ruído intenso na cabine do KL  que ouviu apenas uma parte da mensagem da torre.

A parte que dizia OK.

(Continua)

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