O caso dos pronomes

Todo mundo aprende conjugação verbal na escola: eu, tu, ele. Nós vós, eles. Muito importante, e tal, mas esta conjugação verbal simplesmente não é mais usada no português do Brasil - certamente não na modalidade oral e cada vez menos na escrita. O vós já é história, o tu também em muitas partes do país (e ainda mais se contar aquelas que dizem tu, mas conjugam como você - tu anda de moto?). A conjugação verbal do português brasileiro do dialeto paulistano, modalidade oral está assim:

Verbo regular vogal temática a - cantar

Eu canto
Você canta
Ele canta
A gente canta
Vocês cantam
Eles cantam

Verbo regular vogal temática e - vender

Eu vendo
Você vende
Ele vende
A gente vende
Vocês vendem
Eles vendem

Verbo irregular - ser

Eu sou
Você é
Ele é
A gente é
Vocês são
Eles são

O “nós” ainda não está totalmente extinto como o “vós”, mas já tem uso bastante diminuido. Notem que as desinências verbais, que antes eram diferentes pra cada pronome pessoal, agora estão  reduzidas à três, mesmo no caso de verbos irregulares. Existe a desinência da primeira pessoa do singular, a usada pra segunda e terceira pessoas do singular mais a primeira do plural, e a usada na segunda e na terceira pessoa do plural. Em vez de seis, uma para cada pronome pessoal, temos agora apenas três desinências verbais em uma determinada conjugação. Um professor meu da Letras teorizou que este seria um motivo por trás de uma tendência de os falantes passarem a preencher mais freqüentemente o sujeito de maneira explícita, o que não é obrigatório em português (ao contrário do inglês e do francês, por exemplo). Antes o sujeito da frase poderia ser recuperado pela forma verbal - o sujeito de “andou pela rua”, por exemplo, teria de ser “ele”. Agora pode ser “você”, “ele” ou ainda “a gente”.

Línguas estão constantemente em mudança (e constanemente sendo acusadas de estarem decaindo, sendo maltratada por ignorantes e sendo invadidas por influências nefastas do estrangeiro) e eu fiquei curioso de saber se há estudos sobre esta mudança em particular do português brasileiro.

Pronto, passou o momento letreiro. Foi uma crise de abstinência rápida. Voltaremos à programação normal em breve.

3 Comments

  1. Carol:

    Tem várias gramáticas descritivas novas, algumas ainda em elaboração. Dependendo do enfoque, algumas abordam a linguagem oral e outras os dialetos regionais. Eu não tenho gramáticas assim, mas já ouvi falar de várias.

    Agora, a questão de repetir os pronomes também é característica da língua oral, porque nossa memória é muito curta para guardar as referências. Na língua escrita, as conjugações estão bem vivinhas. Eu faço bom uso delas em legendagem. Em caso de total falta de espaço, vai até um futuro simples sintético, que também está quase extinto.

  2. daniduc:

    @Carol:

    vou dar uma perguntada pros coleguinhas da letras sobre as gramáticas, pra dar uma olhada, valeu a dica :)

    Quanto à linguagem oral, sim, verdade. Mas ela acaba influenciando a escrita no longo prazo. Quando foi a última vez que você viu alguém usar o pronome pessoal de segunda pessoa plural como vós na linguagem escrita (pt-br)? O tu segue o mesmo caminho, mesmo na escrita. O “a gente” ainda tem um longo caminho a percorrer, perto destes dois, mas vai indo :) - e legenda é caso especial, vai… há toda uma limitação que não existe no uso geral da linguagem ;)

  3. Sheila:

    É engraçado como há países que aceitam as mudanças mais facilmente. No Brasil “a gente” vai como a onda, sem brigar com a maré, já em Portugal…

    Cá “a gente” somos, o “vós” é muito usado e o “tu” conjugado na perfeição. Com o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa, que por sinal foi muito criticado em terras lusas, haverá algumas mudanças em Portugal e no Brasil, mas cá, os nossos “irmãos” terão muitos anos para se adaptarem :)

    Gostei do site!
    Abraços

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