Cavaleiro das Trevas e a geléia geral americana

Aqui na Cidade do Interior (desconfio que Toronto seja uma metrópole perto de Amsterdam), onde tudo fecha as sete da noite, o Cavaleiro das Trevas estreou uma semana depois de São Paulo. Enquanto isso eu acompanhava os Twitters e entradas dos blogues falando sobre o filme, vi ele subir pra posição el Numero Uno do IMdB (está em #3 nesse minuto), a performance de Heath Ledger ser elogiada até mesmo por quem considera Cesar Romero o Único e Eterno Coringa. O filme criou tanta expectativa aqui em Amsterdam que não conseguimos, eu e Carla, assistir, óbvio, no dia da estréia. Lotado. Nem uma semana depois. Lotado. Todas as seções. Na terceira vez que demos com a cara na porta, resolvi deixar de ser mané e reservar os ingressos no Pathé Arena, o maior cinema daqui. Fomos no dia seguinte buscar os ingressos uma hora antes da sessão, direitinho como mandava as instruções. Chegamos no caixa, mandamos o número de reserva (zes twee acht twee), grande expectativa, e grande decepção: número não encontrado. Algum erro xis no sistema perdeu nossas reservas. Eu e Carla com aquela cara de “não creio!”, o holandês de 17 anos que estava no caixa ainda mais, e agora? Chama o gerente. Ops, é, mau ai. Perdemos a sua reserva. Não vou conseguir te colocar na sessão que você queria. Consigo pra vocês agora um ingresso na sala IMAX, e na hora eu ponho o outro pra dentro, porque certamente tem gente que reserva e não vem. Pode ser?

Cara, era a quarta tentativa. Era aquele dia ou no DVD, pensei. E topei (já havia gasto 8 strippen pra ir até lá, mesmo…) O gerente disse pra aparecer dez minutos antes da sessão, que ele ia nos por pra dentro. Foi o que fizemos. Não acreditei quando cheguei. Era uma multidão inacreditável. Sério, me lembrei dos tempos em que eu ia ver São Paulo e Corinthians no Pacaembu às nove da noite de quarta-feira (hey, todo mundo tem um passado negro!) Bem, foi uma batalha, o gerente cumpriu sua palavra e nós entramos e até conseguimos lugar junto (e ninguém ficou no chão). E finalmente pude assistir O Cavaleiro das Trevas. Em inglês, que aqui na Holanda quase nada é dublado, tudo tem legenda. Só nos demos mal uma vez, no filme do Beowulf, em que o Grendel fala em… gaelico? E só tinha legenda em holandês. Ops. Mas enfim, assisti ao filme depois deste tumulto todo, sem legendas e fui bombardeado por um roteiro complexo, cheio de nuances. Então perdoem se eu tiver entendido algo errado. Vamos lá pras impressões dudescas da coisa, depois de um monumental nariz de cera, como diria meu pai.

Vamos logo tirar o lance da interpretação do Coringa da frente. Sim, o Heath Ledger detona. O Coringa dele é como deveria ser. Não um palhaço do crime, um bufão criminoso, ladrão e assassino, mas ainda assim um bufão [ou como disse Sir Michael Caine, a "killer old uncle"]. O Coringa é perturbado e perturbador, o Coringa é o motivo de porque você tem medo de palhaços, o Coringa acha os pilares da sua sanidade e dinamita um a um. O Coringa é insano em toda extensão da coisa. É o Lado Negro, descontrolado e selvagem, babando e uivando e gargalhando obscenamente de coisas também obscenas. Ninguém quer admitir o Coringa, mas ele está lá, espalhando a morte e o caos e tocando o horror, e amigos, ele toca o horror. Esse coringa que o Heath Ledger fez é per-tur-ba-do, e o ator completamente desaparece no papel, e te convence a ponto de assustar pessoas adultas e conscientes de que estão vendo um filme, pelamordeDeus, é só um filme! Se isso não vale um prêmio de interpretação, eu não sei o que vale. Oscar pro guri, que ele mereceu, e Hollywood deve isso à ele.

Agora, a febrinha do filme. É o Cavaleiro das Trevas tudo isso mesmo, filmão, filmaço, melhor que o Poderoso Chefão no IMdB? Não, claro que não, e rolou aí um efeito novidade associado com outras coisas, que vou tentar adivinhar já já. É um bom filme de super-herói (e apesar disso, não é, definitivamente, um filme pra crianças), bem feito, com boas interpretações (e uma excepcional), com poucos defeitos (alguns bem irritantes), mas não é um filme que eu diria que transcende o gênero. Tem alguns filmes que são tão bons que transcendem o gênero. Por exemplo. Eu não gosto de musicais. Nunca gostei, me entedio até a morte, fico com vergonha alheia de pessoas cantando em momentos absurdos, sei lá, é uma coisa minha. Mas dA Noviça Rebelde eu gosto, admito e assumo, e já parei na frente da TV as 4 da manhã quando eu tava morrendo de sono só pra ver de novo porque tava passando no Corujão. Noviça Rebelde é um musical, mas transcende o gênero, é um filmaço. Cavaleiro das Trevas é um bom filme, vírgula, de super heróis. Poderoso Chefão é um filmaço, ponto, não importa que trate de gângsters. Mas por que o Cavaleiro das Trevas causou tanta comoção, então, com várias pessoas chegando a sugerir que ele transcendia o gênero de super-heróis?

Porque é um filme bem feito que toca em temas importantes pros americanos, num momento crucial, o ano das eleições pós GWB. A comoção causada pelo Cavaleiro das Trevas me lembrou da comoção causada pelo Tropa de Elite no Brasil. Era a mesma coisa: um filme bem feito que abordava, de maneira muito competente, um assunto importante pro país. Pra nós brasileiros, um filme como cavaleiro das Trevas, com um cara vestido de morcego quebrando o pau com um palhaço assassino soa como uma tremenda besteira, não importa o quão a sério eles se levem. Mas os americanos estão muito acostumados a discutir com metáfora de super herói. Eles fazem isso o tempo todo, com diversos assuntos relevantes. O super herói é uma parte integrante e essencial da cultura americana. Pra eles não é nada uma besteira, é um jeito de discutir e explicar o mundo, é como eles se veêm [veja essa campanha, por exemplo] - os super heróis agem pros americanos meio como qualquer mitologia age em qualquer cultura.

E o Cavaleiro das Trevas está abordando, obviamente, o momento atual dos americanos, esta encruzilhada que eles se meteram e agora tem que lidar com a meleca toda. E agora, pensam eles, é uma hora crucial, porque irão escolher o próximo presidente, que provavelmente ficará mais oito anos no cargo. Eles tem que discutir o assunto, e o Cavaleiro das Trevas faz exatamente isso, usando uma das mitologias mais importantes deles, o super herói. Eles não estão discutindo o 11 de setembro, eles estão discutindo, no CdT, o mundo novo pós 11 de setembro, na meleca toda em que eles se meteram e o que eles vão fazer a respeito - e a hora da fazer algo a respeito é agora.

O paralelo mais óbvio é o Coringa representar os terroristas do mundo real. Pode parecer óbvio e batido, tá, tá, já sei, a ameaça que vem do exterior e não tem freios, etc e tal, já sabemos. Mas na verdade esse Coringa/terrorista-do-mundo-real toca em dois pontos importantes em como o Batman/americanos lidam com ele. Um, o que o motiva? Por que o Coringa/terrorista-do-mundo-real faz o que faz? Entender direito a motivação ajuda a combater direito a ameaça. E eles não entendem direito os terroristas islâmicos, nem o Coringa, e não sabem lidar com eles. E dois, como você combate alguém que não se importa se vive ou morre? Com o que você ameaça um cara que se viver tudo bem, mas se morrer melhor? Você tortura ele? É o que o Batman faz com o Coringa (e o governo com os terroristas), mas não adianta. O Coringa mente e o herói se estrepa. O herói se vê e percebe que é um torturador E um fracassado. E agora?

E como você pega esse cara? Como você tira ele da sua toca? Onde ele se esconde? Queima a floresta toda? Vigia todos os celulares? O herói, que antes protegia os cidadãos, agora os vigia, desconfiado, e estes, em troca, desconfiam dele. Antes os americanos sabiam quem era o bandido, quem era o mocinho, o que motivava ambos. Agora estão entre ataques de loucos que eles não entendem direito e de pessoas que deveriam protegê-los, não tratá-los como parte da ameaça. Aliás, este é outro ponto abordado no filme… será que eles são parte da ameaça? é apoiar o Batman a coisa certa? Toda aquela moralidade certinha, os super heróis dos anos 30, onde bom era bom e mau era mau, mudou numa grande bagunça, e o limite da moralidade não é uma linha reta e bem definida, mas uma fronteira nebulosa onde eles tem que decidir até onde ir. Os tempos mudaram, e a metáfora de super herói com eles, refletindo a mudança da visão de mundo americana.

O filme lança as questões e deixa as pessoas livres pra interpretá-las, e isso ressou profundamente com os americanos, e o que ressoa com os americanos ressoa no mundo, querendo ou não. E o resultado disso tudo foi o CdT em número um no IMdB e filas homéricas em Amsterdam, com um dude precisando de 4 tentativas pra entrar no cinema. Não sei se ele vai se sustentar na impressão geral americana como sendo tudo isso depois que passar algum tempo e as coisas mudarem. Desconfio que não, e mesmo em termos de gênero super heróis, acho Superman I melhor, mas qualquer filme que cause uma boa discussão sobre temas maiores do que mostra à primeira vista é um bom filme no meu caderninho.

4 Comments

  1. Carol:

    Excelente análise do filme!

    Eu nunca li os quadrinhos de heróis e demorei para entrar na onda dos filmes — só entrei mesmo nestes mais recentes, a partir do Spiderman e do X-Men. Ficamos dias discutindo as conseqüências das interações, as decisões pessoais, as questões filosóficas que aqueles problemas representam.

    O legal do formato fantasioso é que ele dá mais liberdade para revirar os assuntos tradicionais. Dá para quebrar os estereótipos, inverter papéis.

    Esse Coringa do Heath Ledger me marcou pra caramba. É justamente isso que você disse: o cara vive em um universo onde todas as normas morais e comportamentais que conhecemos não se aplicam. Não adianta diagnosticá-lo como psicótico, pois é muito mais complexo do que isso. E todas as suas reações contra esse mal acabam maculando você de alguma forma, então você é obrigado a pensar em que papel você quer assumir.

    Essa discussão, hoje em dia, é fundamental.

    E sim, o fato do cara ter morrido, de ser deprimido, de alguém ter dito que a depressão dele piorou depois do papel, aumenta pra burro o hype do filme, isso é verdade também.

  2. Gustavo:

    Fala Dani,

    Gostei muito do filme. Legal mesmo. Também tiro o chapéu para o Heath Leger. Mas concordo que há certo exageiro na cobertura pela imprensa: melhor que o Poderoso Chefão? Difícil. Mas muito, muito melhor do que muito blockembuste que tá rolando por aí.

    Tem um lance muito legal com essa onda de filmes de superheróis, e que a Carol já mencionou acima: a possibilidade de se tratar de temas atuais em um mundo apenas pouco diferente do real. Tradicionalmente, filmes e livros de ficção científica e fantasia foram usados para tratar de temas polêmicos, mas em um set que, se por um lado dá liberdade ao autor, por outro dificulta a empatia. Afinal, por mais que você se empolgue, não é a mesma coisa você torcer para o herói Gwarnmyar matar o grande Dragão Küürhbert e livrar o reino de Linhhjawhl da grande maldição de Sertflalff (e variações do mesmo tema). Por outro lado, heróis vivem, lutam e ajudam pessoas “reais”, com problemas “reais”, em um mundo levemente alterado que poedria passar pela sua (ok, americana) cidade.

    Claro que durante muito tempo, os heróis eram altamente esterotipados, e esse momento de mudança, do anti-herói, do cara perdido e questionando tudo, é mais recente. O engraçado é que, para nós, todo esse movimento é como uma “vingança dos nerds”: desde os anos 60 (vide o Homem-Aranha e os X-Men) ele vinha acontecendo nos quadrinhos, mas só agora chegou à grande cultura de massa, via filmes. Me pergunto por que, mas não sei; acho que tem à ver com o fato de que essa galera hoje compõem uma grande parte - economicamente ativa - da população, e são das poucas coisas que dão dinheiro para os estúdios. Outra possibilidade, é que eles replicam um universo de jogos de computador, internet, etc., hoje consumidos por jovens e adolescentes. Sei lá.

    Apenas para completar a minha viagem nerdo-filosófica:

    (a) Momento impagável: o coringa fazendo o truque do desaparecimento do lápis para os mafiosos, ou vestido de enfermeira tentando fazer o detonador funcionar;
    (b) Casting: kudos para a produção, direção e atores; aliás, eles conseguiram se livrar da senhora Tom Cruise (e por isso o filme já subiu de qualidade automaticamente)
    (c) Twists and turns: alguns eram meio desnecessários, como a morte do Inspetor Gordon. Mas fiquei surpreso com a morte da mulherzinha. Sem essa de amor, par romântico e família: aqui só tem espaço para maluco e perturbado, e famílias não se encaixam no perfil monástico e messiânico do super-herói.
    (d) Para o cientista político: hehe, o dilema do prisioneiro (os dois barcos com bombas), e a moeda do duas caras (que, é verdade, já era do personagem nos quadrinhos).
    (e) o superhomem é um bundão. ;)

    Abraço,

    Gustavo

  3. daniduc:

    OI Carol, Oi Gus,! brigado pelos comentários, excelentes, são posts em si mesmos :) Vou responder os dois aqui nesse:

    Sempre fui grande fã de quadrinhos. E, quando adolescente, de quadrinhos dde super heróis em espcíficos. Confesso que agora não leio tanto o gênero super herói. Aliás, praticamente não leio, na verdade. Mas tenho visto os filmes, e eles, sim, estão bem políticos - mesmo o Homem de Ferro, bastante infantil (ainda mais se comparado com o CdT). Como você disse, é uma discussão importante.

    E Gus, sim, o Superhomem é bundão - e tomou um cacete do Batman no sensacional Dark Knight Returns, um dos memlhores momentos dos quadrinhos de super herói. Mas o Superman I é um clássico do gênero. O Cavaleiro das Trevas ainda tem décadas pela frente.

  4. Nei:

    Olha só! Precisei ver e escrever sobre o Cavaleiro das Trevas para só aí me dar conta deste magnífico post. Se tivesse lido antes economizaria um monte de tinta (sou do tempo da tinta). Coma internet, acabou o nariz de cera, conceito do jornalismo impresso, em que se precisava ler de carreirinha, como se dizia. Com a leitura múltipla, vale tudo. E a introdução sobre a dificuldade de ver um fenômeno de massa, em plena Europa, tem mais informação do que muita análise metida a besta escrita por críticos idem. O principal está dito aqui: a sintonia entre o filmaço do Batman e o momento pré-eleitoral mais o terrorismo pós da era Bush. E o cara já ganhou o Oscar.É mais seguro dar o prêmio para ele. É recomendável, para dizer o mínimo.

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