Pra quê serve uma barata?
Por um tempo eu assinei uma lista de discussão do pessoal que cuidava de bichos abandonados. Foi na época que eu peguei o Linus e a Boo (ei, gatinhos, espero que vocês estejam bem), eu achei esse grupo quando googlei pra aprender sobre o que fazer quando um felino pilantra entra na sua casa doente e ronronando. O grupo era composto por gente que gostava muito de bichinhos. Mas não de baratas, o que tudo bem, porque eu acho que elas não classificavam baratas como “bichinhos” no sentido fofo da coisa. Enfim, não demorou muito pra alguém perguntar “mas pra que servem as baratas”, que é uma daquelas perguntas prontas que a gente sempre ouve e sempre vai ouvir. E eu resolvi responder, porque eu sou mala, já que ninguém parece realmente interessado na resposta, é meio que uma pergunta retórica, tipo, o bicho é nojento e ninguém (em sã consciência) gosta, é mais pra falar mal das baratas. Justo, e eu realmente não gosto de barata, aliás nem sei porque eu to blogando sobre elas. Ah, sim, lembrei. O post não é sobre baratas, no fim das contas, é sobre pessoas e como elas entendem o mundo (espero), e um monte de gente se interessa por pessoas (mas não todo mundo). Vamos lá.
Pra que servem as baratas? Pra nada. Pronto, é isso, essa é a resposta, e se você só queria falar mal delas, pode parar aqui. Agora, pra que serve qualquer ser vivo? Pra que servem as plantas? E os fungos? E os ornitorrincos? E as pessoas?
É parte do ser humano procurar razões e funções pra tudo - uma das conseqüências dum cérebro reconhecedor de padrões - e antes da ecologia ser amplamente desenvolvida e divulgada, a serventia de elementos da natureza era sempre em relação ao homem. Pra que serve o bicho tal? Pra servir de alimento. Pra que serve aquela floresta ali? Pra construir casas, vamos derrubá-la! E aquele pântano? Pra dar doença, vamos secá-lo. Et cetera e tal.
Aí veio a ecologia, o Greenpeace (pra que servem aquelas foquinhas ali? Pra fazer propaganda, *smash* *smash*) e cada ser vivo ganhou um papel na teia ecológica. Predadores podem ser assustadores e tudo, mas eles mantém as populações de gnus em equilíbrio. E os mosquitos? Sem mosquitos os sapinhos não poderiam continuar coaxando e, sem os sapos… huh… não teria… sei lá… abelhas, e sem abelhas os jornais teriam que inventar outras coisas que o Einstein nunca disse. Nunca fui muito bom em ecologia (mentira, foi o departamento que eu tive a maior média ponderada quando eu fiz biologia). Mas eu to zoando. Vocês pegaram a idéia, todo ser vivo tem uma “função” na tal teia ecológica, e isso na cabeça das pessoas parece justificar sua existência. Vamos preservar a Natureza, mesmo os malvados tigres-das-estepes-comedores-de-gnus (que não existem, você sabe né? Sempre é melhor deixar claro) porque eles servem pra algo e tem um papel no Grande Ciclo da Vida.
E tem o lance dos ratos, das pombas e das baratas. Gatos e cachorros servem pra deixar as pessoas felizes, então tudo bem. Ratos alimentam os gatos, são nojentos, mas então pelo menos servem pra algo. Pombas tem o mesmo propósito de ratos, alimentar os gatos (um pouco menos que os ratos, claro, porque elas voam e gatos não). E baratas?
Acontece que seres vivos não existem pra desempenhar um papel maior na natureza, como se sua função ecológica fosse tipo um “emprego” que eles têm:
- Duro dia no escritório, hein, seu leão?
- Correria, como sempre. Sabe como é, alguém tem que manter aqueles Gnus nos trilhos…
- E contigo, dona hiena?
- Oh dia, oh vida, eu só me ferro… tenho que limpar os restos deixados por este porco…
- Oinc, deste leão, a sra. quer dizer. Eu sirvo pra engordar humano, não fico sujando a savana.
- Oh azar.
Seres vivos estão preocupados em se manter vivos e, se possível, manter seus genes vivos, não em papel ecológico, e sua existência não se justifica por papeis ou funções na natureza. Isso é antropomorfizar (e muito) as coisas.
Claro que seres vivos se relacionam uns com os outros, e com o ambiente, neste planeta, a existência de um afetando a dos outros, e a resultante é uma complexa teia de relações mutantes que está num certo equilíbrio dinâmico. Identificar e entender essas relações é muito importante, não só pelo conhecimento em si do ambiente que nos cerca - que é o foco do estudo de ciências básicas - mas também para entender como estamos afetando esse equilíbrio no modo como nos relacionamos com outros seres vivos, o que nos afeta de volta - diretamente! A ecologia estuda isso, mas não devemos confundir estas relações de um ser vivo com um “papel a ser desempenhado” que venha a justificar a existência de um ser. Eles são o que eles são.
E nesse ponto a ecologia pode ajudar também a entender as relações das baratas com seres humanos. Baratas existiam na natureza antes, em um certo equilíbrio. Com a chegada do ser humano, o ambiente se modificou. Surgiram cidades, que são altamente favoráveis à proliferação de baratas - muita comida, abrigo. Nós criamos o ambiente proprício pra elas se aglomerarem e se multiplicarem e, com isso, encherem nosso saco (e às vezes virarem personagem de quadrinho). Ficar se perguntando qual o papel da barata, ou, pra que servem as baratas, é “miss the point”, como se diz em inglês. Seria como se as baratas achassem que o ser humano surgiu pra tornar a vida delas mais fácil. O que ele fez, embora não propositadamente, óbvio, e sim enquanto procurava, egoisticamente, sobreviver melhor. Que é o que cada ser vivo busca fazer, no geral, mesmo os mais nojentos.
Leandro:
Ou como eu gosto de dizer a respeito de qualquer ser vivo:
- Pra que serve X?
July 29, 2008, 11:14 am- Pra fazer mais X.
Oscar Luiz:
Oi Daniduc.
August 1, 2008, 3:27 pmEu tenho a resposta que procura.
Sou biólogo, lembra?
Baratas alimentam escorpiões.
Escorpiões sempre estão aonda há baratas.
Quer abacar com eles? Acabe com as baratas…
É líquido e certo…
Agora, se escrever o post “Para que servem os escorpiões”, eu vou ter que te dizer “para controlar a população das baratas”… Hahahaha!
Pra mim, particularmente, nenhum dos dois faz a menor falta.
Beijo!
George:
nossa… demais o texto, é sempre bom ampliar nossas maneiras de vizualizar o mundo, e as ‘vivencias’ dele…
August 11, 2008, 10:32 ambelo texto, obrigado
daniduc:
Oi George, obrigado! fico feliz que tenha gostado!
August 11, 2008, 10:37 am