Pesos e medidas
De novo o Political Compass. Para quem não conhece ou não lembra e está com preguiça de ler meu antigo post ou a análise dos caras, vou resumir de novo: o site argumenta que a nomenclatura direita/esquerda na política está ultrapassada e propõe um gráfico formado por dois eixos que define 4 quadrantes. O eixo direita-esquerda lida com o quanto se deseja que o mercado seja regulamentado. Quanto mais a esquerda mais regulamentações se propõe e quanto mais a direita mais livre se deseja o mercado. Ou seja, na extrema esquerda temos o comunismo, com a economia totalmente controlada e na extrema direita temos o neo-liberalismo, com o mercado com liberdade total, sem regulamentação. O quanto de regulamentação você acredita necessária define sua posição neste eixo.
O eixo vertical representa a linha social. Subindo no eixo teríamos o Autoritarismo do Estado, com um coletivismo imposto por ele, e descendo seria um Estado libertário, com um coletivismo voluntário. O extremo teórico para cima seria o Facismo e o de baixo o Anarquismo, segundo o site. Veja a figura, que fica mais fácil de entender (o © deles não permite que eu a coloque aqui, então você tem que clicar pra ver).
Bem, daí o site distribui algumas figuras históricas pelos quadrantes, pra você ter uma idéia. No quadrante da Esquerda Autoritária teríamos Stalin, na Direita Autoritária está Hitler, na esquerda Libertária tem o Gandhi e na Direita Libertária o Friedman. Se você nunca ouviu falar do Friedman, deveria - é o cara que definiu e promoveu com afinco a doutrina econômica vigente no mundo atual.
Após mais algumas explicações, o Political Compass apresenta alguns líderes de hoje distribuídos no seu gráfico. Veja lá. Note a abundância de líderes concentrados no quadrante Direita Autoritária. Esse é um quadrante que eu acho muito curioso. Ele propõe que o mercado deve ser livre, mas a sociedade não. O Estado deve regulamentar assuntos teoricamente privados, como por exemplo a maneira como pessoas adultas podem fazer sexo de comum acordo dentro de casa, ou se duas bichas podem viver juntas ou se vão pra cadeia se o fizerem. Porém, assuntos que afetam diretamente o público, como a economia e como as empresas agem nela estão fora da alçada do Estado, que deve deixar o mercado livre pra se auto-regulamentar, inclusive gerindo patrimônios públicos e serviços de infra-estrutura básica da sociedade.
Quer dizer, uma mega corporação fazer propaganda que visa especificamente crianças de produtos que fazem mal à saúde, como fast food, por exemplo, tudo o bem. Durante a administração Reagan nos EUA, a agência reguladora do comércio (FTC) disse que o Estado não tinha como determinar de maneira prática se a propaganda é pra criança ou não[1]. Faz sentido, claro, quer dizer, como saber se um treco chamado McLanche Feliz com um brinquedo de personagem de filme infantil anunciado por um palhaço em um playground é pra criança? Se o Burguer King vende nuggets com forma de Tele Tubies (Wikipedia), isso não é assunto do Estado, seria censura.
Também, companhias tratarem trabalhadores como escravos descartáveis, hey, é uma questão de negociar o contrato entre empresa e funcionário. Eles que se entendam, quem não estiver contente que ache outro emprego. O Estado não deve influenciar nessas relações.
Agora, já em outras relações o Estado deve, sim, se meter… digamos, se um cara absolutamente brilhante como o Alan Turing, uma das poucas pessoas que efetivamente avançaram o conhecimento da humanidade, sendo considerado o “pai da ciência da computação moderna” (Wikipedia), é bicha, então ele deve ser processado, submetido a tratamento hormonal forçado (para evitar prisão) e demitido de seu cargo, afinal ele é… o que? uma ameaça ao público porque gosta de homem?
E o quadrante que defende isso é onde se encaixa a maioria dos líderes do mundo de hoje - e mais um monte de gente que os apóia. Impressionante e triste que tanta gente assim fique feliz de ficar no mesmo quadrante que Adolf Hitler… eu, particularmente, já prefiro a compania do Gandhi e do Dalai Lama (sem falar no érre e na Carla) no meu quadrante, obrigado.
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[1] Eric Schlosser, Fast Food Nation, p. 46, Penguin Books, 2007
Barts:
Eu to na esquerda embaixo tambem, mas nao sei se quero a companhia do Nelson Mandela,sabe?
Ahm .. a gente poderia expulsa-lo do quadrante?
July 9, 2008, 1:56 pmdaniduc:
Não! Nós somos um quadrante tolerante! Quem expulsa (quando não prende) é o quadrante de lá! Guenta o Mandela e pára de estragar minha provocação gratuita (tem até uma resposta no FAQ do Political Compass sobre pessoas que ficam magoadas por acabarem em quadrantes junto com Stalin ou Hitler ou algum outro figura antipático…
July 9, 2008, 2:17 pmdaniduc:
Hm ta aqui: http://politicalcompass.org/faq#faq19
July 9, 2008, 2:20 pmdaniduc:
Ah, Badá, se você ler isso daqui: misquici de responder outro post, pra fazer carinhas marotas é só fazer o emoticon normal, que o blog faz mágica e converte pra icones simpáticos:
July 9, 2008, 2:22 pmdaniduc:
ta, disclaimer, pq eu esperava irritar pessoas da Direita Autoritária, mas não da Esquerda Libertária: embora o post reflita razoavelmente minha opinião política atual de maneira séria, o último parágrafo não é sério, é apenas provocação. Eu apenas escolhi o pior exemplo de um quadrante e os melhores que achei (viu érre e carla) no outro. Estou plenamente consciente que alguém da Direita autoritária poderia fazer o mesmo que eu, só que invertido, só pra provocar. E isso não terá qualquer valor para um argumento racional, do mesmo modo que meu último parágrafo não tem.
July 10, 2008, 2:24 pm