Quadrinhos da Folha
Todo dia a Folha de São Paulo publica 6 tirinhas em quadrinhos, de cartunistas nacionais, o que acho bastante louvável, criando um mercado pra tiras diárias no Brasil. Porém, o resultado é bastante desigual. Metade das tiras são dos clássicos Los 3 Amigos - Angeli, Laerte e Glauco - que estão aí desde os anos oitenta. Depois temos o Fernando Gonsales, que veio um pouco depois, o Adão, que se enturmou com Los 3 Amigos em algum ponto dos anos 90 e aí o New Kid on the Block, o Caco Galhardo, que começou com os pescoçudos, depois abandonados em favor de temas e personagens livres, como os outros.
Mesmo com essa liberdade, o que acaba acontecendo é que muitos deles ficam na temática adolescente das funções fisiológicas - xixi, cocô, sexo. Sexo, claro, pode ser um excelente tema - e tem sido muito bem explorado por gente muito competente - mas também é uma função fisiológica, e é neste nível que Glauco, Adão e, com freqüência menor e mais competência, Caco Galhardo tratam a coisa.
A tirinha de hoje do Glauco de hoje (03/07/08), por exemplo, se baseia em um peixe de Urano arrotando. É isso. Peixes de Urânus (hein, hein) arrotam e são nojentos. Pode ser que os adolescentes dos anos 80, 90 e 2000 continuem achando engraçado, o que justificaria a contínua publicação do Glauco, mas eu sinceramente acho que, mesmo que seu objetivo fosse atingir o público adolescente, seria possível fazer isso de maneira mais elaborada, criativa, menos óbvia. A impressão que dá não é que Glauco faz um humor para meninos de 14 anos (que em geral é quem acha arroto e peido engraçado), mas que ele foi incapaz de elaborar mais a sua escrita depois dos 14 anos e ficou preso nisso. É só o que ele sabe fazer, sorte que todo ano nascem pessoas novas pra achar engraçado uma tira óbvia sobre função fisiológica.
Com um pouco mais de talento do que Glauco, que além de escrever pobremente desenha ainda pior, o Adão tem momentos bons, embora não brilhantes, mas ainda precisa amadurecer. De vez em quando ele acerta, mas volte e meia tem uma recaída adolescente e está lá, fazendo piada de xixi, pipi no popó (ou pipi com pipi) e relacionados. A tira de hoje dele é um exemplo desse comportamento. Tem um punk quebrando uma casa, e, no último quadrinho, o punch line explica a cena: trata-se de Jack, o punk decorador de interiores. Quase fica engraçado. Pelo menos, ao contrário do Glauco que é incapaz de sair da mera exposição rastaquera das funções, busca explorar uma das premissas básicas do humor - a quebra de expectativa e contraposição de opostos - com a oposição punk/agressivo-decorador/sensível, o que é bom sinal, mas no último quadrinho vem a recaída: Jack faz xixi na parede. Har, har, xixi é engraçado.
Elaborando um pouco mais, está o Caco Galhardo, que também se fixa no tema sexo, mas consegue de vez em quando sair das risadinhas, hihi, eu tenho pipi ela tem popó, hihi, e consegue satirizar comportamentos humanos nessa área com alguma competência e graça. Mas, mais sim do que não, acaba martelando na mesma tecla, e as piadas do vovô, velhinho que quer sexo, por exemplo, são insuportaveis. Um velho querendo sexo, imagina só isso! Um velho!
Sem grandes pretensões, a lista continua com Fernando Gonsales. Fernando se mantém, mais ou menos, no tema de animais, explorando trocadilhos infames, jogos de palavras e piadas rápidas. Não sou grande fã, mas a falta de pretensão com algumas tiradas espertas conseguem distrair e tirar umas risadas sem precisar apelar com a freqüência do trio de quem já falei até aqui.
Há então os dois super-heróis do quadrinho nacional, Laerte e Angeli. São claramente superiores aos demais, e tem sido por décadas. Ambos já apelaram muito pra escatologia, principalmente o Angeli, e principalmente na década de 80, mas como tem muito talento, evoluíram. Angeli tem crises criativas (ou de preguiça, vai saber) mais freqüentes do que o Laerte, mas apela agora pra rascunhos quando está sem idéias e tem um dead line pra cumprir, em vez de mostrar um peixe arrotando - solução, pelo menos eu acho, mais digna. Desde os anos 80 Angeli está em crise (se você não lê, Angeli em crise é um tema muito usado por ele), mas as crises dele nos dizem alguma coisa, tem algo de verdadeiro. Além disso, Angeli é mestre em satirizar a humanidade e seus bananas, e alterna momentos muito bons com alguns de genialidade. Confesso que não gosto muito dessa fase em que resolveu concluir que o mundo dele acabou e não há mais nada a dizer. Pode ser que o mundo dele tenha acabado, mas ainda há muito a dizer, e Angeli é competente o suficiente pra fazer isso bem.
E nos resta, por fim, o Laerte. O Larte é mestre. Ele é, de todos, e eu digo de todos os quadrinistas brasileiros vivos que eu conheço, o único gênio. Acho ele melhor que o Henfil, e digo isso sem nenhum demérito pro Henfil. Tivesse nascido nos Estados Unidos seria reconhecido mundialmente. Além de desenhar excepcionalmente bem, também escreve excepcionalmente bem. Ele consegue uma das coisas mais difíceis na escrita: reproduzir o jeito que as pessoas falam, de verdade. Parece simples, quando você le você pensa “é bem assim”, mas captar esse bem assim é coisa pra poucos. Consegue fazer humor inteligente sem ser pretensioso e é imensamente criativo. E é um mestre do non-sense, um dos meus tipos favoritos de humor.
Non-sense que agora resolveu levar ao extremo, abandonando totalmente o humor - pelo menos o óbvio, estruturado da maneira tradicional. Não que seja humor obrigatório em tiras diárias, não é, e muita coisa boa foi feita sem ser engraçada nessa media. Mas há alguns anos Laerte entrou numa fase experimental hardcore, e como toda experiência, o resultado não é garantido. As vezes dá certo. As vezes não. De qualquer forma, está pelo menos fazendo algo novo. Vamos ver o que vai dar, e ver o que vai dar na cabeça alucinada de um cara extremamente talentoso é o que me motiva, todo dia, a clicar na tirinha dele, mesmo que ignore por semanas os outros.
Se você usa RSS e gosta de quadrinhos, assine o FEED das tirinhas da Folha.
Ali Ckel:
Muito bom post, Daniduc!
July 3, 2008, 9:25 amBadá:
Muito bom, mesmo! Concordo com quase tudo…
July 4, 2008, 1:44 pmsó que eu respeito o Angeli, mas os cadernos de esboços e as crises dele já me encheram o saco. Não é algo que se eu vejo eu desgosto, como o Glauco, ou algo que eu geralmente ignoro, como o Garfield (fugindo do tema, mas mantendo nos quadrinhos da Folha); eu sempre vejo, mas na maioria das vezes é só… nada. Parece que eu não “entendi” porque é piada interna. Aquela “série” dos gêmeos Kowalski, por exemplo, eu achei péssima; um “enredo” que fingia ser non-sense mas soava forçado, diálogos muito falsos, e aquela sensação de “chegou no último quadrinho, deve ser aqui que é a piada”…
Eu trocaria de posição, então, o Fernando Gonsales e o Angeli. Porque pra mim o Fernando Gonsales é um quadrinista basicamente de humor (ao contrário do Angeli e do Laerte, por exemplo), que não, digamos, se aprofunda muito em nada, mas que mesmo quando a piada é sem graça ou só besta, o desenho é ótimo. (E às vezes, é hilário!)
Mas, oquei, só opinião.
daniduc:
Badá, excelente comentário, valeu!
Realmente a série dos gêmeos foi muito ruim - a ponto de eu não conseguir ler tudo. Os cadernos de esboços são, obviamente, pura enrolação. Mas acho que em alguns momentos, como em alguns a república dos bananas, por exemplo, ou as crises, ele acerta e muito. Pra mim esses momentos justificam todo o resto. Digo, o FG é bem mais mediano, e bem mais regular, e bem menos pretensioso. Quando o Angeli erra, fica muito abaixo do FG. Quando acerta, na minha opinião, fica muito acima. E julguei pelo alto, não pela média, nesse caso
Garfield morreu há décadas, e o cadáver se recusa a aceitar seu descanso final e merecido. Podemos ignorar com segurança.
July 4, 2008, 2:08 pmBadá:
“Quando o Angeli erra, fica muito abaixo do FG. Quando acerta, na minha opinião, fica muito acima. E julguei pelo alto, não pela média, nesse caso”
É, deve ser isso. (Não sei colocar carinhas aqui, mas imagine que eu coloquei uma adequada.)
July 5, 2008, 12:03 pmSAVEPOINT » 5 blogs que já me salvaram o dia.:
[...] é a concordância que tenho com algumas de suas opiniões. Foi o que aconteceu quando li uma crítica dele sobre as tirinhas da folha por exiemplo. Vale a pena acompanhar seus posts, eu curto [...]
August 31, 2008, 12:11 am