Sons inconfundíveis
Havia uma divisão muito clara entre os técnicos que trampavam no data center: aqueles que usavam Windows e aqueles que usavam Linux/UNIX. A divisão não era somente nos servidores que administravam e prestavam suporte, mas também no sistema operacional instalado em seus computadores de trabalho. Os grupos se davam bem, mas a implicância entre eles lembrava a de torcidas de futebol, e usuários de um sistema nunca se metiam a mexer no outro, a não ser na ausência total de algum representante do time oposto que pudesse dar o suporte, caso em que o infeliz se via obrigado a quebrar um galho. O que fazia, claro, sob forte protesto e intensa resmungação, grumbles, maldito sistema operacional, onde que eu acho essa opção, grunfs, no outro sistema é muito mais fácil, rumbles.
Meu coordenador técnico era do time do Windows e eu, naquela época (eu sei, r e aline, eu sei, traidor mentiroso e etc), era do Linux/UNIX. O coordenador nunca entrava no Linux e muito menos ainda nos sistemas Solaris que estavam sob nossa administração. Esse fato estava impregnado em minha consciência como um dogma.
Bom, uma bela tarde (ou feia noite, jamais saberei… o data center não possuía janelas ou aberturas pro mundo exterior) dei uma escapadinha pro café, aquele café básico de enrolada de 5 minutos que está previsto na CLT, e se não está deveria, porque é inevitável em qualquer empresa ou profissão. Ao voltar ouço um peculiar som de bips seguidos, em freqüência cada vez maior e mais nervosa, o típico som de algo está dando errado em um terminal de acesso. Como em geral o terminal de acesso é usado pra, bem, acessar servidores UNIX, e em servidores UNIX a causa mais comum de bips seguidos e irados é a falta de experiência de um usuário ao lidar com o vetusto editor de textos de linha de comando do UNIX, o vi (fala-se viái), devido aos seus comandos crípticos formados por teclas obscuras que devem ser pressionadas em seqüências precisas que devem ser aprendidas ao longo de anos de prática, sob pena de ouvir um bip pra cada erro, solto a seguinte frase, enquanto passava pelas baias segurando meu café de enrolador:
- Ah, o inconfundível som de um tremendo cabaço usando o vi…
Ainda rindo-me da minha tiradinha espertinha, sou fuzilado pelo olhar de meu coordenador, que levanta a cabeça em resposta. Paraliso, uma onde fria de dúvida percorre meu corpo ao ritmo de dogmas sendo derrubados.
- Hã… Ruy (esse era o meu coordenaddor), você não estava…
Olhar fuzilante.
- …assim, por acaso, acessando o UNIX, estava?
Olhar.
- Usando o vi?
Fuzilante.
- É?
Por algum motivo qualquer, talvez por que eu tinha saído prum café, não sei, o infeliz coordenador se viu obrigado a acessar um Solaris e usar o temido vi pra tentar, sem sucesso, claro, prestar um suporte. E estava apanhando feio do vi. Fui imediatamente solidário:
- Estava? HUAHAUHAUHAUAHAUHAUHAUAHUAAAAAAAAAAA! O som de um cabaço usando vi é INCONFUNDíVEL!
Após limpar as lágrimas de riso, eu fui lá e prestei o suporte. Não sei, mas talvez isso tenha algo a ver com a minha escala de plantão seguinte envolver semanas seguidas, incluindo carnaval… ou talvez não. O que eu sei é que minhas pausas pro café ficaram mais curtas, interrompidas sempre pra atender pedidos de suporte envolvendo vi. Deve ter sido coincidência, claro.
Everton:
Na verdade não é “havia”, em todo lugar “há” uma divisão entre essas equipes.
April 25, 2008, 10:08 pmSalsa:
EEEEEEEEEEE….contos novos
April 26, 2008, 9:46 amCarla:
Hiláro!!!!! “Som de cabaço usando vi”! hehehe
Cláaaaassico!
Ah, é tão legal inticar com Windows!
April 29, 2008, 8:29 pm