Ameaçando a neutralidade da rede
Uma das coisas mais legais da Internet é que ela é interativa. Você não apenas absorve conteúdo, você publica conteúdo. É uma via de duas mãos, ao contrário da TV e do rádio, por exemplo. Isso permite que se instale um espaço de expressão livre, onde um domínio tem o exato mesmo peso que qualquer outro. Ou seja, tanto faz você digitar http://www.cybershark.net ou http://www.coca-cola.com, os dois irão aparecer em seu browser do mesmo jeito, seja eu uma mega corporação multibilionária ou um grupo de amigos que investe 139 dólares por mês. E pode-se publicar conteúdo de maneira independente por bem menos do que 139 dólares - nós temos a infra completa, mas se você só quer seu site no ar com seu domínio, existem hospedeiras que oferecem preços bem menores.
Essa liberdade toda de expressão foge ao controle e padronização tão em moda nas sociedades de hoje. Produção em massa gera lucros em massa, mas requer uma estrita padronização e controle das variáveis, e a Internet, permitindo que qualquer Zé mané com não muito dinheiro se expresse como quer, não se presta bem a isso. Os maiores interessados em padronização e controle das massas, as grandes corporações não gostam muito disso, então.
Houve tentativas isoladas de controle do cyber-espaço feitas pelas corporações. É notório o esforço da Globo, que uma época veiculava todo Jornal Nacional e todo Fantástico casos escabrosos de pornografia infantil e horrores da Internet e logo depois oferecia a Globo.com como alternativa saudável e segura de navegação. Os grandes portais martelam que seus sites são a Internet. “A minha Internet tem informações sobre esportes e games super legais, e a sua?”
Mas isso não se mostrou eficiente para a grande escala e agora as corporações estão organizando um ataque mais concentrado e eficiente, direto na fonte dessa liberdade toda. Está sob ataque o conceito de neutralidade da rede - ou Net Neutrality, em inglês. Uma rede neutra, de acordo com a Wikipedia, não tem restrições de quais equipamentos podem ser conectados á ela nem favorece uma espécie de comunicação em favor de outra. Esse conceito, o princípio que permite que todos tenha chances iguais de usar a rede, está sendo minado pelas provedores de banda larga e pode ruir completamente.
Um caso simples de uma rede não neutra é quando uma provedora resolve restringir o tráfego de uma aplicação peer-to-peer, como o Emule. Mas pode ir bem além disso. Imagine se a Telefonica, que antes de ser a provedora do Speedy vive de telefonia, encrenca com o Skype, por exemplo. Ou imagina se todas as provedoras resolverem cobrar para entregar o conteúdo do seu site? Cobrar muito? Cobrar, assim, o tipo de dinheiro que só uma grande corporação teria para pagar?
A discussão é complexa e cheia de nuances, e esse post é muito simples, tendo apenas a intenção de chamar a atenção pra discussão, que está forte nos EUA e Europa, mas ainda incipiente aqui.
Karma:
Não sei porque me lembrei de “Fight Club”… Deveras inspirador… rs
Abraço!
October 3, 2007, 12:44 am