Grito gelado

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Post continuação do primeiro, De Mirantão à Matutu, uma história exterior que foi originalmente publicada no antigo blog em 19/7/04. Essas duas histórias, De Mirantão à Matutu e Grito gelado aconteceram na mesma viagem que rendeu O dia que telefonei pra casa, nos idos de… deixa eu calcular… 90? 91? Por ai. Tem tempo.

Após um dia e meio de caminhada chegamos finalmente ao Vale do Matutu, na época e talvez até hoje, conhecido por abrigar, em algum ponto, uma colônia do Santo Daime. Nunca vi a tal colônia, ficamos, eu e o Sammy, na parte baixa do vale. Acampamos em um gramado e nos preparamos para passar um ou dois dias lá. A mãe do Sammy havia feito um arranjo com o dono de uma pousada para que pudéssemos tomar banho e comer por lá, que ela acertaria depois. Aparentemente ela ia muito nessa pousada e conhecia o dono.

A pousada era tipo um retiro espiritual para os hippies cabeça da vila madalena, toda alternativa. Sente o drama: fomos a noite para jantar lá e descobrimos que antes do jantar haveria meia hora de meditação. Huh? Foram todos os hóspedes da pousada andando até uma construção circular logo mais acima com pinta de templo budista. E aí todos sentaram em lótus e começaram a meditar! E eu, animal esfaimado com meus dezesseis anos, digamos mais próximo de Ramones do que Hare Krhisha, me vejo sentando em lótus num meio de um círculo de pessoas que nunca tinha visto antes (excluíndo o Sammy) “meditando”. Bem, meditei muito sobre frango assado e churrasco.

O que provou ser uma decepção, óbvio que a comida era vegetariana, afinal você “não vai deixar o cadáver de animais entrar no templo sagrado do seu corpo”, vai?

Bem, fome é fome e mandei ver nas coisas de soja e outros trecos que não me atrevi a perguntar o nome, mas ande 15 dias subindo e descendo com toda a sua casa nas costas que você come quase qualquer coisa que te cair num prato.

Dormimos na barraca e no dia seguinte à tardinha o Sammy me chamou pra subirmos pra tomarmos banho quentinho na pousada. Sem muito ânimo pra enfrentar os “alternativos” e querendo me vingar do lance do maricas da lanterna elétrica, desafiei:

- Eu não vou.
- Vai ficar sem tomar banho?! Vai dormir do lado de fora da barraca!

Muito engraçado, depois da gente se arrastar pelo sul de Minas inteiro por 15 dias sem pensão nenhuma pra tomar banho de repente agora ele tinha ficado exigente.

- Eu vou tomar banho, só que banho quente em pensão é pra maricas! A gente tem se virado muito bem sem pensão até agora!
- Maricas? E onde diabos você vai tomar banho?
- Ué, tá cheio de cachoeira com piscina natural, aqui é um vale! Vou tomar banho numa delas!
- Nem fudendo! Esta uma puta friaca, tenho até medo de imaginar a temperatura da água!

De fato, anoitecia no vale e estava bem frio. Mas eu, cheio da arrogân… hã, malícia característica de adolescente, pensava que se estava frio assim do lado de fora, em contraste a água iria estar menos fria.

- Bem, se você não tem coragem…
- O QUÊ?!? Aposto dez mangos como você não aguenta nem 10 segundos dentro dágua!
- Um mango por segundo, vai ser fácil!

Fomos até uma cachoeira que formava uma piscina natural, quase noite, fiquei só de sunga. Lembre-se: sul de Minas, inverno. Minha mente começou a ter segundos pensamentos quando eu vi a fumaça subindo da água gelada na penumbra do anoitecer…

- Vai la, macho man, 10 segundos!

Respirei fundo, pensei que 10 segundos passam rápido, vou até dar uma nadadinha. Melhor pular de vez. Pulei.

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Eu quis gritar, mas o berro congelou no ar e caiu. O choque me paralisou por um segundo e a consciência de que estava dolorosamente frio me atingiu ao mesmo tempo que o pânico! Medo irracional, pânico, frio!

Do fundo da minha mente ouço uma voz distorcida, vinda de algum lugar, que iniciava uma contagem em câmera lenta, atravessando eras glaciais até me atingir:

- UmMmMmMm…

Como horror percebi que a contagem não estava em câmera lenta, era o tempo que se arrastava, cada segundo passando por mim, dando uma paradinha, me apontando e comentando, caraca, deve estar doendo. E estava. Muito.

Mais tarde naquela noite eu tomava uma sopinha vegetariana, após um delicioso banho quente na pousada que me ajudou a recuperar a sensibilidade nas extremidades.

Mas com 10 mangos no bolso. Fiquei a porra dos dez segundos! Quem é maricas?!!

2 Comments

  1. Ida:

    Fiquei muito contente com a volta dos posts de dude’talk. É muito bom visitá-lo e reencontrá-lo.

  2. Barts:

    Eu acho os posts do blog antigo tudo, ele tinha que virar um livro!

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