São Paulo não é feita pra pedestres

UPDATE - A Carla publicou, quase ao mesmo tempo e sem um saber do outro, um post sobre esse exato mesmo tema. É apenas natural, uma vez que temos discutido esse assunto há algum tempo. Eu sempre reclamei destas coisas, pois sou pedestre convicto (e forçado, um problema de saúde me impede de dirigir) faz tempo, mas recentemente vendemos nosso carro e a Carla, motorista convicta, começou a sentir na pele algumas das minhas queixas, o que gerou essa conversa. :)

São Paulo não é feita pra pedestres. Talvez o resto do Brasil também não seja, não posso afirmar com certeza - tenho conhecimento meio que turístico de algumas partes do país, mas essas coisas a gente sabe mesmo quando mora num pico. E eu só morei de verdade em São Paulo, isto é, desde que comecei a sair de casa desacompanhado.

Claro, alguns dirão que São Paulo não é feita pra motoristas também, vide o trânsito medonho e tal, mas isso é, na minha opinião, meio que conseqüência dela não ser feita pra pedestre. E outros ainda dirão que São Paulo não é feita pra pessoas, mas ai vai além do tópico.

Lance seguinte, não é só o transporte público que varia entre (raramente) tolerável a absolutamente impraticável. Isso também, mas eu tô falando de outra coisa, das pessoas que caminham mesmo. Digo, se você desistir do transporte público, ou carro, e resolver ir a pé prum lugar, isso não é prático na maioria das vezes, mesmo que você esteja em forma e disposto.

Em primeiro lugar, as calçadas. São impraticáveis, perigosas e até mesmo inexistentes. Aqui perto de casa eu já torci o pé, machuquei a perna e olha que ando de bota de trekking e tenho alguma experiência em terreno acidentado, depois de anos de trilhas e calçadas de SP. Em alguns pontos chega a ser ridículo, a calçada é um monte de entulho, irregular, cheia de obstáculos, saliências e outras coisas que o dono inclue no “seu” espaço - esquecendo que calçada é, ou deveria ser, espaço público. Alguns inclusive avançam o muro muitos centímetros calçada adentro, tornado-a inexistente, e lá vai o pedestre pro meio da rua. Acredito que o problema seja que realmente a calçada é tratada como terra de ninguém, ou melhor, de cada um, cada um fazendo o que quer, sem um planejamento urbano pro espaço público. Mas divago, eu não sei, realmente, qual é a causa. Sei qual é o problema, entretanto, pois o enfrento quase diariamente. Calçadas em São Paulo são hostis à pedestres, forçando uma escolha entre corrida de obstáculos com risco de se machucar ou andar pela rua, onde imperam os veículos motorizados.

Aliás, este é outro aspecto da hostilidade urbana contra os desmotorizados: é uma guerra suja entre carros e pedestres, e os pedestres não são os americanos nesta guerra. Primeiro lugar, vamos deixar claro que estou plenamente consciente que existe muito pedestre mal educado, suicida, irresponsável, idiota, distraído por aí. Não se trata de dizer que pedestres são santos e motoristas maus. O que eu quis dizer é que há uma guerra e os pedestres são o lado mais fraco, e isso é um fato, certo? Além do mais, o fato de existirem pedestres sem noção não desculpa o fato de existirem motoristas escrotos -e motoristas escrotos são um dos pontos que tornam São Paulo hostil à pedestres. Senão vejamos.

Não sei porque ainda gastam tinta com faixas de pedestre, já que realmente não serve pra absolutamente nada. É largamente ignorada. Experimente atravessar na faixa de pedestre (numa rua sem farol) quando não vem nenhum carro. Assim que vier um, veja se ele vai diminuir ou parar pra você. Muito antes pelo contrário. Aliás, é bem pior que isso. Muitas vezes eu estou andando ao longo de uma avenida e tenho que atravessar uma rua perpendicular. Eu olho pra avenida pra ver se não vem carro, mesmo que a lei esteja comigo - quando um motorista sai de uma via principal ele não tem preferência - porque posso ser besta mas ainda não sou suicida. Não uma, nem duas vezes, mas várias acontece o seguinte: quando estou no meio da travessia, na faixa, vem um carro da avenida em alta velocidade e resolve entrar. Ao se deparar comigo, dá um toquinho no freio, enfia a mão na buzina e berra: ACORDA! Quer morrer?

Como assim? Quando eu comecei a atravessar não vinha ninguém, eu estava no meio da travessia, com a preferencial, em cima da faixa de pedestres! E tive não só que correr pela minha vida como ainda ser xingado! Convenhamos!

Os faróis (sinais, sinaleiras, semáforos, como você quiser chamar… eu sempre chamei de farol) também são, com freqüência, ignorados. Muitas vezes estou na altura do Shopping Jardim Sul cruzando a Rua Nelson Gama, e carros ao notarem que na Giovanni o trânsito deu uma folga, furarem o farol rapidamente… quase passando por cima de mim. Agora, eu estou na preferencial, em cima da faixa, com o farol verde pra mim. CONVENHAMOS!

Isso gera um fenômeno interessante, que é a de pedestres atravessando correndo, com o farol fechado. E pior, com crianças na mão, já ensinando que esse é o jeito certo de atravessar a rua! Correndo na frente dos carros quando eles dão uma folguinha! Absurdo! É revoltante ver a falta de educação ser passada assim, por pais bastante irresponsáveis, e esse comportamento é indesculpável. Porém, seria mais fácil ensinar o comportamento correto aos pais se as faixas de pedestre, legislação e farois fossem respeitados.

Até aqui temos calçadas hostis, faróis, legislação e faixas de pedestre ignorados. Há mais dois fatores além destes.

O primeiro é a poluição. Sim, eu sei que caminhões jogando fumaça na cara incomoda os motoristas também, mas eles podem fechar a janela, e quando você está numa subida de quilômetros, como a da Giovanni Gronchi, por exemplo, receber uma descarga de caminhão na cara é horrível, tira o fôlego e faz muito, muito mal pra saúde. Não dá ânimo de andar a pé nestas condições. Mesmo porque todos sabemos que não é só um caminhão.

O outro é a violência urbana, que também acomete os motoristas, é verdade, mas isso não invalida meu ponto. Vamos dizer que é noite e você tem que ir do lugar A pro lugar B, e caminho, C, é escuro, deserto e reconhecidamente ponto de assaltos. Se for absolutamente necessário você passar por C, como você prefere passar? De carro ou a pé? Eu sei muito bem que eu prefiro passar de carro - já paguei táxi de 5 reais só pra fazer um trecho destes. Depois de ter sido assaltado diversas vezes a pé eu aprendi a perder cincão de qualquer maneira e poupar o trauma. Tem uma rua dessas assim na esquina de casa. Passo (rapidinho) por ela de carro a qualquer hora, mas a pé, depois de um certo horário, nem ferrando. Você iria?

Então, resumindo, São Paulo tem calçadas perigosas ou inexistentes, desrespeito à legislação, faróis, faixas de pedestre, poluição e violência generalizada. Junte isso com transporte público ineficiente, fatores macro-econômicos e temos uma cidade em que todo mundo quer andar de carro. Resultado? Poluição, trânsito, falta de vagas, flanelinhas, stress e pessoas obesas.