Comercialmente falando

O [dude's talk] havia parado e estava difícil retomá-lo. Mas vou ter que agradecer ao Jonny, que com seus links pra cá acabou me incentivando a voltar. Não pude resistir a ser colocado na capa do Sgt. Peppers! :) Segue mais uma História Corporativa curtinha.

As relações entre o departamento comercial (quem vende) e o técnico (quem entrega) sempre foram e sempre são tensas em toda empresa, e na informática certamente a tensão com freqüência escala pra conflito aberto. O pau comia e nos dizíamos barbaridades, que podiam variar na escala de hostilidades desde uma vez em que mandei um gerente de vendas beber no ânus até outra ocasião em que sugeri que um cara vendesse o elixir da longa vida - todo mundo quer viver pra sempre e se é pra vender algo que não temos condições de entregar mesmo, qual a diferença? Ele ficou puto na hora, mas depois deu risada. No fim a gente acabava se entendendo - eles faziam milagres vendendo milagres e nós fazíamos milagres entregando-os.

No Datacenter em que trampei, a área técnica ficava no porão, nas galés, caldeiras ou, como o elevador insistia em chamar usando sua voz feminina montônica, o Subsolo um. Era uma sala comprida e mais ou menos na metade dela havia uma divisória de vidro que nos separaa do HOC, ou centro de atendimento e monitoração. Esse centro era uma sala menor, onde ficavam os atendentes uniformizados de primeiro nível, com monitores LCD (na época raros), com um telão imenso mostrando o status da rede e outras coisas, no melhor estilo sala de controle da NASA acompanhando a trajetória dos foguetes e satélites. Muito impressionante… aliás bem mais do que o necessário. Era primariamente uma ferramenta de venda, usada pra impressionar os clientes com o nosso ar de centro espacial de alta tecnologia. Tanto que foi instalada uma janela no HOC para que os vendedores pudessem mostrá-lo aos clientes. Essa janela ficava o tempo todo fechado por uma cortina automática, que era controlada do lado de fora. O vendedor ia com o cliente até a janela, apertava um botão, a cortina subia e mostrava pro cliente dizer UAU o centro de controle e, ao fundo, o departamento técnico, tudo em pleno funcionamento.

Uma bela tarde o servidor de email (sempre ele) se recusava à várias horas a entregar correspondência e não havia argumentação que o convencesse. Estávamos brigando por horas, os clientes estressados, aquele horror. Eis que em um insight consigo resolver o problema e as mensagens começam a ser velozmente entregues. Soltei um grito, YES, e imediatamente comecei a fazer a dança de agradecimento aos deuses da informática. A alegria foi imediata e contagiante e todo o departamente se juntou na dança. Em uma volta empolgada olhamos para a janela do HOC aberta ao fundo e dois senhores de terno e gravata estupefatos, boca aberta, encarando a loucura coletiva. Era um vendedor nosso e um cliente. O mundo entrou em pause por um segundo. Todo mundo sentou ao mesmo tempo, cabeça baixa e bochechas queimando, sem coragem de olhar pro lado e ver o que estava acontecendo.

O vendedor nos contou, depois, que se virou pro cliente e disse:

- Hã, então… esse é a jaula dos analistas que criamos em cativeiro. Eles tem hábitos e rituais curiosos, mas é só jogar carne crua lá dentro duas vezes ao dia que eles resolvem problema que é uma beleza.

E com isso fechou a venda. As vezes as loucuras dos dois departamentos se juntavam e tudo dava certo no final.