A Força (da nerdisse)

UPDATE: O escritor André Falavigna publicou em seu blog esta crônica sobre a nerdisse (nenhum nerd me propôs mudar para nerdice, eu achava que alguém ia se denunciar em sua própria nerdeza, pipocas). Grato, André!

SEGUNDO UPDATE: Ahá! No blog do André finalmente alguém sugeriu (nos comentários) que fosse nerdiCe! Nerd é foda, nunca me decepciona :)

Quando eu tinha uns 7 ou 8 anos de idade minha família foi ao cinema. Quando chegamos, eu, pai, mãe e dois irmãos para assistirmos “Se meu Fusca falasse” meu pai disse “Não, esse filme é muito de criança. Vamos ver outra coisa, eu e tu”. Fomos ao cinema ao lado que estava passando Star Wars. Sim, o primeiro episódio, quer dizer, o quarto, enfim, o primeiro que o George Lucas filmou e depois decidiu que seria o quarto antes dele filmar o primeiro, que veio depois mas acontece antes. Hã, George é um cara confuso, aparentemente. Era o Star Wars de 1977 (eu estou me datando aqui, mas essa história não aconteceu em 77. Era uma reprise porque tinha acabado de estrear aqui no Brasil o Império Contra Ataca.) e entrei orgulhoso no cinemão. Tenho lembranças esparsas desse dia, mas eu lembro claramente do começo, a imensa nave (que hoje eu sei que é Imperial Star Destroyer Devastator) surgindo na tela. Ela continuava surgindo e surgindo e surgindo…

Wow.

Depois eu me lembro da cena de batalha que rola dentro da nave consular, lasers por toda parte, mortos…. e aí os oficiais do império se perfilam, tensos, esperando alguém surgir por detrás da porta destruída. Então, do meio da fumaça e dos escombros sai, imponente, gigantesco na tela imensa, com todo o poder do mal se afigurando incomensurável diante de um guri de 7 anos…

Darth Vader!

Ele respira mecanicamente, põe as mãos na cintura, olha em volta para os corpos.

Eu era um fã da série para sempre.

Uns 25 anos depois, já nerd convictamente assumido (a ponto de saber o nome da nave gigantesca que surge na tela), fico sabendo de uma convenção de ficção científica em São Paulo. O convidado de honra seria David Prowse, o gigante que fez o papel de Darth Vader na trilogia original, quer dizer, que usou a máscara - todas as falas foram dubladas pelo excelente James Earl Jones. Com os instintos nerdísticos acionados, entro em ressonância com o Salsa para comprarmos ingresso… rápido!

Havia duas opções de lugar no centro de convenções, ambos pelo dia todo. Escolhemos o mais caro, para sentar mais perto do palco, e aguardamos as semanas que faltavam impacientemente. Darth Vader, man, era o VADER!

No dia chegamos muito mais cedo do que precisávamos e descobrimos que não há tantos nerds assim no mundo.. a maioria dos lugares estava desocupada e meio que só a gente comprou o lugar mais caro. Hm… nos sentamos e… flash! O holofote do palco vinha direto em nossa cara, apontado para as poltronas do nosso setor. Passei o dia todo fazendo cabaninha com a mão na frente do rosto. Mas tudo valeria a pena para ouvir as histórias de bastidores e Star Wars contadas pelo Darth Vader!

A convenção foi se arrastando com as mais absurdas palestras. Discussão sobre raças alienígenas de Star Trek (do qual, aliás, nunca gostei), olhe, na série original ele tem cabelos azuis, mas na versão Snevers depois os cabelos são verdes, note a testa dos Klingons (que deve ser uma piada boa pros fãs, todos pareciam doutores em testa Klingon. Eu não quero saber, por favor, não me expliquem), e por aí afora. Eu engolia tudo com respeito, afinal eu estava lá pra ver um cara que eu nem sabia como era o rosto ou a voz e que conseguiu um papel sem falas apenas por ser grande o suficiente para ele. Quem sou eu para tirar sarro? E depois, o Vader estaria lá para nos contar histórias legais. O VADER, man!

Finalmente o locutor, lá pelas quatro da tarde, talvez mais, anuncia, empolgado, que a próxima palestra seria do David Prowwwwwwwwwwwwwsee (música). Mas antes, para introduzir o assunto, uma apresentação teatral…

(Música de Star Wars tocando!)

Entram dois caras vestidos de quimono de judô. Ambos seguravam espadas de brinquedo. Mas sabe, daquelas vagabundas, de plástico, não dessas modernas que são réplicas perfeitas, tô falando daquelas baratas, em cones que expandem e tal. Começou a cruzar uma linha do ridículo que até mesmo eu notei.

Os dois… ah… como chamarei… “jedis” passaram a encenar uma lutinha que, por falta de outro adjetivo, chamarei de patética. Era em câmera lenta (visivelmente por falta de ensaio), mas isso não impediu uma das espadas vagabundas dos… ah… “jedis” quebrar e cair no chão. O… ah… “jedi” pegou a lâmina partida e passou a segurá-la junto ao cabo, executando os movimentos segurando os pedaços com as duas mãos. De patético passou a insuportável, e escondi o rosto de vergonha alheia (e isso vindo de um cara numa convenção de ficção científica, que é normalmente povoada por pessoas imunes à noção do ridículo).

Finalmente acaba a tortura e entra David Prowwwwwwwwwwwwwwwwwseeee… aplausos, hurras! Ele entra sorrindo, de braços abertos, acenando e cantando, na melodia da música tema, algo como:

Star Wars / Made me a fortune / Paid off the mortgage / Bought me a car

Hurras, vivas, ninguém entendeu a letra, todos acharam que ele estava cantando a música tema. Ele fez a gente cantar junto, como quem diz, ei, otários, valeu a grana! Ahã… tá, de nada. Que tal a palestra agora?

David diz que trouxe dois carroséis de slides para compartilhar conosco. WOW! Um deles é sobre sua carreira antes de Star Wars (hum) e o outro composto de fotos inéditas dos bastidores, muitas tiradas por ele mesmo, que ele rechearia com causos da produção e filmagem. WOW!

E começa a apresentação. Por 40 minutos ouvimos sobre filmes B de terror semi-pornô absolutamente obscuros.

- Esse sou eu carregando uma atriz de bikini. Consegui o papel porque era o único que podia levantá-la e carregá-la por toda a cena.

Chleckt, novo slide.

- Esse sou eu e duas atrizes em uma ilha do Caribe, onde descolei um fim de semana legal à beça. Elas tiraram a roupa depois, mas não vou mostrar ESSAS fotos.

Chleckt, novo slide.

- Esse sou eu fantasiado de monstro no filme “O novo ataque do filho do monstro da Lagoa Negra parte 45″. A fantasia parece fajuta porque era na verdade feita pela mãe do produtor/diretor com cortinas usadas. Foi meu maior sucesso de bilheteria antes de Star Wars, rendeu 12 dólares.

Chleckt, novo slide. Eu me contorcia na cadeira, já com dor de cabeça pela luz intensa na cara o dia todo, vamos, vamos, Star Wars.

Então finalmente terminou o primeiro carrossel, ele trocou, colocou o segundo. Ligou o projetor, chleckt, primeiro slide era o logotipo de Star Wars. Hurras da platéia.

Entra o locutor do evento.

- Olá pessoal! Infelizmente as atrações anteriores de nossa convenção demoraram um pouco a mais e… bem, temos que devolver o teatro antes das seis, e ainda temos que realizar o sorteio da fita de Star Trek, os netos da novíssima geração… então David não poderá terminar sua palestra. Mas vamos todos agradecer e dar uma salva de palmas paraaaa Daaaaaaaaaaavid Proooooowwwwwwwwwwwwwse!

David que saiu sorrindo e abanando para o público, feliz da vida de ter descolado a grana dele com meia palestra.

Meu queixo estava no chão. Eu não sabia nem expressar minha indignação. Monstros! Malditos!

Saí em estado de choque do centro, onde prosseguiu o tal sorteio. Vaguei por um tempo e encontrei do lado de fora, quem? David Prowse e uma banquinha com fotos. Ele estava autografando. Eu não precisaria ter pago o ingresso na convenção para apertar a mão do homem. Suspirei. Comprei uma foto entrei na fila pra pegar um autógrafo. Cheguei lá e ele queria 10 dólares para autografar a foto. Suspirei de novo e paguei.

E cara! EU TENHO UM AUTÓGRAFO DO DARTH VADER! VADER, MAN! Não é demais!? YES! YESSS!

:)

12 Comments

  1. juju:

    hueheu
    hilário! (sorry)

  2. Miguel:

    dei várias risadas também, tá muito boa a narrativa

  3. Salsa:

    Hehe…. eu sou testemunha viva do que aconteceu ;)

  4. Nei Duclós:

    “Prensionante!”, como dizia aquele gauchão. A maior revelação desta crônica foi o nome da nave sem fim, aquela que não cansa de passar. Parece nome das Produções Tabajara, não-sei-o-quê Devastador. É verdade ou mais um mico para quem não é do ramo? Lembro desse dia. Gostei do faroeste. Era uma sessão da tarde completa. Além dos tiros, do deserto, tinha luta de capa e espada e perseguição de diligência Ok, naves). Cem anos de cinema num só filme. Lucas e Spielberg são exatamente da minha geração. Vimos os mesmos filmes, as mesmas bobagens, os mesmos seriados. São dois daqueles guris que iam ao cinema quando usávamos calça curta e que fizeram o que fizeram. Brincávamos de mocinho. Eles continuaram a brincadeira pela vida afora. Sorte de todo mundo. Acho que a confusão do Lucas vem dos seriados. A gente acompanhava e fundia a cuca para entender a trama. Era um episódio por semana. Tudo se misturava na nossa cabeça. Ei, esse “inpisódio” já passou! Os caras dos cinemas trocavam os rolos e fundiam a nossa cuca. Ou então nós que éramos meio pirados mesmo.

  5. Ida:

    Ri prá valer!

  6. Aline:

    Muito muito bom, Dani :-)
    Acho que essa é uma das minhas histórias preferidas. Que fdps!!
    Argh, eu odeio o David Pouser, Prowse, sei lá.

  7. Aline:

    Aliás, lendo o post lembrei de uma música que eu adoro, do Dionysos: Song for Jedi (YouTube) :-)

  8. daniduc:

    mas aline, ele é o Vader, o VADER!

    :)

  9. carla:

    Essa história é hilária e está brilhantemente narrada! :)

    É inevitável, todo nerd sabe o quanto Star Wars gera $$ e o quanto os atores e o George Lucas se aproveitam disso. Mas é mais forte que qualquer consciência, é o Darth Vader, nada mais importa! :)

    A foto do Darth Vader autografada ainda vai para nossa parede! :)

  10. Nei Duclós:

    Sobre a tal nerdiCe: touché, Daniel!

  11. [the dude’s talk] › Laerte e C3PO em SP:

    [...] Chamado de prioridade alpha. Semana agitada para a nerdaiada em Sampa. Primeiro, se você leu a Força da nerdisse e ficou querendo acumular sua história também, essa é a sua chance. OK, não é Vader, o VADER, [...]