Pais

Duas histórias, ambas totalmente verídicas.

Pai

Lá pelo começo dos anos 90 eu subia a rua do Matão, na USP, numa manhã incrivelmente fria de inverno. Era de manhã bem cedinho, umas seis horas de um sábado, e eu havia virado a noite numa festa da FAU-USP, onde, pra variar, não tinha pegado ninguém. Sonado, com frio, caminhava ladeira acima voltando pra casa (que era do lado da USP), e então pensei:

- Bem que um café com leite quentinho ia bem agora.

Mas, oh, não haverá leite fresquinho em casa. Resignado, caminhei um pouco mais até a padoca, comprei um litro de leite A Fazenda (pensando o que? Café com leite com classe!), e cheguei, enregelado, virado e cansado na porta de casa.

E notei que havia esquecido a chave. Longo suspiro. Só me restou bater palmas (já então a campainha não funcionava) até ouvir meu pai acordando, abrindo a porta do quarto, descendo as escadas.

Ouço o barulho da chave, e a porta se abre.
Meu pai, de pijamas com a maior cara de sono do mundo me encara por um segundo, nota o litro se leite na minha mão e manda, a queima roupa, apenas constatando um fato:

- Na minha época eu voltava pra casa com um litro de vodka.

E virou-se para subir de volta ao quarto.

Meu pai rocks.

Mãe

Vocês sabem que é comum mães usarem apelo emocional como argumentação, certo? Tanto que existe a famosa piada da lâmpada.

- Quantas mães você precisa pra trocar uma lâmpada?

- Nenhuma… eu fico aqui, sozinha, no escuro, mesmo…

Devo dizer que depois que ouvi essa piada eu contei pra minha mãe muitas vezes. Ela, aparentemente, não achou a mesma graça que eu, não sei porque. Isso só me serviu de incentivo pra usar (filho desnaturado e insensível que sou) a frase da piada pra contradizê-la sempre que ela me fazia algum pedido absolutamente razoável que estava ignorando de pura birra, só pra inticar com a minha mãe, mesmo que ficasse três dias de cama resfriado porque não levei agasalho quando estava obviamente frio (e depois ainda pedia chazinho, o pilantra).

Essas inticâncias diminuíram (um pouco, eu sou bom em inticar remotamente) depois que sai de casa. Com a convivência menor, a gente acaba não tendo tempo pra se inticar em base regular, mas isso não é desculpa, eu sei.

Bueno, estava eu um dia no meio do trabalho na Conectiva. Quem acompanha as históricas corporativas tem uma noção da profissão, e a Conectiva em especial era barra-pesada. O stress tomava conta e o trabalho acumulava-se impiedosamente. O telefone tocava sem parar e nunca era boa notícia (depois que comecei a trabalhar fora que eu entendi porque ao ouvir o toque do telefone em casa meu pai exclamava, de olhos arregalados e ombros encolhidos: “Ixi, pepino!”). Dizia eu, estava lá no meio dessas atribulações, quando telefone tocou (como de costume):

- Daniel! exclamei, enquanto respondia um email do trabalho. Aliás, na minha casa por anos eu disquei 0 antes de ligar e atendi com “Daniel” em vez de alô.

- Oi filho.

- Oi mãe, fala. Eu continuava respondendo o email enquanto pensava na bucha que ainda tinha pra resolver antes de sair (e já eram umas 4 da tarde!)

- Oi filho, os teus irmãos sairam.

- Ahã. Plim, outro email. Saco.

- E o teu pai ainda não chegou do trabalho.

- Tá, sei. (Inferno, o novo mail era mais uma bucha pra resolver.)

- O problema é que agora faltou luz aqui em casa e…

- É? Hã, escuta, mãe, eu to meio ocupado, não dá pra você discar 196 pra ver a previsão de volta?

- Não, então, eu já liguei, volta em meia hora.

- Tá. Eu continuava lendo emails. - Hã, tu quer que eu faça alguma coisa? Tá meio corrido aqui…

- Não só te liguei pra…

- Fala mãe.

- Não, pra te dizer que eu tô aqui… sozinha… no escuro…

Fiquei estático por uns segundos e depois explodi numa tremenda gargalhada. Até hoje eu rio quando eu lembro. Minha mãe rocks.

2 Comments

  1. Badá:

    Uaaaahaahahahahaaah, viva os pais do Daniduc e a capacidade do filho deles de contar causos!!!

  2. Aline:

    kkkkkkkkkkkkk . O Badá tem razão!

    O melhor é que, conhecendo a Ida e o Nei, as histórias ficam mais reais e muuuuito divertidas.

    Estava lendo o post e pensando: ‘o Daniduc vai ser daqueles avós super legais, que reúne toda a garotada para contar histórias e mais histórias’ :-D