Corra, bixo, corra!
Então, era o começo da década de 90, e antes de eu entrar na Bio-USP eu passei no vestibular para Artes Plásticas na FAAP. O que meio que me surpreendeu, porque eu simplesmente não fiz nenhuma conta pra prova de matemática nem rascunho pra redação. De alguma maneira entrei e lá fui eu, ansioso como só um bixo cabaço pode estar, pensando com meus cadernos recém-comprados “iac, nunca fui um universitário antes, que legal!”
O que era um fato óbvio, uma vez que eu estava indo para o primeiro dia de aula com esperanças de assistir aulas, inocência que eu, atualmente cursando minha terceira faculdade (será que agora eu termino uma?), já perdi faz bastante tempo. Me perdi pelos corredores da FAAP, achei a sala, sentei, tudo isso sem ser ameaçado ou sequer notado pelos veteranos. Isso, na minha limitada experiência, é ou sinal de perigo iminente de trote mortal ou de que você entrou na FFLCH-USP. Eu digo a vocês, a FAAP não é nenhuma FFLCH, e estive nas duas pra falar.
Bueno, sentado para a primeira aula, desenho geométrico I ou algo que o valha, aguardei o professor. Que surpreendemente veio e começou a dar uma aula que não era trote. Anotava tudo, concentrado.
O cara falou por uns 3 minutos, dizendo quais materiais deveríamos trazer na próxima aula, parou e disse:
- Bem, acho que é isso então. Ok, pessoal, podem entrar!
Foi a senha pra uma horda uivando chutar (literalmente, juro pra vocês) a porta, invadindo o lugar aos berros numa onda bárbara que teria dado orgulho ao velho Átila, aquele que foi carinhosamente apelidado de “O Flagelo de Deus”. Alguns bixos mais espertos do que eu começaram a correr por cima das carteiras tentando escapar, mas foram logo subjugados (with extreme prejudice).
Carteiras voavam, pessoas de tesoura na mão corriam e berravam, a classe havia se transformado em uma cena de Braveheart. Eu estava paralisado, sem entender porra nenhuma, quando surgiram na minha frente joelhos. Eu segui os joelhos até o topo e dei de cara, lá em cima, bem no alto, com um veterano sorrindo maníacamente e portando uma tesoura.
Agora, isso é um sinal que mesmo meu bestificado cérebro de bixo nerd é capaz de entender como “corra AGORA!”, e foi o que eu tentei fazer. Nunca cheguei a me levantar por completo, dois capangas, um de cada lado, me sentaram imediatamente de volta na carteira.
- Quieto bixo! Sabe o que acontece com bixo rebelde?
- Ahm.
O cara começou a cortar caminhos enlouquecidos pelo meu cabelo, dizendo “bixo, a gente faz artes plásticas, sabe, então temos que ser criativos, olha, o ratinho que fez esse caminho estava perdido… quieto bixo, eu tenho uma tesoura afiada rente à sua cabeça e não tenho muita coordenação, tem certeza que você quer se mexer?”
Não tinha. Fiquei quieto, enquanto ele cortava (algumas partes) rentes o suficiente para garantir que eu teria que ordenar ao barbeiro depois pra raspar com máquina zero. Deixou algumas ilhas de cabelo (que paravam de pé à base de guache e cola), enquanto outros enfiavam a mistura de guache e colá já mencionada no meu ouvido e atrás da orelha (”amanhã vamos ver se o bixo lava atrás da orelha”) e daí fomos todos postos pra fora da classe, como escravos recém capturados após um ataque à vila. No corredor da faculdade um cara passou com um rolo de papel higiênico e com ele nos amarrou uns aos outros pelo pescoço, em uma longa fila.
Ficamos ali parados, pintados, com pedaços de cabelo, presos uns aos outros pelo pescoço com papel higiênico. Então veio o diretor da FAAP nos dar as boas-vindas. E nos assegurar:
- Não há trote aqui na FAAP. Se alguém for vítima de trote venha imediatamente falar comigo que cuidarei do assunto pessoalmente! Certo?
Concordamos mudamente, balançando a cabeça.
- Ok, podem ir se divertir rapazes.
E fomos. No pátio da frente havia dezenas de bixos de todas as turmas igualmente amarrados pelo pescoço. Nos ordenaram a sentar. Sentamos e então um veterano foi ao começo da fila e pintou o número um na testa do primeiro bixo, e continuou numerando a gente. Com um terror frio percebi porque o bando de veteranos que acompanhava a numeração dos bixos berrava cada vez mais excitados conforme os números subiam:
- DEZOITO! DEZENOVEEEEE! VIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIINTEEEEEEEEEEEEEE!!
“Por Deus, que eu não seja o bixo 24, ah, não!”, rezava em silêncio.
- VINTE E DOOOOOOOOOOOOOISSSSSSSS!!
Eu estava com a cabeça baixa então não sabia o quão perto estavam de mim. Mas estavam perto. Eu fui o 26. Eu ainda ouço os gritos do 24 nas madrugadas frias, pouco antes de cair no sono.
Quando cansaram de se divertir conosco, nos dando formigas para matar a grito e coisas assim, resolveram faturar. Era a hora do pedágio, quando iríamos arrecadar dinheiro no farol.
Nos ordenaram a tirar um pé de sapato. Só um pé.
- Não quero saber de bixo fugindo com a grana do pedágio. DE PÉ TODO MUNDO!
Ficamos em pé e começamos a subir a rua Alagoas até a Avenida Angélica. Um veterano berrava que se alguém arrebentasse a corrente de papel higiênico iríamos todos nos arrepender. E assim subimos, pintados, com cortes novos de cabelo, semi-descalços, em fila indiana, ouvindo as músicas dos veteranos sobre nossa intrínseca burrice, homosexualidade e inferioridade como forma de vida enquanto bixos, desfilando diante dos aplausos da galera que lotava os inúmeros barzinhos da região.
Nos foi designada uma quota a atingir, e só teríamos liberdade após entregar a quantia fixada ao veterano encarregado. E assim retiraram a corrente e disseram que devíamos ir para os faróis implorar trocados aos motoristas. E fomos. E, cara, eu implorei.
De alguma forma eu devo ter sido convincente, ou os motoristas devem ter tido comiseração de minha dor, ou me achado ridículo demais, ou a tem muita gente com grana sobrando naquele farol, ou eu dei sorte. Não sei o motivo exato, mas consegui rapidamente a quantia da quota. Relutantemente o veterano me liberou para ir entregar o dinheiro em troca do tênis, e desci de volta para a FAAP.
Chegando lá, havia um veterano guardando a pilha de tênis. Ele me olhou, desconfiado, mas eu tinha a grana. Ele pegou meu tênis. Comecei a me encher de esperança.
- Não tão rápido, bixo.
- Glup.
- Antes, eu quero que você amarre os cadarços de todos os tênis. Eu quero uma grande pilha de tênis amarrados! Vai bixo, esperando o que?!
Eu peguei dois pés aleatórios e comecei a amarrar.
- Não, bixo, mais forte! Eu quero nó cego! Puxa os cadarços com força, tem que ser foda desamarrar! Rápido! Um no outro, uma bela pilha, TODOS OS TÊNIS, trabalha, bixo burro da porra!
Me apliquei na tarefa e em breve eu tinha todos os calçados juntos em um grande embolamento. O veterano devolveu meu tênis. Quando havia apenas terminado, os meus colegas bixos começavam a voltar. Entregaram a grana pro veterano e pediram os sapatos de volta. O veterano apontou pra pilha única de calçados amarrados com nós cegos.
Um dos bixos choramingou, e o veterano respondeu:
- Ei, quem amarrou foi ele, e apontou pra mim. Surpresa e ódio no olhar dos colegas, que notaram que estava com os dois pés calçados.
- Porra, cara, sacanagem. Caralho, que filho da puta, tá mó forte os nós! Vai demorar horas pra soltar tudo!
- Cacete o meu tá bem no meio, que mancada.
O veterano ria, e resolvi ir embora. Tava sem ânimo e sem grana pra pegar um ônibus. Andei um par de quadras e fiz uma coisa que poucas vezes fiz na minha vida, de verdade. Liguei pro meu pai e pedi pra ele me pegar.
- Ué, pega um ônibus, guri!
Expliquei pra ele mais ou menos que tava sem grana e se ele podia, por favor… ele podia, e logo depois eu voltava pra casa no carro do papai, achando uma bela merda ser um universitário.
Eu tive outros trotes depois, mas como diz o chavão, a primeira vez a gente nunca esquece.
juju:
q horror
July 24, 2007, 10:36 amcarla:
bixo sofre…
July 24, 2007, 8:53 pmjuju:
um anh..achei meio…violento para um trote
July 25, 2007, 9:59 pmtipo…boys extravasando
juju:
curti o texto tenso
July 25, 2007, 9:59 pmLuciano:
trote é uma merda. eu nunca fui vítima de trote, apesar de ter começado 6 faculdades. provavelmente ajudou o fato de que a partir da terceira eu já era bem mais velho que os veteranos. como disse a juju, curti o texto tenso também. mas me fez lembrar textos sobre campos de concentração. ainda bem que esse tipo de trote saiu de moda, mas ainda existe nas escolas mais tradicionais. coisas da nossa nave b.
July 26, 2007, 7:41 amjuju:
luciano, concordo:essa eh a palavra: “vitima”
July 26, 2007, 8:32 pmNei Duclós:
Terrível esse trote. O meu, na Engenharia, foi bem mais light. Me obrigaram a usar babador e chupar chupeta e desfilar durante um mês com um chapéu de Robin Hood que tinha uma enorme pena amarela voando sobre ele. Me ajudou a abandonar a faculdade. Quando entrei no jornalismo, achei o máximo ser pintado. Mas aí já era outra história. Tinha me livrado do cálculo infinitesimal em aulas ministradas pelo professor Oscarito.
July 26, 2007, 9:58 pmAline:
Todo mundo botou o terror neste post, mas preciso dizer que eu ri do começo ao fim. Bixo sofre! Acho que foi o trote mais bem elaborado que eu já ouvi. Claro, pimenta nos olhos dos outros é refresco.
Fora isso, o post está ótimo. Tenso sim, concorco com a Ju e com o Luciano, mas isso só traz mais realidade para a história (não é de mentira?) e deixa mais engraçado. Cola na orelha foi sacanagem!
O primeiro trote a gente nunca esquece, é verdade. O que recebi na Unicamp foi infinitamente melhor do que o da USP (para alguma definição de melhor). Cheguei bem cedo (para não perder a vaga) e fui recebida com um pouco de tinta. Enquanto me pintavam, eu virava de um lado e do outro para ficar tudo igual. Os vets curtiram isso. Mas quando me limpei em um deles, fui agredida com um “BIXETE FOLGADA, VC VAI VER”. Daí comecei a entender o lance.
Eu já sabia que trotes aconteciam, por isso, vesti roupa de guerra e minha bota de trekking, afinal, estava chegando na Geo e queria ser poser.
Fiz minha matrícula e quando saí da sala encontrei uma galera do lado de fora esperando sorridente pela nossa chegada. “Uau, como somos queridos por aqui”. Mas rapidamente ordenaram:
- bixete, tira o sapato.
- A meia também?
- Vc é quem sabe.
Eu não estava entendo nada. O rbp e minha irmã, que me acompanharam em tudo tirando fotos e rindo, gritaram para tirar as meias e levantar as calças. Que merda é essa? Mas confiei. Depois vi um enorme balde, daqueles de lixo, cheio de lama. Eca!
- Entra aí, bixete.
Nessa hora eu já senti que estava mesmo f*.
- E agor..?
Senti uma coisa gelada escorrendo sobre a minha cabeça. Eu não quis acreditar, até que vi a lama fedida e cheia de sujeira. Eu tinha me preparado, mas não ao ponto de levar outra roupa. Corri atrás de um chuveiro, mas não tinha nada disso. Peguei uma torneira na rua e tentei me lavar, mas só piorou a situação. Eu precisava voltar para casa… de carro(!!). Forramos o banco com os tapetes e lá fui eu, sem me mexer, até chegar na casa da minha irmã. Escorreu Um pouco de lama e manchou o estofado e o cinto do carro para sempre. O banho depois foi indescritível. Precisei de ajuda para escovar minhas costas e lavar o cabelo duro.
Eu fiquei assim:http://www.orkut.com/AlbumZoom.aspx?uid=8693273181622095218&pid=8 (album do orkut do Erre)
Depois teve aula trote e eu, caxias que sou, fiz o fichamento de um texto absurdamente técnico e difícil de geomorfologia para uma disciplina das humanas. Como bixo é burro!
Na USP eu fui preparada também, mas os veteranos pediam permissão para pintar meu rosto. Que espécie de trote é esse? FFLCH!
July 27, 2007, 12:58 pmdaniduc:
Putz, Aline, infelizmente não é de mentira não.
E é pimenta “no olho” (hã, hã, pescou, pescou?) dos outros…, hehehehehehehe.
July 27, 2007, 3:57 pmjuju:
nossa, trash o da lama, umm se bem q mas na foto ainda achei um pouco ‘lama poser’veja, os olhos a boca estão limpinhos..seinão..o do dude me pareceu mais cruel
July 27, 2007, 7:23 pmbrincadeira bjs p vc
Aline:
Dani, não pesquei não. Me explica?
(…)
Bem, deixe para lá, o Érre me explicou. Eca!
Juju, sem dúvida a do Dani foi mais pesada. Mas leve em consideração o fato da foto ter sido tirada depois de algumas tentativas de se lavar na tal torneira, rsrs
Beijos
July 28, 2007, 4:22 pmdaniduc:
eu tinha certeza de que o érre iria te explicar!
July 28, 2007, 4:33 pm