Fim da Infância

Cara, eu adorava assistir a Feiticeira e Jeanie é um Gênio. Por algum motivo, outro dia eu tropecei na Nick@Nite, sessão noturna de seriados velhos na Nickelodeon. Entre as tosqueiras, lá estavam meus antigos favoritos, Jeanie e Feiticeira. Fui assistindo e lentamente me dei conta de coisas que minha mente infantil deixava escapar e os dois seriados nunca mais foram os mesmos pra mim.

Por exemplo! Por exemplo, o Major Nelson. Vocês sabem, o mestre da Jeanie. Eu não sei você, mas eu acho a Barbara Eden um pitéu… bem, pelo menos na época de Jeanie, hoje ela é uma respeitável senhora. De qualquer modo, digamos que você seja um major heterosexual da Força Aérea Americana (cof, cof, assumindo que haja tal coisa), e você se vê, não mais que de repente, ilhado com um pitéu loiro em roupas insinuantes. O dito pitéu se declara sua escrava e diz, piscando os olhinhos e suspirando, que ela realizará qualquer desejo seu. Ela olha e reforça, qualquer! Bem, é a premissa de Jeanie, claro, todo mundo está familiar com ela, e durante o seriado todo a Jeanie se joga, literalmente, a maioria das vezes, no colo do Major.

Mas em vez de aceitar a oferecida gênia (o Houaiss me diz que não existe essa palavra, mas com todo o respeito ao falecido velhinho, ignorá-lo-ei), dizia eu, em vez de aceitar a oferecida gênia, o Major rejeita todos os seus avanços e sempre prefere se trancar em alguma cápsula minúscula, ou então se perder no deserto, com o Major Riley, em infindáveis e exclusivamente masculinos treinamentos. Oras, a preferência do major fica óbvia pra qualquer um com mais de 10 anos de idade, vamos e venhamos. Mais viadagem impossível! Não tem cabimento nenhum aquele casamento fake que o Major acaba arrumando lá pelas tantas do seriado só pra salvar as aparências. E não bastasse a Jeanie se jogando, em determinada altura há a irmã gêmea também se jogando, mas o irredutível major se recusa a ser infiel ao Riley, hã, Força Aérea.

O Major Nelson não está sozinho, entretanto, no quesito represão. Lhe acompanha outro protagonista de seriado de sucesso da época, Stephens. O sonsíssimo marido da Feiticeira faz ponto de honra e questão absoluta de que ela não use os seus poderes mágicos. Essa é a premissa central do seriado, a pobre Samantha se esforçando para viver uma vida normal de dona-de-casa mesmo sendo quem é.

Mas ora vejam, o seriado todo o Stephens reprime Sam exigindo que ela faça as tarefas do lar manualmente, do jeito difícil, engolindo seus poderes especiais e labutando na medicridade do dia a dia. Não faço idéia de porque as feministas não queimaram rolos de filmes da Feiticeira em vez de sutiãs nos anos 60!

A besta machista sufoca o que torna especial em sua esposa, seus talentos únicos (ou, bem, raros) desperdiçados enquanto ela se mata para fazer jantar para o marido e o seu chefe que aparece toda hora sem avisar, quando um simples sacudir de narizinho resolveria em segundos a questão doméstica. Não seja uma feiticeira, seja uma dona de casa reprimida, diz, em edificantes discursos moralistas, Stephens. E Sam, em subserviência, pede desculpas por ter poderes e promete se esforçar para ser a empregada do marido, como manda a moral e os bons costumes, em vez de dar o pira, depois de devidamente batraquizar o orelhudo.

Os tempos eram outros, dirão, mas é esse justamente o ponto direi. É sempre divertido fazer uma releitura de velhos favoritos e mal posso esperar pra ver o que nos reservará as reprises dos seriados de hoje em 2050.

3 Comments

  1. Nei Duclós:

    Os criadores de Jeannie deixavam o pitéu para você, telespectador. Se o major se atirasse nela, perderia todo o encanto. A glória é ela ficar disponível o tempo todo, seriado após seriado, sem jamais cair nas garras do fardado. No fundo, é você que carrega a gênia pela vida afora, intocada pelo abombado. E A Feiticeira deveria ter motivos ocultos para se fingir de dona de casa. Motivos talvez bem mais interessantes do que ficar torcendo o narizinho.

  2. juju:

    uma hora do seriado eles se casam…acho q foi a pressão heuehueheu

  3. Miguel:

    Com a U.S Army não se brinca