Meus quadrinistas favoritos: Bill Watterson
Após quatro meses e muito com o incômodo de Patrícia e Nitsan (you’ll probably never read this, but in any case I publicly thank you, guys) chegou como resultado de um erro do qual não me arrependo (embora me envergonhe um tanto): The Complete Calvin and Hobbes. Sim, Todo o Calvin e Haroldo. Tudo! Dez quilos de tirinhas e ilustrações com a trajetória completa da dupla contada em três livros de capa dura, quase 1500 páginas, em encadernação de luxo e papel especial protegidos por uma bela caixa.
Na Livraria Cultura está por R$415,00, mas o espertão aqui foi ver quanto que custava na Amazon. Na época estava até uns dolares mais barato do que os atuais USD$94,50, mas restava o problema do frete. Resolvido a calcular, usei os meios normais que eu conheço, ou seja, fui clicar no “Order” (comprar) para jogar a localização (Good Ol’ Brazil) e ver o quanto a Amazona me cobraria pra mandar. Dai era só cancelar o pedido, e ver o quanto mais barato sai do que na Cultura, para algum dia, quem sabe, eu economizar e ter essa preciosidade.
Mas acontece que a Amazon tem uma coisa que chama 1-Click Ordering, que é um botão que faz exatamente o que ele diz: compra com um clique. Só que eu, otariamente, li rápido e só vi o “Ordering”, e achei que era lá que adicionava para o carrinho. O Nitsan acha que alguém devia me ensinar a ler em inglês, mas acho que alguém devia era me ensinar a ler :0)
A coisa toda não teria maiores conseqüências se nós, eu e Carla, não tivéssemos um dia no passado comprado uma webcam na Amazon e pedido pra entregar na residência da Patrícia e Nitsan em Nova York. Na época eles concordaram em trazer o minúsculo objeto na mala, já que estavam vindo logo de visita para o Brasil. Bem, o endereço ficou cadastrado, assim como os dados do meu cartão de crédito. E o botão do 1-Click Ordering fez a compra baseado nesses dados e mandou entregar.
Sim, eu bem que estranhei a página dizendo Thank You, mas veja, jamais havia me ocorrido que semelhante coisa era possível e nem dei tento, deve ter sido algum erro (nesse momento eu tenho grandes dificuldades em convencer as pessoas de que eu simplesmente não comprei o treco e inventei essa elaborada desculpa pra sobreviver a gastar 100 dólares em quadrinhos sem consultar a Carla).
Alguns dias depois a Carla foi olhar a pasta de Spam dela e lá estava o email da Amazon confirmando a compra, momento o qual ela me questionou. Eu jurei ignorância sobre o assunto, enquanto entrava em pânico. Após algum tempo inventei essa descul… hã… eu… huh… descobri o que havia acontecido. E o pior, a encomenda já constava como entregue (cara, eles são rápidos por lá). Enfim, a Patrícia não entendeu picirica nenhuma quando recebeu uma pacoteira de 10 Kg dizendo que era livro, quadrinhos, ainda por cima.
Foi um trampo arrumar um jeito de trazer a coisa pro Brasil. Pedimos para ela colocar no Correio (e nos passar a conta dela), mas acho que ela não se animou. Eventualmente eles vieram pro Brasil e ela escalou o pobre Nitsan para carregar o treco (hey, man, we are in-laws now, so cope with it!
Enfim, chegou! Claro que ler as tirinhas é o cerne, mas a introdução escrita pelo Bill Watterson é muito boa também. Há toda a história do começo e a vida após escrever o Calvin, que junto com o prefácio do Calvin and Hobbes Tenth Anniversary book, dão uma boa visão de bastidores, o que é raro. Você vê, Bill Watterson é um cara recluso, e nunca viveu muito a fama, se mantendo afastado da imprensa, se recusando a assinar livros, tirar fotos e dar entrevistas (com raras exceções).
Com o sucesso monstruoso da tira esse retiro ficou cada vez mais difícil, ainda mais que o homem se meteu em algumas polêmicas. A primeira delas foi a sua resolução de não licenciar o Calvin e Haroldo! Eu não conheço nenhum outro caso de um cartunista tão famoso que tenha barrado o licenciamento para uma infinidade de produtos e desenhos animados. Você sabe, Snoopy, Garfield, Dilbert, quando um cartoon faz sucesso no mercado americano o caminho natural é o cara colocar os personagens em tudo e faturar o máximo possível.
Bill Watterson não estava interessado nisso. Ele acredita que se você estampar a cara da dupla infinitamente em incontáveis produtos, ela acaba se tornando irritante, o que “diminui o apelo do trabalho original”. Além disso, segundo ele, os produtos derivados não respeitam a criação original. Cito: “Uma tira prolixa, de múltiplos painéis, extensos diálogos e personalidades desenvolvidas não se condensa em uma ilustração em uma caneca para café sem com isso violentar grandemente o espírito da tira. As sutilezas de uma tira multi-dimensional são sacrificadas em nome das necessidades unidimensionais do produto.” E por último ele não queria se tornar um gerente dos produtos, uma vez que seria preciso uma equipe para criá-los na escala necessária. Ele queria desenhar Calvin e Haroldo.
Agora, tente dizer você pro Sindicato que distribuiu a tira mais bem sucedida e popular do mundo que eles não podem faturar o máximo possível, empilhando milhões e milhões a mais. Não foi fácil. Especialmente porque, tendo já duas tiras rejeitadas, Watterson assinou o contrato padrão pra cartunistas iniciantes e não tinha nenhum direito sobre Calvin e Haroldo! O sindicato não precisava da aprovação dele e, caso Watterson se demitisse, poderiam inclusive contratar quem quisessem para produzir a tira no lugar.
Agora, esse é um caso raro de uma corporação não matando a galinha dos ovos de ouro. Preferiram manter o autor e faturar só com a tira (o que não é pouco), e acabou renegociando o contrato, devolvendo os direitos para ele. Mas isso não veio fácil e foi resultado de anos de brigas internas entre Watterson e o sindicato.
(Infelizmente tal respeito não teve paralelo nos livros publicados aqui no Brasil pela Best News, que cortou páginas e páginas de tiras de cada um deles).
Outra briga em que se meteu foi com os formatos das tiras de domingo, que são maiores e coloridas. Nos Estados Unidos, as tiras de domingo sindicalizadas tem um formato rígido de quadrinhos, que permite que sejam rearranjados em meia página, 1/3 ou 1/4 de página, conforme o gosto do editor do jornal que está publicando. Eles podem inclusive cortar os dois primeiros painéis, se qusierem. Watterson fez Calvin e Haroldo nesse formado por anos, até que se viu na posição de renegociar isso. Ficava indignado com a limitação imposta pelos painéis e queria ter mais liberdade criativa (além de não ter pedaços arbitrários da sua criação tesourados). Então disse que ele faria as tiras de domingo em um formato de painéis que bem entendesse e ela não poderia ser reduzida ou cortada, deveria ser impressa como entregue. Com isso, esperava entregar um produto de melhor qualidade e ousar mais artisticamente.
Oh, mas os editores não levaram isso na boa. Na verdade, eles ficaram emputecidos. Como ousava Watterson ditar como eles deveria publicar em seu jornal?! Diziam que ele era um egomaníaco caprichoso, que publicar Calvin e Haroldo em tamanho grande tiraria espaço dos outros cartunistas. Tudo bem, disse Watterson, então não comprem a tira de domingo. Poucos cancelaram, a maioria engoliu o sapo, e hoje temos belíssimas e criativas tiras coloridas que mostram a ação da perspectiva do tigre, do menino, histórias complexas sem o uso de diálogos e no fim o mundo ganhou com a teimosia do cara.
Com essas duas brigas, Watterson conseguiu provar que Calvin & Haroldo, em particular, e tiras em quadrinhos, em geral, eram formas de arte, se feitas com honestidade e talento.
Uma coisa interessante que descobri foi que as primeiras tentativas de Watterson ganhar a vida com ilustração foi fazer cartuns políticos, daqueles da página 2 do jornal. Ele conseguiu um emprego, mas foi um tremendo fracasso. Foi demitido em poucos meses, falhando miseravelmente. Segundo ele, não prestava muita atenção “no governo, política, história e, na verdade, nem no noticiário.” Claro que não deu certo, mas acho irônico notar o quão profundamente político é Calvin e Haroldo. No fim, esse talento ele tinha, só demorou mais para achar a mídia certa para expressá-lo, e com ele nos mostrou que não é preciso falar sobre o escândalo da semana para falar de política.
Enfim, essas são algumas das razões de porque Bill Watterson é um dos meus quadrinistas favoritos
juju:
hehe
July 13, 2007, 6:44 pmIda:
Bem se a Carla acreditou na desculpa, eu também acredit… Valeu a pena, parabéns!
July 13, 2007, 9:04 pmJonny:
Mestre Dani…
Não foi vc que um dia achou todas as tiras do Calvin na Internet? rs rs rs
July 16, 2007, 1:06 pm(caramba!!! isso faz muito tempo)