O Bom Pastor

Meu pai assistiu ao Bom Pastor e interpretou o filme como uma crítica à CIA. Respeito, mas discordo. Sem dúvida que o filme mostra a CIA como sendo “fruto da paranóia, do elitismo, do racismo, da escalada da guerra, do imperialismo”, como ele aponta certeiramente, mas não acho que a intenção do filme fosse denunciar isso, mas justificar. Para ilustrar meu ponto de vista, vou interpretar uma cena chave do filme.

ATENÇÃO: se você não viu e não quer saber de pontos do enredo antes de ver, aconselho a não ler o resto deste post. Se ficar sem ter o que ler e estiver entediado, pode caçar algo interessante na lista de blogs que eu assino.

Bem, falávamos? Sim, sobre o Bom pastor. A cena é a do quase casamento do filho do Edward Wilson (Matt Damon). A história é a seguinte: Edward Wilson é um pai ausente, consumido pelo trabalho na CIA, mas que ama o filho, Thomas Wilson. Uma noite o moleque já adulto ouve, sem querer, um segredo de estado que o pai conta. O segredo cai nas mãos dos russos e só por isso a invasão da Baía dos Porcos falha miseravelmente. Na caça aos culpados, Edward eventualmente descobre que quem deu com a língua nos dentes foi seu próprio filho. Mas ele não fez por mal, está apaixonado por uma bela mulher que é, na verdade, uma espiã russa e ele não sabia. No meio dos lençóis o guri acaba falando. O mega espião russo chefe entra em contato com Edward na hora que ele descobre e conta que o filho está apaixonado por uma espiã sem saber, e pede colaboração em troca de manter o segredo e filho a salvo. Edward se recusa, mas entra num outro acordo com o russo. Os russos não confiam mais na espiã, que efetivamente se apaixonou pelo Thomas. Edward se propõe a eliminar a mulher pros russos, em troca deles deixam o guri em paz.

A cena (pensou que eu nunca ia chegar nela, hein?) se dá na frente da Igreja onde a família Wilson aguarda a noiva que nunca chegará. Quando Thomas percebe que ela morreu, fica inconsolável. Lentamente a idéia de que talvez o pai tenha algo a ver com o sumiço da moça lhe ocorre. Thomas confronta Edward, que vacila uns instantes, olha nos olhos do filho e diz que nunca, jamais faria algo horrível assim, que só quer que ele seja feliz. Os dois se abraçam, chorando.

Ok, a minha interpretação. Edward, o pai, é, obviamente, a CIA. A espiã representa o inimigo externo, o mal que se apresenta sedutor e belo e inocente, mas que na verdade é representante das potências exteriores e é uma ameaça ao filho. Lembre-se que é através dela que os russos estão ameaçando Thomas e arrancando os segredos. Thomas, o filho, representa o país, orgulhoso, pensa que está por dentro que está acontecendo, mas na verdade não tem idéia de onde mora o perigo e está presetes a se casar com ele. A ameaça externa seduz o país e o manipula, fazendo parece algo que não é, para lhe causar a destruição. Quem irá proteger o país da ameaça externa? A CIA, que realmente sabe o que está por trás. A CIA ama seu país, e só quer que ele seja feliz. Está disposta a fazer enormes sacrifícios, assumindo sozinha o fardo de cometer atos inomináveis para manter a segurança do país incauto o qual ama profundamente. Mas o país não pode saber destas barbaridades, ele não quer que a CIA diga a verdade, pois a verdade destruiria qualquer possibilidade do país ser feliz. Então a CIA olha nos olhos do país e mente, se isolando, sofrendo no silêncio de ser uma barreira invisível entre a ameaça externa e os EUA. É um fardo pesado esse, mas o mundo é um lugar cruel e as potências estrangeiras jogam sujo e agenm na surdina. A CIA estará lá sempre vigilante, disposta a sujar as mãos pelo país que ama, mesmo que isso signifique mentir para manter a felicidade dos cidadãos que protegem. Esse cidadão, o país incauto, pode até desconfiar de alguma coisa, e até confronta a CIA, sem compreender o mundo de horror em que ela vive nem os sacrifícios que faz.

Essa é, resumidamente, a mensagem do filme ao meu ver, e a analogia funciona se você analisar a relação Edward/Thomas como sendo CIA /EUA (opinião pública, cidadãos incautos, mídia metida a esquerdinha que acha que tortura é errado. Eles não fazem idéia!). O filme todo me parece uma analogia para mostrar como a CIA sofre, como é pesado o fardo de manter o país a salvo, um sacrifício feito mesmo que esse trabalho lhe custe o amor do próprio país que protege. Se eles apenas soubessem! Bem, agora com o filme do De Niro, eles podem saber. O lado humano dos pobres spooks que se sacrificam em silêncio aparece.

O racismo, paranóia, elitismo estão lá no filme todo, mas não me soa como crítica, mas como justificados diante da monumental tarefa de manter a homeland um lugar a salvo dos traiçoeiros inimigos da nação, uma tarefa levada a cabo com dedicação em nome do amor pelo país mesmo que isole e destrua os seus executores. Ou pelo menos foi assim que eu vi o filme. O fato do Coppola ter produzido pode indicar que eu esteja errado, pois quem viu Apocalypse Now sabe que o cara não pega leve com a América WASP e não me parece o tipo de cara que justificaria a CIA matar e torturar em nome do status quo. Mas se a intenção era criticar, realmente me passou a imagem inversa. Talvez eu esteja errado nesta interpretação, mas certamente não é um filme que você vê pela historinha em si e é, como disse meu pai, poderoso. E ei, quem diria, até que a Angelina Jolie sabe atuar! :)

3 Comments

  1. Miguel:

    Boa análise. Eu achei o filme interessante para entender um pouco as estruturas de poder dos EUA e por quê eles são assim, afinal de contas. Para mim uma cena chave é quando aquele imigrante italiano fala para ele “Nós italianos temos a nossa igreja, os negros tem sua música e vocês, o que tem? E ele responde “Nós temos os estados unidos da américa e o resto de vocês está apenas a passeio”.

    Filme lento, pausado, pensado, denso. Uma produção bem melhor que os ridículos blockbusters recententes, como “Piratas do Caribe 3″ e “Homem Aranha 3″. Outra boa pedida é o filme sobre o Zodiac.

  2. Miguel:

    Naquela cena do casamento do filho o cara abre mão de sua vida pessoal em nome da instituição, e admite sua canalhice extrema em nome dos interesses de estado. Por isso o Estado o acolhe e ele passa a trabalhar naquela salinha fechada dentro da sede da cia para todo o sempre. Triste…

  3. nei:

    Veja como você captou a canalhice da CIA vendo o filme e destacando a cena diante da igreja. Se o filme fosse propaganda, seria exatamente o inverso. Compare com qualquer Independence Day (ou algo parecido), com qualquer Rambo, com toda essa tralha que justifica a CIA. O épico de Coppola/De Niro é sobre as raízes da CIA - o elitismo Wasp, a segunda guerra, a guerra fria; e seus métodos, como esmaga cidadãos dentro e fora dos EUA. A cena citada, de pai e filho abraçados em frente à Igreja, é muito parecida com a do Godfather III, em que o pai Pacino berra diante da morte da filha, que ele provocou. São cenas de desespero, em que o cinema denuncia os sistemas criminosos que atingem a essência da cidadania, a relação pai-filho. Dizer que O Bom Pastor faz propaganda ou justifica a CIA seria o mesmo que dizer que o Godfather faz propaganda, ou justifica a Mafia. O cinema se impregna do assunto que escolhe e tece o drama expondo as vísceras dos personagens envolvidos. Toma partido no momento em que denuncia, deixa claro, transparente, o tema que trata. Veja o general interpretado por De Niro, que é contra judeus, negros e católicos na CIA, “ele mesmo sendo católico”. São as fontes da exclusão de uma organização que é um dos braços da exclusão global promovida pelo Império. A metáfora pai-que-esconde-a-verdade-do-filho- inocente é muito boa e só reforça a idéia que O Bom Pastor faz por merecer o nome de Coppola nos créditos. E, para mim, resgata De Niro, que eu sempre antipatizei, mas que agora estou revaliando. Em todo caso, gostei do debate. Me ajuda a entender melhor minha posição. E a tua argumentação é tão boa que a gente quase capitula.