Caronas
Por falar em histórias exteriores, Clovis Heberle, meu tio, está contando de uma viagem de meses que vez pela América do Sul no começo dos anos 70, sem grana, sem destino pré-definido e sem data certa pra volta. Diários do violão puro, recomendo a leitura (de baixo pra cima, no esquema invertido dos blogues) a partir daqui.
Eu peguei algumas caronas memoráveis durante caminhadas que fazia com a casa nas costas, tudo o que eu precisava empacotado em uma mochila. Uma delas, num caminhão de leite, eu já contei em um post separado. Mas teve várias outras. Tenho especial orgulho de uma num caminhão de galinhas, que parou pro grupo de moleques enmochilados que estendiam o dedão pra todo mundo que passava naquela estradinha de terra, ou seja, todos os dois veículos por hora. O caminhão era daqueles de caçamba fechada, e o cara encostou e disse que a gente poderia ir lá atrás. Topamos na hora, sem saber a carga, que consistia em algumas dezenas de penosas amontoadas. O cheiro de titica era razoável, mas uma carona é uma carona e quem sai pra mochilar e é fresco tem a vida curta na estrada. Subimos, e o motorista, num rasgo ainda maior de generosidade, deixou a gente deixar a porta de trás aberta, para não sufocarmos.
- E as galinhas, não vão fugir?
- Foge não.
E de fato, não fugiram, ficaram empilhadas no fundo da caçamba, temendo aqueles caras estranhos de pé, se segurando como podiam, surfando na estrada de terra (anos depois eu arrancaria exclamações de admiração de amigos porque conseguia, e consigo até hoje, ficar de pé no metrô sem me segurar em nada. Hah!). Chegamos, nós, motorista e galinhas, são e salvos, embora uns mais cheirosos do que outros, possivelmente.
Outra série de caronas divertidas foi em Ilhabela. Eu, Fritz e Frazão estávamos resolvidos a passar cinco dias na praia de Castelhanos, do outro lado da Ilha, acessível por uma estrada (praticamente trilha) de terra em péssimas condições e intransitável em caso de chuva. Como não tínhamos carro, o estado da trilha não nos interessava, subestimando os 32 quilômetros, quinze subindo e quinze descendo, que nos separavam do nosso objetivo. Ida e volta.
Quando paramos no posto policial pra pedir informções de como chegar na estrada pra Castelhanos, o guarda nos olhou, mediu as mochilas e, sem responder, perguntou:
- Cadê a picape de vocês?
- Tem picape não, moço, a gente vai a pé.
O cara quase engasgou de tanto rir, e começou a berrar pra dentro:
- Valdemir, vem cá, tem uns moleques que querem ir pra Castelhano a pé, corre aqui ver!
Seria um mau sinal? Oito horas depois a gente ainda andava, e a subida era de fato matadora. A cada curva, eu que ia na frente ouvia um deles perguntar lá de trás:
- Mais subida?
- Mais.
E subíamos. Cada picape de surfistas que passava por nós ignorava sem qualquer culpa os dedões, e eram saudadas por uma das mais engraçadas séries de pragas e palavrões elaborada pelo Frazão, que incluía câncer em lugares inusitados e fantasias homicidas com lugares trocados de quem estaria dirigindo o que. Os surfistas iam ansiosos e voltavam, duas horas depois molhados e rindo, e a gente camelando.
Quando quase anoitecia, faltando poucos quilômetros pra chegarmos, surge do nada uma Toyota com uma caçamba aberta. Encosta e um tiozinho com imensos óculos, engenheiro pelo que descobrimos, que estava construindo uma casa pra ele mesmo morar na isolada praia, e oferece um espaço na caçamba.
Imensamente felizes jogamos as mochilas e subimos para descobrir a caçamba repleta de instrumentos cortantes afiados e serrilhados espalhados e soltos na mais imensa desordem. Mal dando tempo pra se preparar o tio arranca a toda pela estrada esburacada. Nos agarramos em uns suportes e jogamos metade do corpo pra fora da caçamba, visando expor a menor quantidade de corpo possível aos facões e serras, pregos e afins. Isso resultou em um exercício interessante pela nossa integridade física, uma vez que a trilha tinha seus próprios obstáculos, como cipós cortantes que passavam rentes e zunindo, entre solavancos. Chegamos inteiros também (começo a desconfiar de um santo protetor dos caronistas), e o melhor de tudo foi que o tio disse que iria fazer uma viagem de volta dentro de exatos cinco dias, e que nos levaria de volta pela estrada. Loucos de faceiros aceitamos, mas na volta a Toyota estava vazia e tudo foi muito mais tranqüilo.
Muitos anos depois eu resolvi voltar pra Castelhanos, agora com a minha namorada na época. Não sei o porquê, mas com ela sempre foi mais fácil arrumar carona do que junto com outros dois ou três marmanjos sujos. Logo que começamos a trilha, parou uma picape cabine dupla cheia de surfistas, que nos ofereceram a caçamba. Joguei a mochila e subi, dando de cara com um imenso e gigantesco Rottweiler babando. Paralisado, ouvi um surfista gritar da cabina:
- É a Matahari, é mansinha, pode subir.
Confiando naquele santo, subi, e de fato a Matahari era um doce. Logo nos agarramos na caçamba e começamos o familiar exercício de desviar dos cipós zunintes, quando senti algo molhado na minha perna. Era a Matahari me lambendo.
- Ohzi, que cã mais boazinha! Hã… isso é xixi?
Sim, era, a pobre Matahari havia se mijado e escorrido pra mochila da minha namorada. Ela ficou infeliz, mas o motorista resolveu nos compensar passando um imenos charro aceso, que o estava ajudando a se concentrar.
- Hã, brigado, mas que tal olhar pra frente, pensei.
No fim os caras eram gente boa e tudo correu bem. O que, você não embrulha todas as suas coisas dentro da sua mochila em sacos plásticos? Bem, nós sempre embrulhávamos, e os danos do xixi foram apenas superficiais, na mochila. Lavou, tá nova, e economizamos 32 quilômetros, trocando por várias horas extras de praia.
Descolamos uma carona pra voltar também, com um pessoal que estava acampado lá. Eles tinham um Fiat uno Mille e um acampamento profissional, daqueles que a barraca parece um flat. Obviamente a tralha toda não cabia no Uno, então eles acoplaram uma carretinha que cheia devia pesar bem uns 500 quilos. Agora, lembram que a situação da estrada era precária? Lembram da subida?
Em vários e vários momentos paguei a carona (que foi em cima da carreta, nada dessa moleza de sentar no carro, que só tinha um lugar vago, cedido pra namorada, olha como eu sou um gentleman) pulando pra fora, empurrando carreta morro acima, e saindo correndo atrás dela quando pegava o embalo e só conseguiria parar no próximo platô. Cheguei coberto da cabeça aos pés de uma espessa camada de bom pó de Ilhabela, que só saiu por completo da minha mochila anos depois.
Ida:
Gostei e muito!
July 8, 2007, 11:31 amclovis:
Meu caro Daniel,
July 8, 2007, 9:18 pmque legal que gostaste das minhas histórias. O blog acabou servindo para várias coisas - fazer contato com velhos amigos espalhados por aí, me aproximar de pessoas queridas (como você) e, de certa forma, fazer terapia, expulsando alguns macaquinhos que teimavam em habitar o meu sótão. Além disso, espero ter divertido e passado informações importantes sobre este nosso continente quase desconhecido.
Abraços