O dia em que telefonei para casa
Gostei da idéia do Nei (sim, meu pai) de colocar avisos em itálico, separado do post principal do dia, na seção que ele chamou de Retorno. Já adotei há alguns posts atrás, como já devem ter notado.
Aproveito pra comentar que o artigo Ilíada que eu desenvolvi foi escolhido como um dos melhores da Wikipédia-pt. Claro que muita gente contribuiu com retoques no artigo, mas o principal fui eu que escrevi, e fiquei muito feliz, mesmo sendo uma alegria mais ou menos anônima. Agora pro post de hoje, mais uma aventura em Minas. Prometo que com o tempo eu conto as histórias de outros acampamentos que fiz.
Houve um momento naquela viagem pelo sul de Minas Gerais quando eu resolvi que não queria voltar para casa ainda; iria aproveitar para estender o trekking e ir para o mítico Vale do Matutu, o que resultaria em mais alguns dias longe de casa. E, principalmente aos dezesseis anos, é preciso avisar a família quando se resolve não voltar do acampamento no dia marcado. Você sabe, para aumentar suas chances de na volta não encontrar o seu quarto ocupado por um inquilino mais educado e menos desnaturado do que você.
O que era razoavelmente um problema naquela época e lugar, esse negócio de avisar a família. Celulares eram apenas tijolos não muito menores do que rádios da Segunda Guerra Mundial e existiam apenas nos mais modernos filmes de Hollywood ambientados em Nova York. Não, senhores, nada de celulares no começo dos anos 90. Aliás, nada de telefones, rurais, fixos ou de qualquer tipo, na vila mais próxima do lugar que estávamos acampando. Nenhum para remédio. Mas ouvimos falar que em outra vila havia um funcionando, mas era longe o suficiente para ser impossível irmos a pé e voltarmos.
Sem alternativas (bem, voltar para casa na data combinada em vez de continuar a nos arrastar pelo sul de Minas não era uma alternativa) futricamos e investigamos até descobrirmos que um caminhão saía da vila onde estávamos de manhã e percorria as estradas de terra, parando nas fazendas para entregar galões de leite vazios e pegar galões de leite cheios para levar até a cooperativa deles. Que ficava justamente na vila onde havia o telefone. E, melhor, voltava a noite, para repetir o processo no próximo dia. Foi então que eu e o Sacha, irmão mais novo do Sammy, resolvemos que iríamos pedir uma carona no dia seguinte de manhã.
Explicando nosso caso para o caminhoneiro, ele prontamente concordou. Pediu em troca que ajudássemos os garotos a deixar o galão de leite vazio e carregar o galão cheio. Que meninos? Bem, não éramos os únicos caronistas. Alguns garotos também iam com o caminhão para a escola rural e pagavam a carona exatamente como nos foi pedido. Concordamos, obviamente e pulamos na caçamba. Era um caminhão com caçamba aberta, com bastante espaço livre e não ocupado nem por galões de leite nem por garotos.
Nos acomodamos no fundo e notamos que os outros garotos estavam todos encostados na frente, bem próximo à cabina do caminhão, todos de pé, nenhum sentado como nós. E riam. Mau sinal.
Mal o caminhão arrancou pela estrada de terra e descobrimos o motivo das risadas, enquanto voávamos, eu e o Sacha, pelos ares, completamente surpresos, caindo de todos os jeitos e rolando vergonhosamente pela caçamba. Ao som das gargalhadas dos outros meninos, claro, que se divertiam imensamente com a nossa cabacisse urbana.
- Não dá pra ficar no fundo, chacoalha demais!
Mas é claro! Quem seria estúpido o suficiente para não saber disso? Rolamos, praguejando, até junto deles e logo aprendemos a imitá-los. E logo fizemos uma amizade rápida, na verdade eles eram bem legais.
Paramos na primeira fazenda, e havia na frente da porteira um galão cheio. Eu e o Sacha pulamos da caçamba para o chão, e pegamos o galão vazio que os meninos estavam nos alcançando de lá da caçamba. Fácil. Agora só resta por o galão cheio no caminhão.
Fácil foi é falar. Grunhíamos e quebrávamos as costas e nada do galão se tocar, e suávamos, e a meninada se divertia até que uma hora o motorista se irritou, desceu e, sozinho, sem qualquer esforço aparente, alçou o galão pra gurizada em cima do caminhão, resmungando, assim a gente se atrasa. Subimos de volta na caçamba, mortificados e exaustos, e o dia nem havia começado direito. A partir da próxima parada os meninos passaram a ajudar os urbanóides a elevar os galões.
Finalmente chegamos na tal vila e fomos ver o telefone. Era um telefone comum, fixo e era o único da região. O que quer dizer que havia uma monstruosa fila de espera para ligar, mesmo com as chamadas cronometradas em dois minutos por pessoa. Conversamos com o pessoal que organizava a fila e combinamos de voltar à tarde para as nossas ligações.
Ora, e o que fazer até lá? Andamos pela vila reparamos que ela tinha uma única rua com um campo de futebol em cada ponta. Eu digo que a vila era tão pequena que tinha mais campo de futebol que rua. Mas tínhamos uma bola e muito tempo livre. Foi mágico, bastou a pelota quicar em dos campinhos e imediatamente duzentos e cinquenta garotos de toas as idades e tamanhos apareceram do inteiro nada. Integração instantânea (e eu evitei alguns conflitos ficando no gol. Ninguém quer ficar no gol). As horas voaram e logo chegou a nossa vez no telefone.
Aguardei mais alguns minutos, fui lembrado do limite de dois minutos para a chamada, disquei nervoso o telefone de casa, por favor, atendam, ah, tomara que não esteja ocupado…
- Oi mãe!
E uma voz lá longe, realmente muito baixa me respondia com surpresa. Eu mal conseguia ouvir e ela dispara a perguntar como eu tava, se estava me agasalhando e comendo bem (é verdade mãe, você perguntou!) e eu nervoso com o tempo, queria interromper e contar que iria estender a viagem, e ela me falava pra não tomar friagem e se eu tinha dinheiro e o pessoal me olhando…
Finalmente consegui dar as notícias e desligar. Mais aliviado, pude ir com o Sacha pro campinho continuar brincando até o caminhão voltar e nos pegar. Chegamos de volta à nossa vila já noite, sujos, exaustos, felizes e o melhor, com perspectiva de mais trekking pela frente. E foi assim, amigos, que fiz o telefonema mais longo da minha vida, e ele só durou dois minutos - e um dia.
Aline:
Primeiro, parabéns pelo Ilíada. Realmente, é um excelente artigo.
Segundo, adorei a história! Me identifiquei com a história do galão de leite e dos meninos rindo de vocês.
April 3, 2007, 10:10 amTenho um casal de primos que nasceram no meio rural, em SC. Nas férias, quando ia visitá-los, sempre passava vergonha: não reconhecia as plantações, morria de medo de chegar perto das vacas, carregar galão de leite?, nem sonhando, tomar banho com uma aranha na parede, era um terror… que vexame! Tinha épocas em que eu não queria nem pisar na lama. Imagine, mocinha da cidade, criada em apartamento, passando as férias no meio do mato? Aff…
Por sorte, hoje estou um pouco mais adaptada a isso. Pelo menos, consigo disfarçar as panguices
Karma:
Suffering life makes us rise!
April 3, 2007, 10:16 amCarla:
Parabéns pelo artigo na wikipedia!
Acho essa história o máximo! Hoje estamos tão acostumados à comunicação fácil, temos celulares, internet, telefone fixo em casa e no trabalho, e é muito simples dar um telefonema.
Algo que fazemos instantaneamente e não precisamos pensar em como fazê-lo.
É muito interessante pensar numa população que vive em um lugar, onde para dar um telefonema de 2 minutos ela tenha que enfrentar uma fila e perder um dia no processo.
Esse contraste de realidades é fantástico!
April 3, 2007, 11:02 amdaniduc:
Leo, mas eu não sofri. Em nenhum momento pensei que não queria estar fazendo aquilo. Foi um processo extremamente divertido e muito instrutivo!
April 3, 2007, 12:17 pmdaniduc:
…pequenas correções no texto da história, érre, não estranhe se aparecer como novo no google reader. Postar com sono dá nisso.
April 3, 2007, 2:11 pmIda:
Sei..sei..a culpa é sempre da mamãe, sei lá, o barbudo velho de Viena é quem inventou essa desculpa..mas se vc. não telefonasse, era o caos…mesmo..
April 3, 2007, 4:48 pmrbp:
Ah, boas memorias do artigo da Iliada… E de quando resolvi parar de colaborar com a Wikipedia
April 3, 2007, 5:01 pmdaniduc:
Eu durei mais um pouco, virei administrador até, mas eventualmente também parei de colaborar.
April 3, 2007, 5:07 pmJonny:
Dani… e pensar que no começo de 90 o máximo de acesso em rede era conectar-se no Mandic!!!
April 3, 2007, 6:53 pmdaniduc:
Nesta época acessar a rede para mim era ir até a varanda e deitar naquele pano preso entre duas paredes.
April 3, 2007, 7:01 pmjuju:
muito bom o texto “curta-metragem”, principalmente a cena da bola quicar no campos e aparecerem os meninos!!!
love this blog!
April 4, 2007, 12:25 amAline:
rbp, não fique assim, a gente sabe que às vezes fazemos coisas de que nos arrependemos. E vandalismos fazem parte da vida. Quem nunca cometeu um?
April 4, 2007, 11:44 amrbp:
Nao sei do que voce estah falando, eu sou um rapaz direito.
April 4, 2007, 1:47 pm[the dude’s talk] › Caronas:
[...] o que eu precisava empacotado em uma mochila. Uma delas, num caminhão de leite, eu já contei em um post separado. Mas teve várias outras. Tenho especial orgulho de uma num caminhão de galinhas, que parou pro [...]
July 3, 2007, 4:08 pm