Lógica corporativa circular.

Eu sei, eu sei, quase uma semana sem posts novos. Não colaboraram os trabalhos de faculdade, o meu monitor ter “partido desta para uma melhor” e o prazo pra entrega do meu novo projeto de Iniciação Científica estar se aproximando em rota de colisão. Aliás, existe ciência em literatura? Bah, o CNPq devia chamar de Bolsa de Iniciação Acadêmica, mas parece que todo mundo quer ser “ciência”, como se só o que é científico é justificável e correto e verdadeiro, coisas do Iluminismo, Positivismo e assunto pra um outro post, quem sabe. Por enquanto ficamos com uma pequena historinha corporativa, reescrita do zero.

Essa aconteceu enquanto eu trabalhava no Datacenter. Lá havia um cliente que hospedava uma máquina grande e crítica, a qual já havia sofrido com a iniciativa do lendário Gordinho, o destemido. A uma determinada altura, este cliente resolveu instalar uma nova placa de fibra óptica em seu bebê. Ele comprou a placa e, estando em outro estado, precisava que alguém efetivamente a espetasse na sua mega-super-máquna-servidora-crítica. Desejoso de simplificar as coisas, resolveu contratar os serviços avulsos de nosso Datacenter. A princípio não era nosso foco realizar esse tipo de consultoria, nem tínhamos ninguém que soubesse HPUX (o sistema operacional da máquina) ou soubesse sequer abrir a máquina direito. E era um serviço potencialmente destrutivo no único servidor do qual dependia o negócio do cliente. Mas desde quando a realidade impediu um gerente comercial de vender algo? Pois então, prometeram a instalação da tal placa como um serviço do Datacenter, cobrado a parte.

Não demorou muito e vieram com aquela voz de chefe que quer algo:

- Daniduc…

- Sou eu.

- Você sabe instalar uma placa de fibra óptica em um servidor HP L1000?

- Não. É pro servidor do cliente que o Gordinho desligou?

- Mas você é o cara que mais manja de UNIX aqui no Datacenter!

- É pro servidor do cliente que o Gordinho desligou?

- Olha, é só instalar a placa….

- O único cliente que a gente tem que usa um L1000 é o que o Gordinho desligou. Eu nunca sequer acessei um HPUX, não sei ele fazer reconhecer uma placa de fibra óptica e certamente não quero aprender a fazer isso no único servidor crítico de produção do cliente em uma janela de tempo limitada.

- É só espetar a placa…

- Não é só espetar a placa! É um procedimento delicado para o qual as pessoas são treinadas! Contate uma consultoria!

- Não é só espetar a placa?

- *suspiro*. Não. Não é. Contate uma consultoria.

- Ah. Pensei que era que nem instalar uma placa de rede num PC.

- *mais um longo suspiro*. Não é. Consultoria. Ligar.

- Tem certeza que…

Eu só olhei.

- Tá, se você diz…

Bem, eles contataram uma consultoria. Que disse, claro, nós fazemos pela módica quantia de xis mil reais. Lá foi o nosso departamento comercial e fechou o preço com o cliente original em xis mil Reais mais por cento, que afinal é um Datacenter com fins lucrativos. Deixamos por conta da consultoria e fomos tocando a vida.

Eis que uma bela tarde (eu não saberia dizer se era bela na verdade - trabalhávamos no primeiro sub-solo, sem janelas) recebo um email de uma amiga. Dizia lá: bla bla, você não quer fazer uma instalação de uma placa de fibra óptica em uma HP L1000 por fora? Seria um frila.

Eu não conseguia acreditar! Pensei, não, deve ser coincidência, não pode ser. Há de ter outra HP L1000 precisando de uma placa…

Ai fui seguindo a cadeia de Re: no histórico do email. Lá embaixo estava o email original da consultoria, dizendo que estava sem pessoal pra atender, sublocando o serviço pra outra consultoria. Que aceitou e passou pra outra.

Que passou pra outra. Que passou pra minha amiga. Que se lembrou de mim, afinal, eu manjava de UNIX.

Obviamente estavam me oferecendo bem menos do que os xis mil reais mais por cento originais. Parei alguns segundos para apreciar a ironia de ser contratado para o mesmo serviço que eu estava contratando… e claro, imediatamente sugeri no Datacenter que fizéssemos com outra consultoria, que pelo menos fingiu melhor que sabia fazer o serviço pelo qual iam receber.

A troca correu bem, a propósito.

7 Comments

  1. carla:

    Eu lembro bem dessa história… :)

  2. Ida:

    Não dá para acreditar!

  3. daniduc:

    Também custei a me conformar. Mas é assim que funciona no mundo das consultorias especializadas.

  4. juju:

    pavor na hora em que li sub-solos em janelas

    muitas risadas na hora em que recebeste o e-mail e parou para admirar a ironia
    parabens muito boa historia e texto! dude is the dude

  5. Karma:

    Tem gente que não sabe ler e-mail. *sigh*

  6. Nei:

    Lembra os momentos fofos em que eu ia ao departamento da Grande Corporação patronal ciscar alguma migalha de informação para um texto institucional (que é o nome pomposo para marketing rápido e rasteiro). O encarregado abria suas gavetas e me dava um bolo de papéis. Eram textos que eu mesmo tinha escrito, anos antes, para a mesma corporação. Era a única informação de que dispunham. Ficava assim à vontade, como dizem no comércio: tinha chances de nutrir meu novo texto com meus velhos textos. E o pior era a cara triunfal de quem me passava a maçaroca de “informações”. Essa da consultoria parece a cobra que morde o próprio rabo. Baita crônica,/conto, como de costume.

  7. juju:

    ‘tinha chances de nutrir meu novo texto com meus velhos textos”
    muito bom o comment tb nei”
    hUIHuiHIU