De Mirantão a Matutu
Post originalmente publicado em 17/jul/2004, no antigo blog.
Certa vez fui fazer trekking por duas semanas no sul de Minas Gerais com mais dois amigos gringos (um inglês e um austríaco). Nos últimos três ou quatro dias, o austríaco foi embora e eu e o inglês resolvemos fazer a travessia de Mirantão até o Vale do Matutu, o que deve dar um pouco menos que 50 Km.
Na noite anterior a gente foi dormir numa cabana que era de um amigo da mãe do inglês, no alto de uma colina. Uma das casas mais lindas que já vi, rústica, mas bem distribuída e com uma vista maravilhosa. Acordamos no dia seguinte umas 5:30 da manhã e saimos logo depois do café. Nesse trekking descobri que o melhor de andar não é na descida, mas no plano. Pena que ele não existe no sul de Minas.
Outra coisa que descobrimos é que os habitantes da região tinham uma medida toda particular de tempo e espaço. O que eu mais ouvia, quando pedíamos informações era “ah, deve da uns dois quilômetros. Eu faço em meia hora, mas ôceis que é da cidade deve de fazer em uma”. Andávamos por 10 km, horas, e nada de chegar ao local… Até encontrarmos outro passante, que dizia “ah… deve dá um quilômetro. Eu faço em quinze minutos, mas ocêis que é da cidade deve fazer em meia hora…”
Bem, fomos nessa toada até chegamos, no final da tarde, num vilarejo. Resolvemos andar mais um pouco e pernoitar em outro vilarejo, mais adiante. Teríamos que seguir pela “estrada” (de terra, claro) e depois pegar uma trilha por cima de uma colina, uma “meia hora” dali… Meia hora é? Obviamente fomos pegos pelo anoitecer no meio da trilha. Nesse minuto o inglês triunfante põe em uso o aparato que ele tinha feito, uma “lanterna” que consistia de uma lata recortada com uma vela dentro. Quem precisa de lanterna elétrica é maricas, devia pensar.
Bem, quando a vela não apagava ela iluminava mal pra cacete, e o maricas aqui ficou feliz de ter uma lanterna ray-o-vac daquelas tosconas. Que, lógico, começou a dar mau contato… Aí tive que, a contra gosto, me fiar na vela na latinha mesmo.
Fomos indo na friaca da noite (era invernão), meio no braile, quando avistamos uma casa no alto da colina. Paramos na frente e começamos a bater palmas, pra pedir informação. Ficamos lá batendo palmas e chamando quando até nos ligarmos, com um calafrio, que a casa estava abandonada, vidros quebrados, teia de aranha e… morcegos! Demos o pira rapidinho!
Continuando pela trilha chegamos ao outro vilarejo uma meia hora depois. Meus pés estavam em petição de miséria porque, como era meio inexperiente naquela época, não protegi adequadamente, não pus duas meias (uma fina e outra grossa), não passei esparadrapo pra proteger e, enfim, estava com bolhas em todos os dedos. Vacilo, eu sei, mas aprendi do jeito difícil.
Felizmente achamos o bar do local, que estava aberto. Foi uma cena bem estranha… Um boteco no meio do nada, a noite, puta friaca, com uns três bêbados no balcão, mal iluminado, jarros de pinga com cascavel dentro (não estou inventando, tinha mesmo!). De repente entram dois caras, um obviamente gringo e outro mancando, com mochilas enormes nas costas. Me senti um ET, de verdade. Os caras não acreditavam no que estavam vendo.
- Boa noite!
- ‘noite
- Tem guaraná?
- Tem.
- Vê dois.
Começamos a conversar com o dono do bar. Contamos que viemos de Mirantão, o que causou admiração, já que ficava bem longe dali. Perguntei se tinha band-aid. Ele tinha, pra uso próprio. Me deu a caixa e eu embrulhei as bolhas. Sim, estávamos sem band-aid. Eu disse que a gente era inexperiente…
Perguntamos aonde poderíamos passar a noite e ele indicou o pátio da escolinha, que estava sem aulas pois era período de férias…
Acabamos a conversa e fomos pra tal escolinha. Estava frio de verdade e o pátio era cimento, não tinha como armar a barraca ali. Estávamos infelizes pensando no que fazer quando veio, no meio da noite, o dono do bar (o qual tinha acabado de fechar).
- Fiquei com pena de vocês dormindo ai no frio, meu cunhado tem uma casa que está trancada porque ele se mudou. Se vocês não se importarem de dormir no chão nem com a poeira…
Lógico que não!! Fomos felizes pra la e entramos na tal casa, toda de madeira, fechada há bastante tempo… Dormimos bem pesado, pois o dia tinha sido puxado.
De manhã bem cedo acordamos e logo depois o dono do bar veio trazendo… café e bolinhos de chuva em uma bandeja!
- Minha mulher que fez, está fresquinho.
Não só fresquinho como uma delícia! E o cara fez de hospitaleiro, não cobrou nada e ainda ficou ofendido quando tocamos no assunto.
Começamos a caminhada de novo. Quando já tínhamos andado uma meia hora o inglês percebeu que havia esquecido o canivete na casa e voltou pra buscar, deixando a mochila comigo.
Passado uns dez minutos veio um cara pela estrada de terra, vestido igual ao chico bento, sério! Cumprimentou, perguntando de onde eu tava vindo, Mirantão? Vige, mas é longe!, e chamou, vem em casa tomar um café da manhã. Ô Mariaaaaaaaaaaaa, tem um convidado pro café (ele aparentemente morava perto dali).
Expliquei que já tinha tomado café, que estava esperando meu amigo a qualquer momento, então ele desejou boa sorte e continuou andando. Fiquei lá, encostado na beira da estrada, admirando a linda paisagem do sul de Minas numa manhã esplendorosa.
E não é que existe solidariedade no mundo, ainda?
Badá:
O Chile que o diga. Aquele povo parece mineiro! Eu e um amigo lançamos a hipótese de que é possível ir pra lá som com roupas, e passar umas férias agradáveis. (Não que eu vá tentar. Até porque aí, mineiro que não é bobo, iam pensar “¡qué brassileño abussado, sô!” e acabou-se la hospitalidad.)
March 22, 2007, 6:43 pmSam Hart:
Boas memórias!
:))
abs!
March 23, 2007, 12:09 amdaniduc:
Sammy! Que honra tê-lo aqui no meu humilde blog. Espero que não tenha ficado chateado por eu não ter colocado seu nome na história - eu sempre fico receoso de citar o nome de outras pessoas sem a autorização delas, por isso apelo pra subterfúgios.
De qualquer maneira… sim, boas memórias :))
March 23, 2007, 1:07 amSam Hart:
haha, sem problema
sempre lembro dessa viagem/caminhada e as enrascadas q rolaram
inclusive a chegada na vila e no bar, q parecia uma coisa de filme, com vagalumes iluminando o caminho - haha, ou será só minha memória enfeitando a cena?
abs!
March 24, 2007, 1:10 amAline:
Ai ai, como é legal fazer trekking. Que vontade! Adorei a história…
March 27, 2007, 4:33 pm[the dude’s talk] › Grito gelado:
[...] continuação do primeiro, De Mirantão à Matutu, uma história exterior que foi originalmente publicada no antigo blog em 19/7/04. Essas duas [...]
September 14, 2007, 5:23 pm