A terça-feira negra - parte II
Continuação de A terça-feira negra.
Quando cheguei na concessionária senti alguma hostilidade. O supervisor do cliente, responsável por me acompanhar pergunta pelo colega, já que nunca me havia visto antes e o projeto era complexo. Informo que por enquanto sou apenas eu. Isso. Bom dia. Onde ficam as máquinas? Hã, e qual era mesmo a senha do administrador? Isso.
Acessei a linha de comando sob a supervisão feroz do supervisor e abri o programa de firewall que o colega estava escrevendo para integrar as 3 redes com dezenas de servidores da concessionária. Quando carrega o programa eu não consigo acreditar: ele possuía milhares de regras de acesso. Milhares! E eu não conhecia o ambiente e teria que entender aquela confusão para descobrir quais regras no meio daquelas milhares que não funcionava, porque e aí arrumar até o final do dia. Ah, e sob a já mencionada supervisão feroz do supervisor, claro. Olhando por cima do meu ombro!
O supervisor tinha a cara fechada e era ríspido o tempo todo. Estava puto porque eu havia atrasado e aparecido sem o meu colega. Estava puto porque o projeto não estava pronto. Estava puto por estar acordado desde cedo e ter vindo à empresa às seis e meia da manhã só para tomar um cano nosso. Acreditem em mim, ele estava puto!
A manhã se arrastava lenta e cruelmente, interrompida de tempos em tempos com notícias de horror rolando na feira da IBM. O meu colega continuava sumido, e estávamos a ponto de pedir para alguém ir na casa dele. O cara havia sumido! E eu lendo e relendo aquelas milhares de linhas, tentando entender o que regulava que acesso pra onde, olhava os mapas da rede, meu Deus, era uma confusão danada. E de tempos em tempos o chefe ou algum executivo graduado do cliente vinha me observar e fazia observações sarcásticas e espertinhas.
- Oho, carne nova! Quem é você? Cadê o outro? Ah, já sei, te pegaram na rua, passando, né? Não, porque do jeito que são picaretas…
- E ai, é hoje que a gente processa até a quinta geração de vocês?
- Ah, se arrependimento matasse…
E por ai afora. Há-há. Em um dado momento estávamos eu e o supervisor na sala quando toca o ramal dele. Ainda me olhando feio, atende. Era a namorada dele. De repente ele se transforma magicamente. Seu rosto se ilumina e ele começa a falar numa voz infantilizada, como a gente usa para falar com um cachorrinho doente e muito fofo.
- Môzimozinhu! Como você tááááá? Ah, moçô agora, foi? É? É? Tava totoso? Tava? Comeu tudinhuuu? Eu vô tidá uma mordidnha na sua buchechinha fofa! É! É! Vai ficá vermelhinha! Vô siiiiimmmmmmm… vô simmmmmm…..
Eu não sabia onde me enfiar. Olhava, incrédulo, o sujeito balbuciar sem parar “ohhh… mumumumumimimimimi…”. Cara, quão mais surreal poderia ficar?
O celular foi rápido em me responder. Era um gerente comercial, em pânico. Lembram a provedora de São Caetano, na qual eu estava fazendo um projeto? Alguém lá tinha feito alguma besteira e o sistema de emails deles havia parado de funcionar. Milhares de clientes urravam, sem acesso (sim, você já ouviu algo parecido com isso antes). Como o sistema era novo, recém implantado, e o projeto deles ainda estava em andamento, ninguém lá sabia consertar.
- Mas eu estou no cliente, falei debilmente, torcendo para que a ligação da namorada do responsável o mantivesse ocupado por mais algum tempo e ele não me notasse.
- Não interessa, cara, você precisa consertar!
- Peça pro coordenador!
- ELE ESTÁ NA FEIRA! NÃO TEM ACESSO LÁ, LEMBRA?!
- Inferno!
- AGORA, CARA, O MUNDO TÁ CAINDO EM SÃO CAETANO!
- INFERNO!
- Mimimimimomomomomomo… continuava o supervisor.
Acesso rapidamente o servidor da provedora usando a conexão do cliente. Rápido, rápido. Investigo o histórico de comandos e acho o arquivo que o pessoal da provedora alterou. Sem backup, inferno, eles não tem o hábito de fazer backup dos arquivos que alteram. Abro o editor, e começo a buscar freneticamente o erro.
- Linda é você… é sim… é simmmmm.. Não, eu te amo mais. Eu…
Cadê, cadê a porra do erro?!
- Desliga primeiro.. ah… então vamos desligar ao mesmo tempo… Vô contá até treis…
Acho o erro. Modifico o arquivo e salvo. Preciso reiniciar o sistema de email.
- Um… dooooisss…. três!
O sistema demora pra reiniciar! Vamos, vamos!
- Ah, você continua ai? Danadinha… é por isso qui eu ti amuu….
Finalmente reinicia. O sistema de emails volta. Desconecto.
- Agora eu tenho que ir. É. Trabalho.
Finalmente ele desliga e imediatamente muda a face iluminada pelo olhar feroz de antes. Sorrio, inocente. Acho que ele não notou o suor frio escorrendo na minha testa.
Depois da hora do almoço descubrimos que o colega desaparecido estava em casa. Havia chegado às quatro da manhã da IBM, sem conseguir terminar a instalação e não acordou. Dormiu a manhã toda, sem ouvir o telefone. Aparentemente, havia tido uma crise nervosa e claramente não estava bem.
Enquanto isso a tensão aumentava e eu não entendia qual era o problema do firewall. Aparentava estar certo. No fim da tarde eu perguntei:
- Mas afinal de contas, o que está errado? O que vocês não estão conseguindo fazer?!
O cliente me olha surpreso. E me explica:
- Não conseguimos acessar a aplicação no servidor snevers.
- É isso?! O principal problema de vocês é esse? Não tem mais outro?
- Não, é basicamente isso.
Suspirei fundo, adicionei a regra. A coisa toda era que era preciso fazer um port-forward em determinado momento, e não apenas permitir o acesso. Enfim, resumindo, era acrescentar uma porra de uma linha e pronto. Recarreguei o firewall. Pedi para eles testarem.
Funcionou. Ficaram admirados. Felizes. Estavam com o problema há meses. Chamavam os outros colegas, e mostravam:
- Olha, acessa! Ele resolveu o problema!
Era isso. Estavam felizes. Uma pergunta, uma linha. Me parabenizavam. Tapinhas nas costas. Aquela carta sobre o processo? Ora, esqueça! Está tudo bem. Obrigado. Parabéns.
Sorri. De nada. Com licença, vou ali fora ter um ataque cardíaco. Har, har. Não, é sério.
Sai para as ruas do Itaim quando começava a entardecer. Tive o meu pequeno ataque e andei até o The Fifities para tomar uma quantidade obscena de glicose. Hey, eu não fumo!
O colega? Foi demitido. Parece que a IBM ficou infeliz e exigiu uma cabeça. É um cara legal. Falo com ele até hoje.
[the dude’s talk] › A terça-feira negra:
[...] Continua… This was written by daniduc. Posted on Monday, March 19, 2007, at 4:24 am. Filed under Histórias corporativas. Bookmark the permalink. Follow comments here with the RSS feed. Post a comment or leave a trackback. [...]
March 20, 2007, 7:12 pmrbp:
Caramba, tremo ao recordar…
March 20, 2007, 7:17 pmjuju:
texto tenso
March 20, 2007, 7:50 pmdaniduc:
O dia foi bastante tenso, na verdade.
March 21, 2007, 12:20 amBadá:
Calharovski, Daniduc, esse foi um dos textos geeks mais legais que eu já li!
March 21, 2007, 1:14 amnei:
Este é o roteiro de um filme de ação e aventura. Onde estão os cienastas?
March 21, 2007, 1:38 pmcarla:
É apavorante mesmo… eu lembro muito bem desse dia… foi horrível!
E nós nem imáginávamos o que viria pela frente quando no dia anterior, expliquei o caminho para vocês chegarem ao Joakins.
March 22, 2007, 1:34 am