A terça-feira negra

Eu já me ferrei bastante no mundo corporativo informático, mas teve uma certa terça-feira em que comecei a tomar consciência de que estava no Além da Imaginação. Foi assim.

Eu estava trabalhando em um projeto de migração de todos os servidores de uma provedora de Internet via rádio para Conectiva Linux. Natural, uma vez que eu trabalhava no setor de consultoria e projetos na filial de São Paulo da agora extinta Conectiva Linux. Enquanto isso, um colega meu estava, há mais ou menos dois meses, trabalhando num projeto de firewall de uma concessionária da Volkswagen. O problema é que esse firewall deveria ter sido implantado em poucos dias e o cliente não estava satisfeito. Digamos, nada satisfeito. E resolveu expressar essa insatisfação com uma cartinha formal que dizia, traduzindo, algo como “se vocês não terminarem esse firewall em cinco dias os nossos advogados vão comer os seus… hã… fígados.”

Temerosos por nossos, hã, fígados, a gerente técnica da filial resolveu me escalar para ir no dia seguinte, terça-feira, último dia do prazo, junto com o colega responsável pelo projeto, para auxiliá-lo a terminar custe o que custar. Não adiantou nada eu ficar balbuciando que eu não conhecia o projeto, o ambiente, o local, que havia passado os últimos meses enfurnado em uma provedora em São Caetano. Vá até lá e termine a porcaria do firewall antes que eles nos comam o hã… fígado. Ok. Entendido.

O pior é que o colega responsável pelo firewall não estava lá naquela segunda-feira para me passar os detalhes da operação, porque fora deslocado em caráter emergencial (tudo era emergência naquela filial) para preparar o estande da Conectiva no primeiro evento como parceira da IBM. Um contrato milionário de parceria, recém fechado, exposição pública para a imprensa, ou seja nada poderia dar errado. Heh, imagine só.

Então a coisa estava assim: na terça, cinco e meia da manhã o colega passaria em casa para irmos juntos até a concessionária terminar o firewall. Às oito da manhã do mesmo dia o meu coordenador deveria estar no estande da Conectiva no mega evento da IBM que estava sendo preparado, até tarde da noite diga-se de passagem, no dia anterior pelo colega do firewall. Ele estava encontrando dificuldades para conectar os computadores do estande na Internet e tentamos ajudá-lo, por telefone enquanto trabalhávamos nos outros projetos, até a uma da manhã. Por esta hora ele parou de ligar e entendemos, ou assumimos, eu e o coordenador, que o problema havia sido resolvido.

Cinco horas da manhã de terça-feira eu acordo depois de poucas e miseráveis horas de sono e me apronto à espera do colega. Cinco e meia. Nada. Seis da manhã. Nada. Não atende o celular ou na casa. Resolvo acordar minha gerente com a notícia de que não conseguia contato com o colega. Ela não reage bem à notícia.

- COMO ASSIM?!?!

- Ele não responde, não atende e não apareceu. E a gente marcou às seis e meia no cliente.

- ENTRA NUM TÁXI AGORA! AGORA! VAI CORRENDO PRA LÁ OU A GENTE ESTÁ FERRADO!

Ah, nada como acordar de surpresa de manhã com seus planos desmoronando e a ameaça de sofrer um processo por causa disso para azedar o humor de uma pessoa…

Ligo para uma operadora de táxi e em alguns minutos estou cruzando a Corifeu de Azevedo Marques pensando que eu não tenho a menor idéia de como se parece qualquer coisa relacionada com o projeto que afinal de contas eu só ia acompanhar. Eu não sei nem a senha do administrador das máquinas (root, no mundo UNIX), o que o colega andou fazendo nos últimos meses, o porquê do projeto estar tão atrasado… nada. Mas eu teria bastante tempo pra pensar nisso, porque assim que o táxi sai da Corifeu para entra na Vital Brasil (eu havia andado cerca de 800 metros) ele pára. A Vital está absolutamente, irremediavelmente travada de trânsito. Amanhecia.

O celular continuava tocando com a gerente em pânico, querendo saber do progresso. Ela não fica feliz em saber que a Vital está parada e era tarde demais para fugir dela. Principalmente porque o meu coordenador também morava por aqueles lados e também estava preso no mesmo trânsito. Ah, sim, eu mencionei que a IBM havia ligado, emputecida, porque nenhum computador do estande da Conectiva funcionava e exigiam a presença dele lá imediatamente? Não? Mas era o caso.

Estávamos eu e o coordenador, presos em carros diferentes mas próximos na Vital Brasil, um indo de encontro a um cliente que ameaçava de processo a nossa empresa por demorar meses para entregar um projeto de uma semana, e outro para consertar um estande que deveria estar pronto desde o dia anterior para o primeiro evento público como parceira de uma multinacional bilionária. E estávamos ambos atrasados. E ambos havíamos dormido poucas horas.

Não esquecendo que ainda havia um colega sumido, sem atender telefone.

Continua

2 Comments

  1. Carla:

    Aguardem, porque realmente esse foi só o começo do dia… :/

  2. [the dude’s talk] › A terça-feira negra - parte II:

    [...] Continuação de A terça-feira negra. [...]