A zona do crepúsculo.
Esta história foi publicada no antigo blogue. Na época era tudo verdade… bem, ainda é, mas hoje leiam todos os verbos no passado (”Estávamos estudando…”).
Estamos estudando em Literatura Brasileira I o romance Serafim Ponte Grande, do modernista Oswald de Andrade. Na aula de terça o professor ditou sete temas presentes no romance-invenção e pediu para escrevermos alguma coisa sobre alguns dos temas, para discutirmos na aula de ontem.
- Literatura também se estuda escrevendo. Façam por vocês, não vou recolher nada. Na aula de quinta irei comentar coisas sobre esses temas, e se vocês quiserem, poderão compartilhar com os colegas alguma coisa que escreveram ou pensaram.
Bem, ontem fui lá e fiquei assistindo a aula, muito boa por sinal. O professor é excelente, nos dá insights muito bons, relaciona as coisas, abre pra debate, e tal. Ele falou sobre “Serafim Ponte Grande e a literatura de viagem”, e “Serafim Ponte Grande e as vanguardas” e “Serafim Ponte Grande e o erotismo”. Momento em que uma colega pediu a palavra.
A colega é uma senhora de seus… bem, por delicadeza não tentarei adivinhar sua idade, mas vamos dizer que é bem mais velha que a média de idade da turma. BEM mais. E ela é do tipo de aluno saliente, manjam? Daquelas que dá risada alto forçada em toda e qualquer coisa remotamente engraçadinha ou com possível duplo sentido que o professor fale, e compartilha com a turma toda e qualquer “sacada” que tenha, mesmo que o professor depois diga “não… ai já acho que não seria o caso…”
Qual a dúvida de que ela pediria a palavra? Ainda mais no tema erotismo (já que dá as mais altas e forçadas “gargalhadas” quando se lêem trechos mais… fortes do romance).
- Na verdade, eu fiz uma relação do erotismo em Serafim Ponte Grande com a literatura de Moacir Scliar.
HÃ?!? QUEM? O que tem a ver o Oswald com o Moacir Scliar?!!?!
O professor tentou alertar: “olha, Moacir Scliar é um escritor contemporâneo, e cada escritor enfrenta os problemas de seu tempo, vamos tomar cuidado com essas relações”. Mas, como bom professor cabeça, deixou que a colega expusesse seu ponto de vista, claro.
- Eu selecionei, disse ela, trechos da literatura de Scliar e tomei a liberdade de imprimir cópias para os colegas.
E levantou e começou a distribuir folhas impressas. Nesse momento a aula lentamente saia da normalidade e entrava numa dimensão paralela, muito parecida com a nossa, mas com traços bizarros inequívocos. Ela… imprimiu trechos eróticos escritos pelo Moacir Scliar com cópias pra classe toda? Sim. Mas não foram assim, uns trechinhos não. Quando uma cópia chegou até mim eu vi que eram TRÊS PÁGINAS de texto erótico de Moacir Scliar! A música do além da imaginação começa a tocar, vinda de algum lugar….
- Gente, eu não sei vocês, mas eu a-do-ro Moacir Scliar. Uma vez ele foi dar uma palestra na escola que EU trabalho…
Eeeeee… e o Oswald, o modernismo, o Serafim Ponte Grande, o professor e o resto da classe com isso?
-… então eu irei fazer uma leitura do primeiro trecho.
Hã? Como?
- … o primeiro trecho é uma descrição muitíssimo bem feita de uma cena de masturbação feminina…
Parem… parem tudo… o que houve com a minha aula? A minha realidade? Cade…
- …”então inseri a pedra lisinha na minha grutinha úmida…”
MINHA SENHORA! Por favor!
- “…orgamos contorcendo o…”
*espamos de horror*
- O proximo texto é sobre um centauro que virou homem…
Deuses! Um cavalo! Ela não ousaria…
Ousou.
Ela começa a ler, e eu resolvo que enough is enough e “acho que devo dar o pira”!
Guardo o meu material, pego a mochila e tento me levantar…
…E fico ENTALADO na carteira! Agora, isso pode ser difícil de visualizar, mas imaginem a sala extremamente cheia. Cheia mesmo, com as carteiras todas espremidas, com o tampo de uma fechando sobre a do lado, de modo que para levantar você tem que se esgueirar, por o traseiro de lado pra passar. Bem, meu traseiro não passou. Caio sentado com um estrondo. Todos olham pra mim.
Menos a senhora, que continua lendo:
-…”então o seu memb…”
HORROR! Tenho que sair dali de qualquer maneira. Tento de novo, e… (*vergonha*)
ENTALO DE NOVO! E CAIO DE NOVO! COM NOVO ESTRONDO!
*arf*, falta de ar. A música do além da imaginação é substituida pela música dos trapalhões… A menina que estava sentada ao meu lado afasta com dificuldade a carteira e eu consigo sair. Todos arrastam suas carteiras para abrir espaço. A senhora continua, impávida, a ler putaria envolvendo cavalos. No afã de escapar ainda tropeço no pé de outro colega. A música dos trapalhões fica insportavelmente alta. Só eu que escuto? Quando finalmente consigo atingir a porta, ao fechá-la, doso errado a força e sem querer acabo batendo: *WHAM*
Ah, e deixei o texto copiado pela colega em cima da carteira.
Cara, fiquei tão deprimido que fui obrigado a tomar um café e comer um alfajor. Glicose me consola.
Com que cara eu vou aparecer na próxima aula? Semana que vem não tem aula, será que na volta todos terão esquecido as peripécias dessa bizarria e a minha saída pra lá de dramática?
Sei que agora eu tenho medo de freqüentar a aula de Literatura Brasileira!
nei:
Este texto é um clássico dude.
February 24, 2007, 7:44 pmNavas:
Não sei se ri mais neste texto ou no que vc derrubou coca-cola no cara engravatado.
March 2, 2007, 6:04 pmjuju:
fui ler os comments aqui e qdo li “coca cola no engravatado” ri de novo, ai n resisti e comentei
March 8, 2007, 1:00 am