Baseado em fatos reais

Eu tava no trem, lendo, na minha. Numa estação subiram uns três malucos, os caras queriam encrenca, isso dava pra se ligar na hora. Básico que os nóia colaram na minha bota e vieram me apavorar.

- E ae, maluco. Na moral?

- Certo, respondi eu.

- Ta lendo o que, mané?

Eram um magrinho com cara de noiado total, um gordo com uma camiseta de time e um alto, com o gorrinho enfiado até os olhos. O magrela noiado não parava de tremer.

- Dá um bico, alemão, uia só o que cara ta lendo! - apontava para meu livro.

- Retrato de Dorian Gray?!

- Ae, o cara é mó boiola, maluco!

Eles começaram a rir que nem umas bestas e me apontar.

- Ih, o cara lê Oscar Wilde, só pode ser fruta.

Ignorantes.

- Ae, cara, macho mesmo lê Conrad, valeu?

- É, mané, seguinte, tu tem que le o Coração das Trevas, em vez de ficar nessa boiolagem de “busca pela beleza eterna”, se liga no “Horror, o Horror”, sacou?

- É, tem que ter o Horror!

Eram uns filhos da puta, mas que eu podia fazer? Os caras eram maioria e outra, podiam estar armados.

- Ae, truta, tu curte um som?

- O fruta ouve Beethoven! - Sacaram a minha camiseta.

- Se liga, cara, Beethoven é coisa de préiboi!

- O esquema é Tchaikovsky! O cara é hardcore!

E então começaram a berrar a Abertura 1812, fazendo o símbolo dos chifres com a mão e balançando a cabeça, o gordão fazendo o barulho dos canhões com a boca, bum, bum. E eu ficava ali, parado, sentindo ódio por não poder revidar. Um deles deu um tapa no meu livro, derrubando no chão.

- E ae, vai falar o que, préiboi? Vai chorar pra mamãe?

- É, fala que Tchaikovsky é o cara, mané. Fala aí, palhaço!

- Aposto que o vacilão acha que os Irmãos Karamazov é do Nabokov!

- Podicre, podicre, alemão, cê é o cara – o nóia tava quase engasgando de tanto rir.

Todos gargalhavam, e um deles me deu um tapa na orelha. Pra minha sorte, nessa hora o trem parou na estação, onde desceram se empurrando e gargalhando. Assim que as portas se fecharam eu catei meu livro do chão. Os outros passageiros me olhavam. Uma senhora falou:

- São uns animais. Você está bem, meu filho?

- Sim, não foi nada, respondi engolindo em seco.

- Tinha era que matar tudo essa cambada, falou um cara de bigode sentado do lado da porta.

- A culpa é do governo, que não faz nada pela educação – era a senhora falando – e os jovens não tem emprego e ficam largados por ai, fazendo arruaça.

- E ficam importunado trabalhador. A polícia nunca ta por perto quando a gente precisa.

Me desliguei do debate e mergulhei novamente nos monólogos de lorde Henry nas tardes londrinas.

2 Comments

  1. ju:

    mto loko esse txt!!!

  2. miriam:

    não achei nada de interessante.