O emissário

Era noite na rodoviária lotada. Dentro de um ônibus saindo do Rio de Janeiro com destino à São Paulo, dois homens tomam lugar nas poltronas 17 e 18. Um deles é muito alto. Senta na janela, acende a luzinha e abre um livro. O outro, baixinho, começa a falar.
- E ai?
- Hrmf, grunhe o alto, livro aberto.
- E ai, indo pra São Paulo né?
O do livro olha incrédulo.
- Pra onde vai esse ônibus?
- São Paulo.
- Não é? - e volta a ler.
- Quis dizer se você esta indo ou voltando, ou seja, se você é de Sampa ou do Rio.
O outro ignora.
- Pô cara, sabia, tenho mulher e filho, mas aprontei muitooo aqui na cidade maravilhosa, cara, a mulherada aqui…
- Se importa?
- Com o que?
- De calar a boca? Estou tentando ler.
- Porra, como você é mal humorado, cara. A gente vai passar umas seis horas nesse busão, que que custa bater um papo?
- Você não trouxe um livro, eu trouxe. Eu tenho com o que me entreter. Não estou interessado em você ou na sua vida.
- Não precisa ser grosso. E se eu disser que a sua luzinha esta me incomodando, ai você vai ter que apagar. E então não vai ter nada pra fazer, a não ser conversar comigo.
- Eu mereço… Seguinte: suma.
Os dois ficam em silêncio por alguns minutos.
- Que cê faz da vida? Sua profissão.
Na janela o homem alto continua a ignorar seu companheiro.
- Eu sou analista de sistemas. E você?
Silêncio.
- Tem mulher? Filho?
Finalmente o cara do livro levanta a cabeça e encara o baixinho nos olhos:
- Eu sou um enviado do Demônio em missão de compra de almas nesse mundo. E tira o braço do meu apoio.
O baixinho sentado no corredor pisca os olhos meio surpreso. Mas finalmente responde:
- Cara, você é mó comédia. Papo sério, por um minuto me assustou.
- A idéia era essa.
- Não, mas sério mesmo, que cê faz?
- Sério mesmo, eu sou um enviado do demo. Quer que eu confirme?
E encara o baixinho com o mais sanguinário olhar da face da terra.
- Porra… Cê me convenceu.
O grandalhão dá um longo suspiro.
- Que doidera. Mas cara, mesmo se existisse o demo, e se ele tivesse enviado, e tudo o mais, por que ele ia viajar de bumba?
- Você não desiste?
- Sério, por que não teletransporte e tal? E as nuvens de enxofre e o caramba?
- Pra eu sofrer, aturando trolhas que nem você. Amigo, eu fui pro Inferno, lembra? O ponto é não ser divertido.
- Maneiro! Eu sou o tormento de um enviado do demo? Show!
Ficaram em silêncio por alguns instantes.
- Quer comprar a minha alma?
- Como?!
- Minha alma imortal, quer comprar?
- Não.
- Por que não?
- Porque você é um pulha. Já cometeu todos os 7 capitais e quebrou os 10 mandamentos e ainda mais algumas coisas. Sua alma já é nossa, pra que eu ia pagar?
- Sei lá, achei que era assim que as almas iam pro Inferno…
- Compramos as almas boas, que não iriam pro Inferno de outra maneira. A gente tenta os bons, senão qual é o ponto? Tentar vender alma que não presta pro Inferno é que nem tentar vender areia na praia.
- Tendi. Quer dizer que eu não tenho salvação?
- Hm, não, sinto muito.
- Mas e aquele papo de que se você aceitar Jesus no último minuto e tal, se arrepender, você será perdoado?
- O arrependimento tem que ser sincero, e não da boca pra fora, sob a ameaça do castigo que enquanto estava longe não te assutava, mas agora às portas da morte se torna uma possibilidade real. Arrependimento depois do castigo, ou diante do castigo, não vale. Que graça, se arrepender só se for pego. E eu sei que você não vai se arrepender. Não desse jeito.
- Hmm, ulha, não tinha pensado nisso. Po, me conta, è muito ruim lá embaixo?
- Pergunta pro italiano.
- Quem?
- Dante. Dá uma lida, você vai ter uma boa idéia.
- E quem está certo? Os católicos então? E os budistas? Os ateus? Eles vão pro Inferno?
O grandalhão dá uma risada.
- Ah, a humanidade… Seguinte, cara, não posso te falar isso, senão pode dar merda. Você nem queira saber.
- E o teu nome?
- Akhenaton.
- hm. Loco. O meu é…
- Joseandro Ananias. Eu sei.
- Ah, é. Me diz uma coisa, Akhenaton não era um faraó ou algo assim? Um egípcio?
- Sim. É como ficou conhecido Amenhotep IV.
- Você era um faraó egípcio??
- Não. Ele era Akhenaton, o faraó, eu sou Akhenaton, o emissário do demo.
- Ahn.
O ônibus prossegue viagem noite adentro.
- Posso ler um pouco agora ou vou ter que apressar sua passagem pro “jardim”?
- Uh, claro cara. Desculpe.
Olha pro lado e repete baixinho, para si:
- Desculpa mesmo…