Gibson, o guitarrista
Gordinho, o destemido não foi a única figura épica e lendária que conheci. Teve também Gibson, o guitarrista.
Estávamos acampando na praia grande do Bonete, em Ubatuda, em duas turmas. Uma turma consistia em eu e dois amigos e a outra era uma renca de conhecidos, que chegou uns dias depois.
Nós levávamos a coisa um pouco mais a sério do que a outra turma, quer dizer, sabíamos acampar, tínhamos equipamento, comida, essas coisas. Eles estavam ali mais pela farra, não levaram comida o suficiente, nem material, mas tinham bebida de sobra e noção de menos.
Isso gerou alguns atritos, claro, como quando um deles pediu um equipamento emprestado e sumiu, ou situações como um amiguinho sentar na porta da barraca dele e pegar a garrafa de água cheia, já esterilizada e pronta pra beber depois que o velho dude tinha camelado 3 quilômetros em areia fofa pra buscar, e derramou em seu delicado pézinho para tirar a areia…
Rapidamente apresentei à criança o avançado conceito de paninho na patinha, e os outros amiguinhos intervieram para evitar o confronto.
Eu estava tranqüilo porque reinava soberano na minha barraca, carregada na mochila pela trilha que nos separava da civilização e que agora era meu palácio, pois dormia lá sozinho.
A outra turma esperava com ansiedade uma peça fundamental para a alegria das rodas em torno da fogueira: Gibson, o guitarrista. Até o nome do cara era de guitarra e eu fazia uma imagem épica do sujeito, pois falavam nele sempre com grande reverência.
- Gibson chegará hoje. Ele é guitarrista.
E eu imaginava um sujeito gigantesco, cabeludo, contra um céu cinza pálido iluminado por relâmpagos enquanto um solo de heavy metal ecoava pela paisagem.
Bem, finalmente um belo dia chega pela trilha, no meio da tarde, um franzino nerd, de oclão, careca, usando calça de moleton, carregando na sua cabeça um violão e nas costas uma minúscula e ridícula mochilinha de escola que devia conter no máximo dois miojos.
Eu me perguntava quando chegaria Gibson, o guitarrista quando a turma cercou o nerd em deferência…
- Gibson!! Giiibsoooon…
Ao que ele respondeu:
- Iac.
Então tá, né. Durante a tarde observei Gibson, sem tirar a calça de moleton, tentar entrar no mar, mas errando o tempo de todas as ondas e sendo cuspido de volta como chiclete mascado de cara na areia.
Ao se aproximar a noite, questionei a trupe de admiradores de Gibson:
- Escuta, não cabe uma barraca naquela mochila, onde ele vai dormir?
- Gibson dormirá sob o teto das estrelas.
- Isso. Não preciso de barracas, disse Gibson, dando a entender que apenas manés como nós nos preocupávamos com essas besteiras de barraca.
Segurei o riso e apenas esperei pela costumeira chuva da noite, enquanto eles planejavam o luau. Não esqueçam que estávamos em Ubachuva.
O tempo virou, a costumeira tempestade veio no começo da noite e me diverti diante do atrapalho e embaraço de Gibson. Seu orgulho não permitia pedir, mas que diabos, a minha barraca era a única com lugar e tenho o coração mole.
- Tem lugar na minha barraca, quer dormir lá?
- Puxa, cara, seria legal.
Mas, oh a surpresa, assim que Gibson acomodou seu saco de dormir mandou a seguinte:
- Espero que essa barraca não tenha goteiras, porque algumas barracas tem a costura vazada e permitem a entrada de água…
- Tem menos água aqui dentro do que lá fora - lembrei, inocente.
- Ah, é, claro, só to comentando…
Grrrrrrrr.
Na manhã seguinte, ainda sonhando, eu viro o rosto e sinto nele algo molhado e frio. Acordo em choque e, sem abrir os olhos, penso:
- Por favor, Deus, fazei com que esse imbecil não tenha se mijado…
A falta de cheiro me alivia e então abro os olhos e é água. Que inferno, como assim, água? Minha barraca não tinha goteiras!
- Gibson. Acorda, meu.
- Hmrfn.
- Gibson, saco, acorda ai.
- Que foi?
- A barraca está molhada, pode ser um rasgo ou ter algo vazando, tem que descobrir o que é.
- Ah, isso. Não cara, sabequié? Eu fui beber água durante a noite ai me engasguei e acabei derrubando.
Puta merda, Gibson, o guitarrista não só não sabia entrar no mar como, pior, não sabia nem tomar água sentado! Resmunguei algo, incrédulo, enquanto Gibson se preparava para enfrentar o novo dia. Foi buscar a sua indefectível calça de moleton que ele havia deixado secando durante a noite. Mas a mistura de água salgada do mar, areia, água da chuva e maresia não fizeram bem para a pobre calça: estava petrificada no formato. E Gibson só havia trazido essa calça, o que não impediu o Guitarrista de passar o resto da viagem tentando entrar no mar sem ser cuspido na seqüência (não conseguiu, mas parece que beber água sentado ele aprendeu, sob a devida inspiração das ameaças do dude).
O pior é que, após tantas desventuras, não me lembro do heróico Guitarrista tocar uma única de uma porra de uma música no violão. Mas aqui estou, mais de 13 anos depois, me divertindo ao lembrar de Gibson, o campista.
Ida:
Só tem um problema: eu quero ler (ou reler) mais.
January 22, 2007, 1:46 pm