Gordinho, o destemido

Eu passei alguns anos da minha vida enfurnado no mundo corporativo, onde me atolei até o nariz. Quando menos percebi, havia migrado de um dude alternativex, estudante de biologia, que fazia estágio de bermuda saindo pro mar para coletar os tubarões, para um dude tiozinho de gravata e pastinha no metrô. Os mais cínicos diriam “bem vindo à vida adulta”, mas sabe, eu acredito que dá pra ser adulto sem pastinha e gravata. De qualquer forma, durante meus anos no mundo corporativo eu observei algumas histórias bizarras e surreais, e resolvi contá-las.

É claro que, como eu trampava na área de informática, as histórias contém algum teor de informatiquês. Mas o ambiente corporativo é um habitat bastante homogêneo e dá pra entender a essência da coisa mesmo se você não for da área. De qualquer maneira eu vou me esforçar para colocar links explicativos em algumas palavras que eu desconfie que não sejam de uso corrente fora do meio.

A primeira aventura que escolhi para recontar é a última do lendário Gordinho, o destemido. Quem extraiu a história foi nosso gerente, que teve um “particular” com Gordinho até a confissão – o que é testemunho da competência de um gerente abnegado. Aconteceu quando eu trampava como analista em um Datacenter ao lado de muitos estagiários.

Uma das tarefas destes estagiários era realizar o chamado “reboot” das máquinas dos clientes, quando solicitados. O procedimento envolvia um chamado aberto no sistema, um telefonema do centro de atendimento para um estagiário, que deveria pegar um carrinho com monitor, teclado e mouse, conectar tudo na máquina, apertar o botão de reset, aguardar a finalização do reboot, confirmar por telefone com o cliente que estava tudo bem e então, fechar o chamado. Isso tudo em menos de 20 minutos, para não quebrar o SLA. É claro que vocês calculam que não vinha um chamado por vez, mas diversos ao mesmo tempo. E é claro que os estagiários não faziam só os reboots, mas uma longa lista de tarefas. Isso tornava o trabalho realmente difícil de ser feito em pouco tempo.

Não para Gordinho. Gordinho (acho que se você o chamasse de Diego ele não responderia, Gordinho era seu nome) era “das ruas”, cheio da sabedoria “dos guetos”, ex-cobrador de lotação, cheio de ser malaco, ele fazia tudo num piscar de olhos. Obviamente que nisso a qualidade do serviço ficava prejudicada, já que ele, hm, “pulava” algumas etapas do processo.

E também não se deixava abater por dificuldades, como veremos a seguir.

O Atendimento abriu um chamado sobre uma máquina (para verificação, segundo eles. Para reboot, segundo Gordinho. Eu nunca soube quem errou) servidora RISC, parruda, daquelas que precisavam de dois homens fortes para carregar. Essa máquina fugia à categoria das máquinas Intel a que estamos acostumados. Era de uma arquitetura diferente, feita para servir dados importantes, não sair do ar em hipótese alguma. Tanto era assim que seu botão de POWER ficava escondido atrás de uma proteção e ela possuia três cabos de energia redundantes que a ligavam a fontes independentes de eletricidade, para evitar falhas.

Isso se justificava pois nela rodava a base de dados do nosso cliente, que a sublocava para empresas espalhadas por três estados. Portanto essa máquina era vital para muita gente. Além disso, bancos de dados ficam muito, muito infelizes se sofrem queda de energia e não se desligam de forma limpa e programada. Se isso acontece há boa chance das informações, bem… “partirem desta para uma melhor”.

Nada disso dizia respeito à Gordinho, o destemido, é claro. Uma vez imbuído em seu espírito da tarefa de rebootar um servidor, nada poderia detê-lo.

Nem mesmo a aparente ausência de botão power. Nesse momento, um estagiário padrão teria ligado para um analista para questionar que rumo tomar diante do impasse. Mas não Gordinho, o destemido. Gordinho simplesmente foi para trás da máquina procurar pela fonte, para retirar o cabo de força. Procedimento que, aliás, não é recomendado em nenhuma hipótese, pelo contrário, era expressamente proibido pelos analistas. Mas quem doma Gordinho, o indomável?

Defrontado com, não um, não dois, mas três cabos de força diferentes, Gordinho, sem demonstrar nenhuma hesitação, munido de seu lendário tênis bamba cabeção para apoiar-se, arrancou um dos cabos. Nada. A máquina continuava no ar, e isso era algo que Gordinho não toleraria. Na seqüência arrancou o outro cabo e então, o último.

Imediatamente o telefone do atendimento começa a tocar.

Havia um cliente muito, muito, mas muito infeliz do outro lado da linha. E ele expressou de maneira bastante enfática seu descontentamento. Pânico generalizado entre os analistas. Como? Que pode ter acontecido? A máquina não poderia ter saído do ar! EM HIPÓTESE ALGUMA!

Não contavam com a destreza de Gordinho, que a essa altura fechava tranqüilo o chamado com um “reboot realizado”, após recolocar os cabos de força no lugar, feliz por mais um trabalho bem feito.

Enquanto isso, em contato telefônico o cliente dizia, com a mais baixa, soturna e assustadora voz:

- Se esses dados não forem recuperados a tempo eu não terei Natal (era Novembro, você vê). Mas ai vocês também não

Fizemos até corrente de pensamento positivo e promessas, todas cumpridas depois, já que, para nossa sorte e do cliente, os dados foram recuperados.

Mas Gordinho teve que voltar às ruas logo depois

6 Comments

  1. carla:

    Essa história é hilária! Mereceu a primeira reedição. :)

    Eu ri quando você contou, quando publicou a primeira vez e agora de novo!!

    Muito boa! :)

  2. [the dude’s talk] › Republicando:

    [...] Então, como vocês podem ver, cumpri minha promessa e republiquei a primeira história retirada do antigo blogue. [...]

  3. Jonny:

    rs rs rs rs! Estou me divertindo com suas histórias!

  4. [the dude’s talk] › Lógica corporativa circular.:

    [...] hospedava uma máquina grande e crítica, a qual já havia sofrido com a iniciativa do lendário Gordinho, o destemido. A uma determinada altura, este cliente resolveu instalar uma nova placa de fibra óptica em seu [...]

  5. Marcel Yuri:

    Haha…éssa foi foda, Daniduc vc podia postar tbm quando o Franck retirou uma máquina do Datacenter e deu numa velocidade na rampinha do 4ºAndar, hehe….a máquina era de rodinha…assim que ele chegou no fim da rampa com agressividade em tramsportar a máquina, ele olha pra cima e quem ele ve nada menos que o gerente e o supervisor, que vc lembra bem quem é…..o Estagiario Frank começou a rachar o bico diante aquela situação que foi constrangedora….

  6. Infoblog » Contos sobre a vida do profissional de TI:

    [...] terminar, um pequeno trecho de “Gordinho, o destemido“, retirado do [the dude’s [...]