Falando sobre pais que ficam em casa cuidando de filhos

Eu hoje moro a Holanda, tenho um blog que é minha fonte de renda, minha esposa trabalha fora enquanto eu cuido da nossa filha durante o dia. Depois que minha esposa chega em casa, trocamos e eu passo a trabalhar no blog.

Como eu fico em casa durante o dia cuidando da criança, é comum eu ouvir todo tipo de besteira sobre o assunto.

Vou responder a algumas…

1.”Ah, coitado, ele está fazendo isso porque perdeu o emprego e não consegue achar outro”

Olha, cada um tem uma história, cada um tem um motivo, mas eu te garanto com 100% de certeza de que muitos Stay at homes dads estão por escolha e não “forçados” a essa situação.

O problema de assumir esse pensamento por padrão é que ele tem o pressuposto de que nenhum homem “de verdade” aceitaria fazer o que é um trabalho de mulher a não ser que seja obrigado.

E se aceita é porque ele é um “emasculado” e outros adjetivos bem piores que nem vou me dignar a repetir.

Esse tipo de pensamento é estúpido e retrógado e deve ser combatido até mesmo nas suas manifestações sutis, como por exemplo, assumir que um homem em casa cuidando de filho é porque perdeu o emprego.

Para deixar claro: cuidar de filho não é trabalho de mulher nem de homem, é trabalho de adultos responsáveis, e fazer isso durante horário comercial por um dos parceiros na criação é escolhe íntima da família derivada de diversos fatores que dizem respeito à ela, e um homem ficar em casa cuidando de filho não diz nem deixa de dizer absolutamente nada sobre a masculinidade dele, que, aliás, não é da sua conta.

2. “Ah, mas homem não sabe cuidar de filho, vai fazer besteira, não faz direito”

Ninguém sabe cuidar de criança até que aprende a cuidar de criança e todo mundo aprende a cuidar de criança cuidando de criança.

Homem, mulher, ser humano em geral aprende as coisas, ok? Ninguém nasce sabendo, e se mais mulheres sabem cuidar de criança do que homens é simplesmente devido ao fato de que mais mulheres cuidam de criança – e assim aprendem.

TODO MUNDO tem que aprender! A diferença é que é mais comum ensinarem as meninas a cuidar de criança desde cedo, enquanto o “machão” da casa é estigmatizado se mostrar qualquer interesse nisso.

O que é totalmente estúpido; quanto mais pessoas souberem cuidar de criança, melhor.

E quando a nossa filha nasceu, eu sabia tanto quanto a Carla, ou seja, praticamente nada, e a gente aprendeu e está aprendendo junto até hoje. Ser homem ou mulher não tem qualquer relação com saber cuidar de criança.

3. “Fica em casa, então é sustentado pela mulher, vida mansa”

Essa tem várias partes, Vamos lá.

Primeiro, ficar em casa cuidando do filho não quer dizer que seja sustentado pela mulher – eu e muitos pais tem negócios próprios que contribuem com a renda familiar. Hoje eu ganho mais com o blog do que ganhava quando era CLT no Brasil.

Segundo, mesmo que não ganhe nada, não quer dizer que seja um vida-mansa. O trabalho de cuidar de filho é um dos mais importantes que existe – todo mundo fala de “deixar filhos melhores pro mundo”, mas quedé dar o trampo anos e anos que isso requer? Pois, cuidar de filho é um trabalho e deixa eu te dizer, remuneração NÃO É reflexo do valor do trabalho. Muitos trabalhos honestos e importantes não são remunerados, muito trabalho nocivo aos outros é muito bem pago. O homem que fica em casa cuidando dos filhos, contribuindo ou não pra renda da família, está contribuindo pra família, sim.

4. “Puxa você é homem e fica em casa cuidando dos filhos, que especial, parabéns!”

Olha só, tudo isso que eu falei sobre renda e ser um trabalho importante cuidar dos filhos vale para mães que ficam em casa também! Tudo isso é válido quando é uma mulher que fica em casa. Não é porque é homem que merece um tapinha nas costas especial, puxa, ele está fazendo um sacrifício pela família… como se o homem estivesse fazendo algo a mais, e se fosse a mulher, seria obrigação dela.

Olha só, cuidar de filho é obrigação da família, e como a família se organiza pra cuidar dos filhos – trabalhando um, trabalhando outro, trabalhando os dois, criando sozinha, isso é problema da família e ela que decide como é melhor pra ela!

Tem casos que nenhum dos dois pode ou quer ficar em casa e os dois resolveram/precisaram trabalhar e isso também é OK! O que me parece importante é o seguinte: a criança está sendo cuidada, recebendo afeto, amor, atenção, carinho, tendo as necessidades tanto emocionais quanto materiais atendidas? Está? Então ótimo.

 

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Repercussão do post “Da relação direta entre poder abrir… etc”

Você sabe de qual post eu estou falando. Sim. Eu o publiquei em 2009, causou algum agito entre as pessoas e depois dormiu.

Até que em 2013 ele explodiu sensacionalmente. Do nada. Um belo dia, a Internet português-falante descobriu meu post e foi em peso ler. Fiquei entre surpreso e feliz, mas assumi que seria um fogo de palha, e que logo a Internet iria descobrir um vídeo de gatinho ou algo assim e esqueceria meu post.

Não só errei a previsão, como o meu post começou a ter o estranho hábito de sair correndo da Internet e acessar o mundo real.

Os primeiros sinais desse post pular pra fora da Internet direto pro mundo real foram pessoas me contando que ele havia sido discutido em sala de aula, em diversas séries. Começou brando.

Daí saiu uma nota sobre mim no Notícias do Dia, um jornal de Floranópolis.

(Meus pais moram em Florianópolis, e eu morei lá quando a Hercílio Luz recebia tráfego de carros. Yeah, eu atravessava a Hercílio Luz de ônibus pra ir pra escola).

Bom, ok. Daí a revista The Flowers de Holambra republicou meu texto na edição de dezembro de 2013, com nome e fotinho minha e tudo o resto. Me pediram autorização, eu dei.

Perfeito. Aí uma leitora me perguntou o seguinte: “por favor ducs me responde essa essa pergunta. o que predomina nesse otimo texto escrito por você. foi uma questão deconcurso e ela me tirou da classificação”

E eu com aquela cara de “que concurso…?”

Algumas googladas depois, eu descobri que o IFSUL (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia) usou meu texto pra um concurso para assitente em administração. Tipo, toda a prova de português usou como base meu texto.

Pera, que a coisa fica estranha: eles usaram meu texto mas deram como autor um tal de Caio Braz :( O cara republicou meu texto no blog dele e aparentemente o pessoal do IFSUL não sabe ler muito bem, porque estava escrito no primeiro parágrafo do post dele que o texto era meu. Eita, IFSUL, que feio! Ou que fail! Ambos.

De toda a forma, nunca imaginei que iriam fazer uma prova toda usando esse texto como subsídio.

Tudo o bem, daí hoje uma leitora me avisou que republicaram meu texto no jornal Bem Estar, distribuido em São Leopoldo, Novo Hamburgo, Sapiranga, Campo Bom, Estancia Velha, Ivoti e Dois Irmãos no Rio Grande do Sul.

Dessa vez puseram o crédito certo.

O texto está sob uma licença Creative Commons, que permite a pessoa republicá-lo (com os devidos créditos, o que o IFSUL não fez)  sem me pedir antes (desde que não seja para fins comerciais), então o pessoal que republica não tá fazendo nada de errado, desde que não assuma autoria do meu texto nem saia revendendo.

Então é muito legal receber essas surpresas. Uma das coisas que me diverte um tanto é ver como esses veículos todos sisudos lidam com a existência do único palavrão do texto.

(Vou citar, tampe os olhos se for muito sensível: “Quem seu pai é ou foi não quer dizer nada sobre quem você é. E nada, meu amigo, nada te dá o direito de ser cuzão.”)

Obviamente nenhum deles publicou o cuzão (ao contrário de muita mídia durante o carnaval). A maioria simplesmente cortou a frase. Mas o jornal Bem Estar mudou para “canalha”.

Eu teria mudado pra “babaca”, se o cuzão tivesse incomodando muito (em geral eles são insuportáveis mesmo), mas enfim, agora já era.

A explosão virótica desse post me ensinou uma coisa: texto é que nem filho. Você cria, você prepara o melhor que pode e, um belo dia, solta no mundo. E depois que solta, eles têm a sua vida própria.

Ele se espalha na cabeça das pessoas, e em cada uma se transforma. Muitas pessoas gostaram do texto por motivos opostos, cada um achando que eu tava dando razão pra algum diálogo interno que eles tinham na cabeça.

De repente tem 14 questões de prova sobre ele e você fica espantado proque não sabe responder a todas as perguntas.

E, como um filho que caiu no mundo me mandando cartões postais de lugares distantes, eu me surpreendo e me preocupo a cada noticia de republicação. E penso: “se saiu muito melhor do que eu esperava, esse guri”.

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Aquele momento

Aquele momento em que você é pequeno e vê um grupo de crianças do seu tamanho brincando e pensa vou brincar junto e é rejeitado e descobre que os outros não querem que você brinque junto, não por causa de algo que você fez ou deixou de fazer, mas pelo que você é, e portanto, por algo que você não pode mudar nem que queira, o que te leva a deixar de gostar de algo que é parte de você e te define, por ser uma característica que te impede de ser aceito pra brincar junto com os outros. Aquele momento fica com você por décadas mesmo depois que você descobre que ser diferente não é necessariamente ruim, porque tem coisas que você realmente não quer ser igual. Aquele momento.

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Prioridades

Eu sou pai de menina, e isso automaticamente gera várias pessoas me perguntando da preocupação que terei quando a Babyduc estiver na hora de arrumar namorados, se vou ficar com ciúmes, como irei proteger minha princesinha e tal.

Primeiro acho meio precoce isso – ainda tenho fralda pra trocar, e conflitos de parquinho pra gerenciar. Mas se querem uma resposta, eu me preocupo muito mais sobre como criar uma filha que seja forte e autoconfiante pra lidar com um mundo absurda e agressivamente machista do que com os futuros namorados dela. Mas sei lá, cada um com suas prioridades.

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Dá pra aprender sem tomar castigo?

Eu tinha uns 14 ou 15 anos e estudava em um colégio particular. Eu era no geral bom aluno e comportado, mas um dia eu cabulei uma aula pra jogar truco com meus amigos. Estávamos em pleno jogo e não notamos o diretor da escola se aproximando lentamente de nós. Ele parou na nossa frente, mãos pra trás, olhando sem dizer nada.

Congelamos.

Ele era já um senhor de cabelos muito brancos, figura tranquila, voz mansa.

Ele disse com calma:

- A mensalidade dessa escola é dezenoito mil patacas (eu não lembro a moeda da época, cruzeiro, cruzado, algo assim). Por dia, vocês tem 4 aulas. Por semana, são 20 aulas, dezenoito dividido por 80, vezes quatro de vocês… joguinho caro esse, hein? Quem tá pagando?

E foi se afastando, mãos nas costas. Sem punição, sem suspensão, sem advertência. Nada. Ele simplesmente foi embora.

Eu não lembro a aula que eu tava cabulando, mas eu lembro muito bem do que aprendi nela. Até hoje.

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Você é feliz?

Na minha opinião, felicidade é dada por 3 coisas:

1. Necessidades básicas supridas. Nisso incluo saúde, comida, segurança, etc. Coisas que, em faltando, ameaçam de maneira imediata a continuidade da existência.

2. Círculo social: pode ser amigos, pode ser sua esposa, pode ser sua igreja… contato humano de alguma forma. Agora, eu sei que há ermitões e pessoas misógenas que se definem como felizes sem humanos—mas de alguma forma elas substituiram o circulo social por alguma outra coisa. Animais, objetos inanimados, uma entidade Abstrata… mas mesmo assim, são casos extremos. Em geral, algum círculo social humano você tem de ter. Seres humanos são essencialmente sociais.

3. Senso de propósito: dar algum sentido à sua existência. Pode ser qualquer coisa: sua profissão, ajudar os outros, enriquecer, derrubar a floresta amazônica (eu não disse que tem o propósito tem de ser louvável: canalhas se definem como felizes também), criar uma obra prima, criar os filhos, colecionar tudo referente aos ramones. Qualquer coisa que dê um norte, um motivo pra você sair da cama de manhã e você julgue que valha a pena, que justifique seu tempo no planeta.

As pessoas que tem os 3 fatores dizem que são felizes.

Faltando o ítem 1, 2 ou 3 temos angústia.

E aí, você é feliz? Se não é, pense: qual dos três está faltando?

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Regra básica e essencial para todo tipo de debate

Grandes debates assolam nossa era. Pessoas se exaltam, e às vezes esquecem de algumas regras básicas, e aqui vai uma:

Se algum dia você se ver defendendo ou justificando o assassinato de crianças, você está errado.

Não vou entrar no mérito (ainda) de assassinato em si, mas vamos solidificar isso primeiro: não há justificativa moral, política, ideológica, religiosa ou de qualquer espécie para se assassinar crianças. OK?

Tropas israelenses atiraram em crianças palestinas? Elas estão profundamente erradas. Não quero saber se os palestinos isso, ou a política aquilo, não tem justificativa.

Palestino explodiu ônibus de crianças israelenses? Ele está profundamente errado. Não quero saber se os israelences fazem o mesmo ou se eles ocuparam a região ou isso ou aquilo.

Não se mata criança.

Não se prenda aos exemplos de Palestina e Israel aqui. Qualquer outro caso serve pra ilustrar. Não importa.

Foda-se a sua afiliação, o que o outro fez primeiro, ou o que está escrito ou deixa de estar escrito em que livro, ou os séculos de opressão de qualquer lado.

Não se mata criança.

Se você se achar, em um desses debates de internet, justificando assassinato de criança, você está muito profundamente errado. Procure ajuda.

Falou? Obrigado. Era isso.

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O maior desastre aéreo da história – Parte III (Final)

(Leia a parte II)

Em meio a densa neblina que cobria o pequeno aeroporto de Tenerife, o voo KLM 4805 carregando 248 pessoas acelera na pista, em procedimento de decolagem. Infelizmente, na mesma pista estava o voo Pan Am 1736, com 396 pessoas, taxiando e tentando achar a saída que deveria tomar.

Sem poder enxergarem-se, e sem poder enxergar a torre, nenhuma das três partes envolvidas está ciente do que está para acontecer e o que as outras estão fazendo.

“Claro que sim!”

Ainda sem saber que o KLM acelerava em procedimento de decolagem, a torre de controle pede para que o Pan Am reporte seu status.

Torre: Papa Alpha um sete três seis, reporte [quando tiver] a pista livre.
Copiloto Pan Am: Ok, reportaremos quando tivermos liberado.

Ao contrário da mensagem anterior, essa foi claramente audível na cabine do KLM. Porém, nem o piloto-estrela da KLM nem seu copiloto acusaram ter ouvido a mensagem. Quem reagiu foi o engenheiro de voo, ou terceiro piloto, o oficial mais júnior da cabine.

Terceiro piloto KLM: Quer dizer que ele ainda não terminou então?
Piloto KLM: Como é?
Terceiro piloto KLM: Ele ainda não terminou, o Pan Amareican?
Piloto KLM: Claro que sim!

Confrontado com a resposta tão enfática do oficial mais sênior de toda a frota da KLM, e com o silêncio do copiloto, o terceiro piloto não disse mais nada. Sua pergunta seriam suas últimas palavras.

“Todo cheio de pressa”

Na cabine do Pan Am já haviam notado a ansiedade do piloto holandês.

Piloto Pan Am: Vamos cair fora daqui.
Copiloto Pan Am: Yeah, o cara tá ansioso, né?
Piloto Pan Am: É, depois de ficar nos empatando todo aquele tempo [com o abastecimento], agora taí todo cheio de pressa.

Nesse momento, o piloto do Pan Am olha pela janela e vê as luzes do Boeing KLM vindo a toda velocidade.

Piloto Pan Am: Tali ele, olha lá o cara, o FILHO DA PUTA TÁ VINDO EM CIMA DE NÓS!!
Copiloto Pan Am: SAI FORA SAI FORA SAI FORA

O Piloto da Pan Am imediatamente acelera suas turbinas ao máximo e joga o avião para a grama, tentando livrar a pista para o bólido azul rugindo em sua direção.

Ou. Se

O Capitão Van Zanten enxerga o Pan Am e percebe que seu terceiro piloto estava certo. Solta um palavrão e puxa o manche, tentando desesperadamente tirar o avião do chão antes da colisão.

A cauda do Boeing bate na pista arrancando um rastro de faíscas. O avião decola, e o nariz da aeronave ultrapassa o deck do Pan Am.

A turbina não.

Por meros metros, a turbina não passa limpa pelo Pan Am. Se o Pan Am tivesse pego a terceira saída como instruído, teria dado tempo.

Se o KLM não tivesse reabastecido e, portanto, estivesse mais leve, teria dado tempo.

Se o rádio não tivesse dado interferência, a decolagem poderia ter sido abortada.

Se o capitão tivesse confiado no seu terceiro piloto, poderia ter evitado a colisão.

Se não tivesse neblina. Se o aeroporto tivesse radar de solo. Se nunca houvesse bomba em Las Palmas. Se o capitão estivesse sem tanta pressa, ou prestando atenção, ou…

Ou. Se.

Vítima 583

A turbina bateu em cheio no deck do Pan Am. O KLM chegou a levantar voo, mas afocinhou logo a frente. Todo o combustível extra colocado no KLM pegou fogo. O incêndio matou todos os ocupantes do avião, e a maior parte dos ocupantes do Pan Am.

Enquanto isso, com o teto arrancado, as turbinas do Pan Am ainda giravam em toda velocidade. Os poucos passageiros que escaparam do incendio fugiram para a asa, para esperar resgate.

Que demoraria ainda, pois devido à neblina, só notaram que havia UM avião caído, sem perceber o segundo em chamas e também destruído.

As turbinas do Pan Am se desintegraram, espalhando destroços em alta velocidade por toda a parte. Uma comissária de bordo foi atingida e morreu.

Foi a vítima de número 583. Nenhum outro acidente aéreo matou tanto.

Mais seguro

O desastre de Tenerife teve impacto profundo na aviação. Diversos procedimentos foram alterados ou criados para evitar esse tipo de situação.

A KLM reconheceu que a responsabilidade final pelo acidente foi de seu melhor piloto, e compensou as famílias das vítimas e os sobreviventes.

Foi construído um novo aeroporto em Tenerife, em um local que nunca tem neblina, para receber grande aviões, deixando o outro aeroporto de Tenerife para atender apenas pequenas aeronaves que fazem o tráfego local.

E instalaram a porra de um radar de solo lá.

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O maior desastre aéreo da história – Parte II

(Leia a parte I)

A pista do pequeno aeroporto de Tenerife estava coberta de neblina, impedindo que a torre de controle visse os dois jumbos que taxiavam na pista, um da KLM e outro da Pan Am.

O KLM seguia primeiro, e deveria fazer uma volta de 180 graus ao final da pista e assumir posição de decolagem. Atrás dele ia o pan Am, que deveria pegar a terceira saída à esquerda, deixando a pista livre pro KLM decolar.

Os pilotos do Pan Am não estavam conseguindo achar a saída correta, perdidos na névoa e em um aeroporto desconhecido e mal sinalizado, certamente não preparado pro tráfego de jumbos. Enquanto eles tentavam se achar, o KLM terminou seu taxi e assumiu posição de decolagem.

O Pan Am, porém, perdeu a saída e continuou na pista. Isso atrasaria mais alguns minutos a saída do KLM. Se ele tivesse esperado.

“Tamos indo”

Na cabine do KLM, o piloto-estrela Jacob Veldhuyzen van Zanten, considerado o melhor que a KLM tinha em seus quadros, estava ansioso.

Todo aquele atraso significava que ele estava para estourar a jornada máxima de trabalho permitida pela legislação holandesa e política da companhia. Isso queria dizer ter de interromper o voo em Tenerife… o que iria causar grandes transtornos: a KLM teria de pagar estadia para todos os passageiros, que já estavam extremamente infelizes com o atraso, sem mencionar a droga do abastecimento que demorou pra sempre.

Além disso, a neblina piorando a cada segundo, naquele aeroporto minúsculo e lotado, aumentava o risco de ter de interromper o voo por falta de visibilidade. O quanto antes ele saísse de lá melhor.

Assim que o KLM alinhou na pista, ele acelerou as turbinas. Imediatamente, o copiloto alertou:

Copiloto KLM: Espera um pouquinho, nós não temos autorização da torre.
Piloto KLM: Não, to sabendo, vai lá e pede.

O Copilot obedeceu imediatamente:

Copiloto KLM: KLM quatro oito zero cinco está agora pronto pra decolagem aguardando autorização da torre.

A torre, composta de apenas dois controladores 9era domingo), respondeu com o plano de voo pevisto pro KLM:

Torre: KLM quatro oito zero cinco você está autorizado para o Farol Papa, subindo e mantendo nível de voo nove zero, virada a direita após decolagem, proceder para…

Aparentmente o capitão Van Zanten selecionou as palavras “autorizado” e “decolagem” dessa frase toda e soltou os freios, interropendo seu copiloto, que estava repetindo as instruções da torre, com um ansioso “Tamos indo, checa a aceleração”.

Mal entendidos fatais

O copiloto, pego de surpresa no meio da frase, tentou comunicar a torre que o capitão soltara o freio e estava pisando fundo, mandou um “estamos agora na decolagem”.

A Torre de Controle entendeu a mensagem como “estamos agora na posição de decolagem”. O que é natural, já que eles não haviam dado autorização de decolagem.

Aliás, de todos os envolvidos na investigação do acidente, quando ouviram primeiro a gravação da conversa da torre, antes de ter a gravação da cabine da KLM contendo o “tamos indo” do capitão, entendeu que o KLM estava querendo dizer que estava na realidade decolando.

A Torre respondeu:

Torre: OK.

Mas logo completou:

Torre: Aguarde para decolar, eu te chamo [quando for a hora].

Nesse mesmo exato segundo, o Pan Am, meio cabreiro com a mensagem do KLM, resolveu confirmar a sua posição:

Copiloto Pan Am: E a gente ainda está taxiando na pista, o clipper um sete três seis [código do Pan Am]

A transmissão simultânea do Pan Am com a torre resultou em uma interferência de rádio – apenas um pode falar por vez – gerando um ruído intenso na cabine do KL  que ouviu apenas uma parte da mensagem da torre.

A parte que dizia OK.

(Continua)

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O maior desastre aéreo da história – Parte I

Em um domingo do fim de março de 1977, uma bomba explodiu no aeroporto Las Palmas, na ilha Gran Canaria, um território autônomo espanhol no Atlântico. A bomba não causou vítimas fatais. Porém, ela seria o início de uma cadeia de eventos que resultaria no maior desastre aéreo da história em termos de mortalidade.

E envolve um avião da KLM.

Congestionamento dos grandes jatos

A polícia, tendo sido avisada da bomba 10 minutos antes da detonação, evacuou o aeroporto de Las Palmas, e levou muito a sério o aviso de que havia uma segunda bomba a ser detonada. Imediatamente ela fechou o tráfego aéreo, desviando-o para um aeroporto local na ilha vizinha de Tenerife.

O pequeno aeroporto de uma pista, acostumado a receber pequenos aviões de vôos entre as ilhas apenas, se viu de repente recebendo diversos Jumbos que fazem parte do tráfego aéreo internacional destinado às Ilhas Canárias.

Logo a pista auxiliar ficou lotada de aviões grandes estacionados, aguardando permissão para finalmente voar para Las Palmas. Entre eles estavam o voo KLM 4805 e o Pan Am 1736, que horas mais tarde iriam colidir de maneira espetacular, matando todos as 248 pessoas a bordo do KLM e 335 das 396 pessoas a bordo do Pan Am.

Vamos logo com isso

Enquanto esperavam, o piloto do KLM 4805 decidiu reabastecer seu avião, preparando-o pro voo de volta à Amsterdam. Em princípio, havia combustível suficiente para o retorno, mas por algum motivo o capitão achou mais seguro reabastecer, e em vez de fazer isso em Las Palmas, onde ele previa que estaria um grande congestionamento de aviões quando a aeroporto reabrisse, provavelmente resolveu ganhar tempo. Ele não tinha como saber, mas não foi uma boa idéia.

O abastecimento demorou 35 minutos. Como o aeroporto era pequeno, o KLM estava bloqueando a passagem do voo da Pan Am, que estava pronto para sair (Las Palmas a essa altura estava reaberto). Sem ter o que fazer, o Pan Am ficou lá, sentado vendo o KLM reabastecer.

Jumbos na névoa

Quando finalmente terminou, e os passageiros do KLM reembarcaram, havia uma certa tensão no ar, um sentimento de “estamos atrasados”.

A torre resolveu liberar os jatos o mais rápido possível. Como a pista auxiliar estava congestionada de aviões estacionados, ela instruiu os dois aviões mais da ponta, o KLM e o Pan Am, para taxiar na pista principal, em vez da auxiliar.

O KLM foi insruído para percorrer toda a extensão  da pista e fazer uma volta de 180 graus ao seu final, para assumir posição de decolagem.

A seguir,  instruiu o Pan Am para seguir o KLM e pegar a terceira saída à esquerda, acessando a pista auxiliar numa altura em que estava já livre de aviões estacionados. Lá terminaria o táxi, deixando a pista livre pro KLM decolar, enquanto aguardava sua vez.

Esse era o plano. Não funcionou.

Enquanto os aviões taxuavam, baixou uma densa neblina no aeroporto, tornando a visibilidade próxima de zero. Isso quer dizer que os aviões não se enxergavam uns aos outros, e nem a torre de controle enxergava a pista e os aviões.

Em um aeroporto maior, isso não seria problema, pois em geral eles estão equipados com radar de solo. Não era o caso em Tenerife. Eles teriam que confiar na comunicação via rádio para saber as posições relativas.

O que se provou bem difícil de ser feito.

(Continua)

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