Review do show do Paul McCartney em Amsterdam, 2015

Ao contrário dos sortudos no Brasil que viram os shows em 2013, nós esquecidos aqui em Amsterdam tivemos que esperar até 2015 para receber um show da turnê Out There do Paul McCartney.

O importante é que nossa vez chegou e eu tava lá ontem.

Foi o primeiro show que fui em sete anos de Holanda e… het was geweldig! Posso dizer que vi um Beatle ao vivo (não existe isso de ex-Beatle) e que foi um dos melhores shows que vi na vida.

Sério: Sir Paul é lendariamente bom de palco, e as lendas são verdadeiras. E o tempo todo ele fazia questão de que estivéssemos nos divertindo e curtindo.

Curtindo! Imagina isso, Paul McCartney fazendo questão que a gente se divertisse? Oras, eu não sou muito de contrariar um Beatle, então…

Tiveram inúmeros momentos imensamente cool na noite. Por exemplo, ele tocou “Being For the Benefit of Mr. Kite” e depois explicou como o John compôs a música, tirando as letras de um cartaz de circo obscuro… e eu estava com uma camiseta estampada com esse exato cartaz! HEY PAUL OLHA AQUI!

Acho que ele não me ouviu. Nem dei bola. E daí? Quase ninguém entende essa camiseta e muito menos quando eu digo que ela é uma camiseta dos Beatles, mas Paul me entende.

O momento mais cool da noite foi quando ele anunciou que iria tocar uma música em homenagem ao amigo John…

E a plateia explodiu em um coro espontâneo de “All we are saying…. is give peace a chance…”

Paul ficou surpreso, porque a música que ele estava se referindo era outra (Here Today, claro), mas ele se juntou ao coro e começou a tocar!

(“Ok, então são DUAS músicas em homenagem ao John”).

Além de John ele homenageou muitas outras pessoas… incluindo Jimi Hendrix! Ele tocou (uma parte de) Foxy Lady! YEAH! Os holandeses sentados tamborilando os dedos e eu quase morrendo lá.

Ah, não foi só homenagem, claro. Teve McCartney valendo por 50 anos de carreira. Tocou de tudo, de Beatles a Wings ao último álbum e a performance de Live and Let die foi uma das coisas mais espetaculares que eu vi na vida, e estou contando aquela vez que eu vi a partir do cume do Aiguille du Midi nos Alpes Franceses o Mont Blanc soltando uma névoa gelada soprada pelo vento.

O palco literalmente explodiu quando a banda bate LIVE AND LET DIE, foi fogo, fogo mesmo, eu senti o calor, teve raio laser, fogo de artifício, cheguei a temer “cuidado, não mata ele não produção!”

Eu não precisava me preocupar, claro. Paul é imortal.

Outro ponto alto da noite (começo a desconfiar que só teve pontos altos), foi a clássica execução de Hey Jude junto da plateia. Hey Jude não era, antes, uma das minhas músicas favoritas dos Beatles… pera deixa eu clarificar: eu amo todas as músicas dos Beatles, exceto Revolution 9, que apenas gosto. Mas tem aquelas que eu amo mais, e Hey Jude não era uma delas.

A Babyduc mudou isso, de tanto que eu embalei ela cantando e dançando Hey Jude até sentir a bebezuquinha relaxar num soninho gostoso (eu toco Beatles pra ela desde o útero, e Paul sempre foi o Beatle favorito dela – é ouvir a voz dele que ela já dançava, curtia e pedia pra repetir sem parar… Que posso dizer, Paul sempre teve um jeito com as meninas).

Mas se você não teve essa experiência com a sua bebê e implica um pouco com o infinito NANANANA…. veja ao vivo. Esteja lá, você *vai* mudar de ideia.

Foi catártico.

(E eu até pude gritar PEGA O CAVAQUINHO! Hey alguém tinha que fazer.)

(Se você não entendeu, ouça a versão de estúdio de Hey Jude aos 5:35. Você nunca mais vai conseguir desouvir.)

Sim, essa foi a noite em que eu entendi aquelas garotas da Beatlemania chorando e se escabelando nos shows.

Talvez eu tenha até feito um pouco como elas. Um pouco.

Talveeez…

Ok. Eu fiz. Não me arrependo de nada. Eu vi Paul McCartney ao vivo.

E no fim, se o amor que você leva é igual ao amor que você gera, então Sir Paul certamente levará um monte gigantesco de amor.

Obrigado, Macca, Sir Paul, Paul McCartney.

Posted in Holanda, Música | Comments Off on Review do show do Paul McCartney em Amsterdam, 2015

Brasileiro não sabe dizer não?

Como os brasileiros em geral, eu tenho uma certa dificuldade em falar não. É da nossa cultura. Holandês não tem problema algum em dizer não, nós temos. Eu melhorei muito nisso, num trabalho que começou na minha mente há uma década e meia, mas é difícil lutar contra algo que está tão entranhado na sua natureza.

Ao longo desse ano, eu vi a ‪#‎babyduc‬ na escolinha – no começo as crianças chegavam nela e pegavam os brinquedos, ou empurravam, e ela chorava. As professoras chegavam nela e diziam: “você disse pro amiguinho que não queria? Tem que dizer não.”

Hoje ela diz não e a professora só interfere quando o coleguinha não respeita. E a intervenção é no sentido de “coleguinha, você ouviu a Babyduc? Ela disse NÃO. Você tem que respeitar o que ela está dizendo”.

Entende? Não é “coleguinha, pare de fazer isso porque eu estou dizendo” mas “pare de fazer isso porque a sua colega disse não e você tem que respeitar”.

E assim eu vou vendo a petizada aprendendo a se impor e a dizer não.

E eu lembro que na minha época a gente era ensinado a chamar a tia (na época era tia, hoje mudou né). Aqui eu vejo elas sendo ensinadas a elas mesmas dizer não.

Não tô generalizando, longe de mim adivinhar como que cada escola faz com cada criança Brasil ou Holanda afora. Eu tenho só essas três experiências: um, brasileiros em geral, e eu incluso, têm dificuldade de dizer não, dois, eu era ensinado a chamar a autoridade em vez de me impor, três na escola da minha filha eles todos são ensinados a dizer não e a se impor / se respeitar, em vez de respeitar a autoridade vinda de cima.

Pode ser que seja diferente na sua e tenha sido diferente na sua época, eu não sei e não vou tentar adivinhar. Eu apenas achei curioso notar essas minhas experiências.

Posted in Educação, Holanda | Comments Off on Brasileiro não sabe dizer não?

Falando sobre pais que ficam em casa cuidando de filhos

Eu hoje moro a Holanda, tenho um blog que é minha fonte de renda, minha esposa trabalha fora enquanto eu cuido da nossa filha durante o dia. Depois que minha esposa chega em casa, trocamos e eu passo a trabalhar no blog.

Como eu fico em casa durante o dia cuidando da criança, é comum eu ouvir todo tipo de besteira sobre o assunto.

Vou responder a algumas…

1.”Ah, coitado, ele está fazendo isso porque perdeu o emprego e não consegue achar outro”

Olha, cada um tem uma história, cada um tem um motivo, mas eu te garanto com 100% de certeza de que muitos Stay at homes dads estão por escolha e não “forçados” a essa situação.

O problema de assumir esse pensamento por padrão é que ele tem o pressuposto de que nenhum homem “de verdade” aceitaria fazer o que é um trabalho de mulher a não ser que seja obrigado.

E se aceita é porque ele é um “emasculado” e outros adjetivos bem piores que nem vou me dignar a repetir.

Esse tipo de pensamento é estúpido e retrógado e deve ser combatido até mesmo nas suas manifestações sutis, como por exemplo, assumir que um homem em casa cuidando de filho é porque perdeu o emprego.

Para deixar claro: cuidar de filho não é trabalho de mulher nem de homem, é trabalho de adultos responsáveis, e fazer isso durante horário comercial por um dos parceiros na criação é escolhe íntima da família derivada de diversos fatores que dizem respeito à ela, e um homem ficar em casa cuidando de filho não diz nem deixa de dizer absolutamente nada sobre a masculinidade dele, que, aliás, não é da sua conta.

2. “Ah, mas homem não sabe cuidar de filho, vai fazer besteira, não faz direito”

Ninguém sabe cuidar de criança até que aprende a cuidar de criança e todo mundo aprende a cuidar de criança cuidando de criança.

Homem, mulher, ser humano em geral aprende as coisas, ok? Ninguém nasce sabendo, e se mais mulheres sabem cuidar de criança do que homens é simplesmente devido ao fato de que mais mulheres cuidam de criança – e assim aprendem.

TODO MUNDO tem que aprender! A diferença é que é mais comum ensinarem as meninas a cuidar de criança desde cedo, enquanto o “machão” da casa é estigmatizado se mostrar qualquer interesse nisso.

O que é totalmente estúpido; quanto mais pessoas souberem cuidar de criança, melhor.

E quando a nossa filha nasceu, eu sabia tanto quanto a Carla, ou seja, praticamente nada, e a gente aprendeu e está aprendendo junto até hoje. Ser homem ou mulher não tem qualquer relação com saber cuidar de criança.

3. “Fica em casa, então é sustentado pela mulher, vida mansa”

Essa tem várias partes, Vamos lá.

Primeiro, ficar em casa cuidando do filho não quer dizer que seja sustentado pela mulher – eu e muitos pais tem negócios próprios que contribuem com a renda familiar. Hoje eu ganho mais com o blog do que ganhava quando era CLT no Brasil.

Segundo, mesmo que não ganhe nada, não quer dizer que seja um vida-mansa. O trabalho de cuidar de filho é um dos mais importantes que existe – todo mundo fala de “deixar filhos melhores pro mundo”, mas quedé dar o trampo anos e anos que isso requer? Pois, cuidar de filho é um trabalho e deixa eu te dizer, remuneração NÃO É reflexo do valor do trabalho. Muitos trabalhos honestos e importantes não são remunerados, muito trabalho nocivo aos outros é muito bem pago. O homem que fica em casa cuidando dos filhos, contribuindo ou não pra renda da família, está contribuindo pra família, sim.

4. “Puxa você é homem e fica em casa cuidando dos filhos, que especial, parabéns!”

Olha só, tudo isso que eu falei sobre renda e ser um trabalho importante cuidar dos filhos vale para mães que ficam em casa também! Tudo isso é válido quando é uma mulher que fica em casa. Não é porque é homem que merece um tapinha nas costas especial, puxa, ele está fazendo um sacrifício pela família… como se o homem estivesse fazendo algo a mais, e se fosse a mulher, seria obrigação dela.

Olha só, cuidar de filho é obrigação da família, e como a família se organiza pra cuidar dos filhos – trabalhando um, trabalhando outro, trabalhando os dois, criando sozinha, isso é problema da família e ela que decide como é melhor pra ela!

Tem casos que nenhum dos dois pode ou quer ficar em casa e os dois resolveram/precisaram trabalhar e isso também é OK! O que me parece importante é o seguinte: a criança está sendo cuidada, recebendo afeto, amor, atenção, carinho, tendo as necessidades tanto emocionais quanto materiais atendidas? Está? Então ótimo.

 

Posted in Diálogos internos, Vida, universo e tudo mais | Comments Off on Falando sobre pais que ficam em casa cuidando de filhos

Repercussão do post “Da relação direta entre poder abrir… etc”

Você sabe de qual post eu estou falando. Sim. Eu o publiquei em 2009, causou algum agito entre as pessoas e depois dormiu.

Até que em 2013 ele explodiu sensacionalmente. Do nada. Um belo dia, a Internet português-falante descobriu meu post e foi em peso ler. Fiquei entre surpreso e feliz, mas assumi que seria um fogo de palha, e que logo a Internet iria descobrir um vídeo de gatinho ou algo assim e esqueceria meu post.

Não só errei a previsão, como o meu post começou a ter o estranho hábito de sair correndo da Internet e acessar o mundo real.

Os primeiros sinais desse post pular pra fora da Internet direto pro mundo real foram pessoas me contando que ele havia sido discutido em sala de aula, em diversas séries. Começou brando.

Daí saiu uma nota sobre mim no Notícias do Dia, um jornal de Floranópolis.

(Meus pais moram em Florianópolis, e eu morei lá quando a Hercílio Luz recebia tráfego de carros. Yeah, eu atravessava a Hercílio Luz de ônibus pra ir pra escola).

Bom, ok. Daí a revista The Flowers de Holambra republicou meu texto na edição de dezembro de 2013, com nome e fotinho minha e tudo o resto. Me pediram autorização, eu dei.

Perfeito. Aí uma leitora me perguntou o seguinte: “por favor ducs me responde essa essa pergunta. o que predomina nesse otimo texto escrito por você. foi uma questão deconcurso e ela me tirou da classificação”

E eu com aquela cara de “que concurso…?”

Algumas googladas depois, eu descobri que o IFSUL (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia) usou meu texto pra um concurso para assitente em administração. Tipo, toda a prova de português usou como base meu texto.

Pera, que a coisa fica estranha: eles usaram meu texto mas deram como autor um tal de Caio Braz :( O cara republicou meu texto no blog dele e aparentemente o pessoal do IFSUL não sabe ler muito bem, porque estava escrito no primeiro parágrafo do post dele que o texto era meu. Eita, IFSUL, que feio! Ou que fail! Ambos.

De toda a forma, nunca imaginei que iriam fazer uma prova toda usando esse texto como subsídio.

Tudo o bem, daí hoje uma leitora me avisou que republicaram meu texto no jornal Bem Estar, distribuido em São Leopoldo, Novo Hamburgo, Sapiranga, Campo Bom, Estancia Velha, Ivoti e Dois Irmãos no Rio Grande do Sul.

Dessa vez puseram o crédito certo.

O texto está sob uma licença Creative Commons, que permite a pessoa republicá-lo (com os devidos créditos, o que o IFSUL não fez)  sem me pedir antes (desde que não seja para fins comerciais), então o pessoal que republica não tá fazendo nada de errado, desde que não assuma autoria do meu texto nem saia revendendo.

Então é muito legal receber essas surpresas. Uma das coisas que me diverte um tanto é ver como esses veículos todos sisudos lidam com a existência do único palavrão do texto.

(Vou citar, tampe os olhos se for muito sensível: “Quem seu pai é ou foi não quer dizer nada sobre quem você é. E nada, meu amigo, nada te dá o direito de ser cuzão.”)

Obviamente nenhum deles publicou o cuzão (ao contrário de muita mídia durante o carnaval). A maioria simplesmente cortou a frase. Mas o jornal Bem Estar mudou para “canalha”.

Eu teria mudado pra “babaca”, se o cuzão tivesse incomodando muito (em geral eles são insuportáveis mesmo), mas enfim, agora já era.

A explosão virótica desse post me ensinou uma coisa: texto é que nem filho. Você cria, você prepara o melhor que pode e, um belo dia, solta no mundo. E depois que solta, eles têm a sua vida própria.

Ele se espalha na cabeça das pessoas, e em cada uma se transforma. Muitas pessoas gostaram do texto por motivos opostos, cada um achando que eu tava dando razão pra algum diálogo interno que eles tinham na cabeça.

De repente tem 14 questões de prova sobre ele e você fica espantado proque não sabe responder a todas as perguntas.

E, como um filho que caiu no mundo me mandando cartões postais de lugares distantes, eu me surpreendo e me preocupo a cada noticia de republicação. E penso: “se saiu muito melhor do que eu esperava, esse guri”.

Posted in Meta-blog | Comments Off on Repercussão do post “Da relação direta entre poder abrir… etc”

Aquele momento

Aquele momento em que você é pequeno e vê um grupo de crianças do seu tamanho brincando e pensa vou brincar junto e é rejeitado e descobre que os outros não querem que você brinque junto, não por causa de algo que você fez ou deixou de fazer, mas pelo que você é, e portanto, por algo que você não pode mudar nem que queira, o que te leva a deixar de gostar de algo que é parte de você e te define, por ser uma característica que te impede de ser aceito pra brincar junto com os outros. Aquele momento fica com você por décadas mesmo depois que você descobre que ser diferente não é necessariamente ruim, porque tem coisas que você realmente não quer ser igual. Aquele momento.

Posted in Diálogos internos | Comments Off on Aquele momento

Prioridades

Eu sou pai de menina, e isso automaticamente gera várias pessoas me perguntando da preocupação que terei quando a Babyduc estiver na hora de arrumar namorados, se vou ficar com ciúmes, como irei proteger minha princesinha e tal.

Primeiro acho meio precoce isso – ainda tenho fralda pra trocar, e conflitos de parquinho pra gerenciar. Mas se querem uma resposta, eu me preocupo muito mais sobre como criar uma filha que seja forte e autoconfiante pra lidar com um mundo absurda e agressivamente machista do que com os futuros namorados dela. Mas sei lá, cada um com suas prioridades.

Posted in Diálogos internos | Comments Off on Prioridades

Dá pra aprender sem tomar castigo?

Eu tinha uns 14 ou 15 anos e estudava em um colégio particular. Eu era no geral bom aluno e comportado, mas um dia eu cabulei uma aula pra jogar truco com meus amigos. Estávamos em pleno jogo e não notamos o diretor da escola se aproximando lentamente de nós. Ele parou na nossa frente, mãos pra trás, olhando sem dizer nada.

Congelamos.

Ele era já um senhor de cabelos muito brancos, figura tranquila, voz mansa.

Ele disse com calma:

– A mensalidade dessa escola é dezenoito mil patacas (eu não lembro a moeda da época, cruzeiro, cruzado, algo assim). Por dia, vocês tem 4 aulas. Por semana, são 20 aulas, dezenoito dividido por 80, vezes quatro de vocês… joguinho caro esse, hein? Quem tá pagando?

E foi se afastando, mãos nas costas. Sem punição, sem suspensão, sem advertência. Nada. Ele simplesmente foi embora.

Eu não lembro a aula que eu tava cabulando, mas eu lembro muito bem do que aprendi nela. Até hoje.

Posted in Crônicas, Educação, O que eu aprendi hoje | Comments Off on Dá pra aprender sem tomar castigo?

Você é feliz?

Na minha opinião, felicidade é dada por 3 coisas:

1. Necessidades básicas supridas. Nisso incluo saúde, comida, segurança, etc. Coisas que, em faltando, ameaçam de maneira imediata a continuidade da existência.

2. Círculo social: pode ser amigos, pode ser sua esposa, pode ser sua igreja… contato humano de alguma forma. Agora, eu sei que há ermitões e pessoas misógenas que se definem como felizes sem humanos—mas de alguma forma elas substituiram o circulo social por alguma outra coisa. Animais, objetos inanimados, uma entidade Abstrata… mas mesmo assim, são casos extremos. Em geral, algum círculo social humano você tem de ter. Seres humanos são essencialmente sociais.

3. Senso de propósito: dar algum sentido à sua existência. Pode ser qualquer coisa: sua profissão, ajudar os outros, enriquecer, derrubar a floresta amazônica (eu não disse que tem o propósito tem de ser louvável: canalhas se definem como felizes também), criar uma obra prima, criar os filhos, colecionar tudo referente aos ramones. Qualquer coisa que dê um norte, um motivo pra você sair da cama de manhã e você julgue que valha a pena, que justifique seu tempo no planeta.

As pessoas que tem os 3 fatores dizem que são felizes.

Faltando o ítem 1, 2 ou 3 temos angústia.

E aí, você é feliz? Se não é, pense: qual dos três está faltando?

Posted in Vida, universo e tudo mais | Comments Off on Você é feliz?

Regra básica e essencial para todo tipo de debate

Grandes debates assolam nossa era. Pessoas se exaltam, e às vezes esquecem de algumas regras básicas, e aqui vai uma:

Se algum dia você se ver defendendo ou justificando o assassinato de crianças, você está errado.

Não vou entrar no mérito (ainda) de assassinato em si, mas vamos solidificar isso primeiro: não há justificativa moral, política, ideológica, religiosa ou de qualquer espécie para se assassinar crianças. OK?

Tropas israelenses atiraram em crianças palestinas? Elas estão profundamente erradas. Não quero saber se os palestinos isso, ou a política aquilo, não tem justificativa.

Palestino explodiu ônibus de crianças israelenses? Ele está profundamente errado. Não quero saber se os israelences fazem o mesmo ou se eles ocuparam a região ou isso ou aquilo.

Não se mata criança.

Não se prenda aos exemplos de Palestina e Israel aqui. Qualquer outro caso serve pra ilustrar. Não importa.

Foda-se a sua afiliação, o que o outro fez primeiro, ou o que está escrito ou deixa de estar escrito em que livro, ou os séculos de opressão de qualquer lado.

Não se mata criança.

Se você se achar, em um desses debates de internet, justificando assassinato de criança, você está muito profundamente errado. Procure ajuda.

Falou? Obrigado. Era isso.

Posted in Diálogos internos | Comments Off on Regra básica e essencial para todo tipo de debate

O maior desastre aéreo da história – Parte III (Final)

(Leia a parte II)

Em meio a densa neblina que cobria o pequeno aeroporto de Tenerife, o voo KLM 4805 carregando 248 pessoas acelera na pista, em procedimento de decolagem. Infelizmente, na mesma pista estava o voo Pan Am 1736, com 396 pessoas, taxiando e tentando achar a saída que deveria tomar.

Sem poder enxergarem-se, e sem poder enxergar a torre, nenhuma das três partes envolvidas está ciente do que está para acontecer e o que as outras estão fazendo.

“Claro que sim!”

Ainda sem saber que o KLM acelerava em procedimento de decolagem, a torre de controle pede para que o Pan Am reporte seu status.

Torre: Papa Alpha um sete três seis, reporte [quando tiver] a pista livre.
Copiloto Pan Am: Ok, reportaremos quando tivermos liberado.

Ao contrário da mensagem anterior, essa foi claramente audível na cabine do KLM. Porém, nem o piloto-estrela da KLM nem seu copiloto acusaram ter ouvido a mensagem. Quem reagiu foi o engenheiro de voo, ou terceiro piloto, o oficial mais júnior da cabine.

Terceiro piloto KLM: Quer dizer que ele ainda não terminou então?
Piloto KLM: Como é?
Terceiro piloto KLM: Ele ainda não terminou, o Pan Amareican?
Piloto KLM: Claro que sim!

Confrontado com a resposta tão enfática do oficial mais sênior de toda a frota da KLM, e com o silêncio do copiloto, o terceiro piloto não disse mais nada. Sua pergunta seriam suas últimas palavras.

“Todo cheio de pressa”

Na cabine do Pan Am já haviam notado a ansiedade do piloto holandês.

Piloto Pan Am: Vamos cair fora daqui.
Copiloto Pan Am: Yeah, o cara tá ansioso, né?
Piloto Pan Am: É, depois de ficar nos empatando todo aquele tempo [com o abastecimento], agora taí todo cheio de pressa.

Nesse momento, o piloto do Pan Am olha pela janela e vê as luzes do Boeing KLM vindo a toda velocidade.

Piloto Pan Am: Tali ele, olha lá o cara, o FILHO DA PUTA TÁ VINDO EM CIMA DE NÓS!!
Copiloto Pan Am: SAI FORA SAI FORA SAI FORA

O Piloto da Pan Am imediatamente acelera suas turbinas ao máximo e joga o avião para a grama, tentando livrar a pista para o bólido azul rugindo em sua direção.

Ou. Se

O Capitão Van Zanten enxerga o Pan Am e percebe que seu terceiro piloto estava certo. Solta um palavrão e puxa o manche, tentando desesperadamente tirar o avião do chão antes da colisão.

A cauda do Boeing bate na pista arrancando um rastro de faíscas. O avião decola, e o nariz da aeronave ultrapassa o deck do Pan Am.

A turbina não.

Por meros metros, a turbina não passa limpa pelo Pan Am. Se o Pan Am tivesse pego a terceira saída como instruído, teria dado tempo.

Se o KLM não tivesse reabastecido e, portanto, estivesse mais leve, teria dado tempo.

Se o rádio não tivesse dado interferência, a decolagem poderia ter sido abortada.

Se o capitão tivesse confiado no seu terceiro piloto, poderia ter evitado a colisão.

Se não tivesse neblina. Se o aeroporto tivesse radar de solo. Se nunca houvesse bomba em Las Palmas. Se o capitão estivesse sem tanta pressa, ou prestando atenção, ou…

Ou. Se.

Vítima 583

A turbina bateu em cheio no deck do Pan Am. O KLM chegou a levantar voo, mas afocinhou logo a frente. Todo o combustível extra colocado no KLM pegou fogo. O incêndio matou todos os ocupantes do avião, e a maior parte dos ocupantes do Pan Am.

Enquanto isso, com o teto arrancado, as turbinas do Pan Am ainda giravam em toda velocidade. Os poucos passageiros que escaparam do incendio fugiram para a asa, para esperar resgate.

Que demoraria ainda, pois devido à neblina, só notaram que havia UM avião caído, sem perceber o segundo em chamas e também destruído.

As turbinas do Pan Am se desintegraram, espalhando destroços em alta velocidade por toda a parte. Uma comissária de bordo foi atingida e morreu.

Foi a vítima de número 583. Nenhum outro acidente aéreo matou tanto.

Mais seguro

O desastre de Tenerife teve impacto profundo na aviação. Diversos procedimentos foram alterados ou criados para evitar esse tipo de situação.

A KLM reconheceu que a responsabilidade final pelo acidente foi de seu melhor piloto, e compensou as famílias das vítimas e os sobreviventes.

Foi construído um novo aeroporto em Tenerife, em um local que nunca tem neblina, para receber grande aviões, deixando o outro aeroporto de Tenerife para atender apenas pequenas aeronaves que fazem o tráfego local.

E instalaram a porra de um radar de solo lá.

Posted in O que eu aprendi hoje | 1 Comment